Pouca terra e vistas curtas: Estação de São Bento ou Grand Central Station?

Rui Moreira vai continuar a observar serenamente a destruição da principal estação ferroviária do Porto?

A Estação de São Bento é, no Porto, um edifício importante como espaço público que cruza memória coletiva, história e enraizamento da população com vida, movimento e multiplicidade. Por ser um garante da mobilidade e coesão social a nível regional, o projeto para ali proposto não pode deixar de ter em conta todas estas características.

Abandonada há demasiado tempo pelas Infraestruturas de Portugal, aliás, tal como todo o Centro Histórico do Porto — não obstante ser Património da Unesco desde 1996 —, São Bento ficou também votada ao esquecimento pela Câmara do Porto. Nem uns nem outros se preocuparam com o que ali se poderia instalar. E continuam. Usam agora a panaceia do abandono que é a máscara do imobilismo: usada para desculpabilizar a falta de intervenção pública, glorifica a resposta uniforme do mercado e não serve o Porto, a região ou a estação.

Este espaço é diversidade. Entre os viajantes que a frequentam e a população que a utiliza, o projeto de São Bento pode incluir cafés e livrarias (de viagens, por que não?) e incorporar um polo da biblioteca municipal com jornais e computadores de livre acesso. Pode conter um albergue para sem-abrigo tal como já ali cabe um hostel para os viajantes. E ainda conter um centro interpretativo e pequenas lojas de frescos e produtos provenientes das zonas percorridas pelas linhas férreas que ali convergem. Pensar São Bento é ponderar todas as vidas que ali se cruzam e reconhecer que as estações querem-se vivas.

Defender a Estação de São Bento começa por respeitar o seu contexto e impedir que seja convertida em mais um espaço comercial monocórdico, entregue a multinacionais colonizadoras de espaços singulares em todas as cidades. O pouco da proposta que se conhece é isso mesmo, a resposta fácil e de vistas curtas, sem identidade própria, inovação ou que fomente a economia local. Entre uma espécie de shopping gourmet e um espaço ao abandono, sempre existiu outra hipótese: criar espaços públicos multifuncionais, abertos à diversidade e onde se produzem encontros para além do promovido pelo mero consumo.

E é preciso clareza no processo. O Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, tal como o Ministério da Cultura, devem uma explicação ao Porto. Foi nesse sentido que o Bloco de Esquerda questionou o Governo sobre o processo de concessão dos espaços da estação e dos projetos aprovados, indagando igualmente sobre o nível de envolvimento da Câmara do Porto nessas decisões. Ao que sabemos, existem dois projetos com parecer positivo pela Direção-Geral do Património Cultural, informação que este serviço não desmentiu. Já a Time Out e o presidente da câmara confirmaram a existência do projeto em altura do arquiteto Souto Moura.

E é aqui que se levantam questões sobre a intervenção da câmara. Respostas como Starbucks e mercados Time Out são o espelho das propostas que surgem invariavelmente quando se reabilitam este género de espaços. E é também invariável que sejam aceites sem oposição. Rui Moreira, que todas as semanas se bate pela importancia do aeroporto, vai continuar a observar serenamente a destruição arquitetónica e patrimonial da principal estação ferroviária do Porto? É aceitável que, passados dois anos deste processo, governo, Câmara Municipal do Porto e SRU não se tenham já sentado à mesa para clarificar o destino de São Bento?

O que o município tem poder de reivindicar são propostas e processos de envolvimento da comunidade em que o património se insere. Falamos de quê? De um projeto conduzido pelos poderes públicos locais e nacionais e não pelos apetites do mercado. De uma ideia de estação que envolva a população que a frequenta, do morador suburbano ao turista, do sem-abrigo ao viajante, dos vendedores aos artistas de rua. Se for apenas um projeto de mercado, sabemos o destino: quem não consome não cabe, quem afasta “clientes” é afastado por seguranças. Ora, o Porto não deve querer higienizar um espaço seu para fazer desaparecer uma parte da sua população, mas sim aproveitar um lugar como aquele para promover o encontro entre modos de fazer cidade. O Porto não é Lisboa e também não tem de ser Londres ou Nova Iorque.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico