Já é possível obter ADN de um cabelo sem raiz

Pode parecer tirado das séries televisivas policiais, mas não é. Está a ser criada uma base de dados de solos do país e também já foi testada uma nova metodologia para análise de ADN de cabelos sem raiz (o que tinha poucas hipóteses de sucesso até há pouco tempo). Duas ferramentas que podem ajudar a desvendar um crime.

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Uma cena de crime Fernando Veludo/NFactos

E se já for possível saber que um cabelo sem raiz, encontrado num cenário de crime, é do suspeito? Ou que os vestígios de solo, recolhidos nos sapatos ou nos pneus do carro dele, são iguais aos do local do crime ou aos encontrados na roupa da vítima, recorrendo a uma nova base de dados forenses com duas centenas de amostras de sedimentos (areias) e solos da zona costeira de Portugal continental e de algumas ilhas dos Açores? Uma base de dados ainda em estudo e que, dentro de alguns anos, pode vir a tornar-se um mapa de solos forenses do país.

Estas são algumas das novidades que foram apresentadas esta semana nas Jornadas de Polícia Científica da Polícia Judiciária (PJ), na sede da PJ de Lisboa. O director do Laboratório de Polícia Científica (LPC), Carlos Farinha, diz que ambas as investigações “podem sempre gerar valor acrescentado, mas que, por enquanto, são uma hipótese de trabalho” que precisa de ser validada, ou seja, testada.

O LPC nunca usou como prova a nova metodologia dos cabelos sem raiz, que ainda precisa de continuar a ser testada e validada para uma possível utilização. Mas já recorreu, em perícias, à base de dados forenses dos solos, desenvolvida na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), no âmbito de um protocolo de colaboração com esta instituição académica. E que pode ser útil como prova em tribunal.

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Alexandra Guedes

A líder do projecto, Alexandra Guedes, da FCUP, começou a recolher há uma década as amostras. Recentemente, as amostras aumentaram de número depois de Ângela Pacheco, Inês Correia e João Gomes, três alunos do mestrado em Geologia, sob sua orientação, terem feito um estágio no LPC, onde também foram co-orientados por Ana Assis, da área da físico-química.

Por exemplo, obtiveram mais amostras de solos de zonas de criminalidade elevada na região de Lisboa. “Com o objectivo de caracterizar solos da região de Lisboa em áreas conhecidas pela sua elevada taxa de criminalidade, foram seleccionadas e recolhidas, em colaboração com o sector de local do crime do Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária, 33 amostras de solo nas áreas do Guincho, Caxias, Monsanto e Loures”, lê-se na tese de mestrado de Ângela Pacheco. São oito da praia do Guincho, seis da praia de Caxias, 12 de Monsanto e sete de Loures.  

Os três estudantes avaliaram três propriedades do solo com equipamentos portáteis não destrutivos: a cor, a susceptibilidade magnética e a composição química elementar.

Mas ainda “falta muito” para haver o mapeamento forense de solos de todo o país, que será uma importante peça nas perícias e na resolução de crimes. É um processo demorado e exige o envolvimento de muitas pessoas na recolha das amostras. Alexandra Guedes dá o exemplo da Escócia, que já tem um mapeamento forense, ou o Reino Unido, que apenas tem a zona costeira, e a Califórnia, nos EUA, que possui amostras de uma dada área restrita.

Por enquanto, em Portugal existe uma base de dados forenses com cerca de 200 amostras de sedimentos e solos da zona costeira de Portugal continental e dos Açores que pode ajudar a resolver algumas perícias, por exemplo, em casos de homicídio. “O que quer que as pessoas toquem e tudo o que as contacta deixa ‘rasto’. Se identificarmos esse rasto, podemos concluir onde uma pessoa foi e, até mesmo, colocá-la num determinado local”, afirma a investigadora que conta no currículo com várias publicações científicas sobre este assunto.

Imaginemos que, durante a investigação de um homicídio, a polícia colheu solo na vítima encontrada num determinado local. Ela pode ter sido levada de outro sítio para aquele. É possível comparar esta amostra com existentes na base de dados forenses para averiguar se têm características semelhantes. Se tiverem, explica a investigadora, “é a presença de partículas minerais raras ou incomuns que fornece um elevado poder discriminatório ao solo” que está a ser investigado.

Esta base de dados também pode ser usada para provar que um suspeito que garante que nunca esteve no local do crime, na realidade esteve. Pode ter no tapete ou nos pneus do seu carro vestígios de solo igual ao encontrado na zona ou na roupa da vítima de homicídio. Logo, pode servir de prova em tribunal.

“O solo possui uma assinatura biogeoquímica única que pode ser utilizada durante uma investigação forense para fornecer indícios acerca da sua origem geográfica”, afirma Alexandra Guedes. E pode responder a questões como “que material é este, de onde é originário, se é ou não exclusivo do local do crime, contribuindo assim para limitar áreas de busca ou eliminar áreas de inquérito”.

Um ADN degradado

“A maioria dos cabelos que chegam para análise de cenas de crime não contêm a raiz e, infelizmente, é nela que a grande maioria do ADN se encontra”, diz por sua vez ao PÚBLICO a investigadora Cátia Martins que conseguiu dar resposta a este problema. Cátia Martins procedeu à análise genética de cabelos sem raiz no âmbito do seu estágio do mestrado em Genética Forense, entre 2015 e 2016, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que fez no LPC.

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A investigadora Cátia Martins

Esta investigação vem ao encontro de um projecto da área da biologia do LPC “para colmatar uma falha na obtenção de resultados neste tipo de amostras”. A investigadora apenas comparou amostras de cenas de crimes, mas, refere, “nunca foram usadas como prova”.

Sendo os cabelos uma das provas mais encontradas em cenas de crime, é difícil obter um perfil genético passível de ser comparado. “Mesmo quando as amostras de cabelos ainda contêm raiz, a probabilidade de obter um perfil de ADN completo, utilizando a metodologia convencional, é de cerca de 60% a 70%.”

Em vez dos kits convencionais usados, a investigadora testou dois novos kits de quantificação e amplificação da molécula de ADN – o InnoQuant HY e Innotyper 21, ambos desenvolvidos e patenteados pela empresa norte-americana InnoGenomics e à venda no mercado desde Setembro de 2016. O LPC adquiriu esses dois testes que lhe permitiram produzir resultados “bastante satisfatórios” em amostras de cabelos sem raiz provenientes de cenas de crime reais, o que até à data era bastante difícil.

“O que prova que a implementação e a utilização destes kits na rotina laboratorial do LPC seria uma mais-valia”, conclui Cátia Martins, que é a principal autora de um artigo científico publicado recentemente na revista Forensic Science International com os seus resultados sobre estes novos testes. O director do LPC é da mesma opinião, como já mencionado, pelo que defende que ainda é preciso continuar a testar e validar antes de uma possível utilização.

Mas será uma revolução nas ciências forenses? “Não diria uma revolução, mas, antes, uma inovação, pelo facto de permitir obter resultados em amostras que são consideradas difíceis pela sua quantidade e qualidade de ADN limitada”, explica Cátia Martins. Na prática, explica, “os fios dos cabelos possuem algumas células nucleadas [com núcleo] biologicamente mortas, chamadas queratinócitos, que tornam possível a extracção do ADN. Embora esteja bastante degradado e com pouco número de cópias, pode ser quantificado e amplificado por estes novos kits e permitir a obtenção de um perfil genético”.

A partir de agora já ficou assim mais fácil descobrir se um fio de cabelo sem raiz encontrado, por exemplo, junto de uma vítima de homicídio era do suspeito do crime. Cátia Martins conseguiu estabelecer uma conexão, baseada em probabilidades, entre a cena de crime e um suspeito ou vítima, através da comparação de dois perfis genéticos. “O que auxilia a produção de prova e a investigação forense”, garante a investigadora.