Opinião

Um diálogo de surdos-mudos

Antes de haver qualquer acordo substancial entre o PSD e o PS (e eventualmente o CDS) teria de ser decretado o funeral da “geringonça”.

E subtilmente, qual libelinha de nenúfar em nenúfar, o “diálogo”, os “acordos” e os “consensos” regressaram à primeira fila do debate político. Porquê, é fácil de adivinhar e para quê também. A um ano ou um ano e meio de eleições legislativas, a apologia do consenso em torno de reformas “urgentes”, “inadiáveis” e “fundamentais” fica sempre bem como propaganda. Se há nesta atmosfera cor-de-rosa e odor a incenso de sândalo alguma seriedade, isso é uma coisa diferente. O PSD pode estar verdadeiramente interessado em partilhar responsabilidades para o futuro com o PS, mas o PS não parece disposto a dar protagonismo ao PSD correndo o risco de desagradar aos partidos mais à esquerda que o apoiam no Parlamento. Então, por que razão anda Rui Rio tão empenhado em aspergir o seu mandato com o perfume do diálogo e da conciliação e que motivos levam o PS a ir a jogo? Simples: essa música cai sempre bem nos ouvidos dos eleitores. Ninguém perde nada por esboçar uma pose adulta e responsável.

Vejamos o trajecto de Rui Rio em busca dos consensos para percebermos o que está em causa. O novo líder do PSD acolheu esta necessidade desde a primeira hora e chegou a ter coragem de dizer que, num cenário extremo, admitiria até uma coligação com o PS para afastar a extrema-esquerda do poder. Claro que depois afinou a mensagem, acabou com algumas interpretações abusivas e assinou no congresso deste fim-de-semana a certidão de óbito de um eventual bloco central. Mas não desistiu do tema. O “diálogo entre partidos” é “decisivo para o futuro de Portugal”, disse no discurso de encerramento do congresso. “Quando levamos [os partidos] as nossas diferenças para lá da própria realidade e as fechamos completamente, só estamos a prejudicar o interesse nacional”, acrescentou. E foi então que, depois das proclamações programáticas, que Rui Rio disse ao que vinha: “É minha convicção que o povo entende isso melhor do que nós possamos pensar.”

Ora “se o povo entende”, é porque gosta e, se gosta, um partido em busca de 800 mil eleitores perdidos nas últimas eleições não pode deixar passar a oportunidade de ser sedutor. Não quer isto dizer que a apologia de Rui Rio seja insincera. Mas, sendo sincera, é também interessada e interesseira (o que não deixa de ser legítimo). Tão interessada que se tornou num ângulo fundamental do programa com que Rui Rio pretende reerguer o PSD. Com o partido recentrado mais à esquerda onde o PS reina em absoluto conforto, Rui Rio precisa de palcos para poder projectar a palavra da alternativa. O diálogo é uma peça crucial dessa operação. Ora leia-se o que escreveu a propósito José Pacheco Pereira, um velho compagnon de route de Rui Rio, no PÚBLICO de sábado passado: “Contrariamente ao que se tem dito, adversários e jornalistas, a mudança de atitude de Rio quanto a entendimentos com o PS é até agora a sua principal vantagem política, a única que pode apaziguar os eleitores moderados que poderiam então escolher de novo ao centro.”

Não é preciso muita fé na bondade humana para se perceber que Rui Rio (e José Pacheco Pereira) tem razão. No congresso, o novo líder do PSD deixou no ar a ideia de que uma das causas que mais e melhor explicam o afastamento dos cidadãos dos partidos tem que ver com a sua eterna propensão para o conflito viril e a escassa abertura para a aproximação de pontos de vista. Quando um cidadão ouve um deputado como Hugo Soares, até há pouco líder da bancada parlamentar do PSD, a exigir em Janeiro que o partido chumbe o Orçamento que se conhecerá lá para Outubro, só pode ficar a pensar que aquela gente está toldada pelo sectarismo e vive na estratosfera. Quando o mesmo cidadão ouve um dirigente como Rui Rio admitir que o seu partido quer dar as mãos ao PS para enfrentar as dificuldades do país, tenderá a acreditar que esse dirigente é alguém ligado à terra e preocupado com o que de facto interessa às pessoas. Há nesta argumentação elevadas doses de primarismo argumentativo? Claro que sim. Mas, muitas vezes, as mensagens simples na política são as mais eficazes.

Se é fácil perceber as causas da pré-disposição dos dois partidos para os acordos, mais difícil é acreditar que esse enlevo feito de paz e concórdia leve a algum lado. Aqui chegados, é crucial determinar a fronteira que separa a intenção sincera da hipocrisia táctica. Olhando para o passado recente, o que vemos são sucessivos gestos de dissimulação e de propaganda servida como munição aos militantes que continuam a olhar a política como una luta de galos. O PS, o PSD e o CDS concordaram em assinar o memorando da troika porque estavam (e o país também estava) entre a espada e a parede e depois disso dedicaram-se a negar qualquer outro acordo, atribuindo a culpa à intransigência do vizinho. Nessa refrega, o PS ganhou o combate da propaganda e meteu o seu rival numa bolsa de irresponsabilidade, egoísmo e de falta de sentido de estado. Rui Rio quer sair daí para reequilibrar os termos do braço-de-ferro. Compreende-se.

Antes de haver qualquer acordo substancial entre o PSD e o PS (e eventualmente o CDS) teria de ser decretado o funeral da “geringonça”. Ninguém acredita numa reforma da Educação, na Saúde, no Estado e ainda menos na Segurança Social que fosse capaz de juntar na mesma mesa Catarina Martins, Jerónimo de Sousa, António Costa e Rui Rio. Se o Bloco e o PCP não se entendem com o PS em tudo o que vá para lá da devolução de rendimentos aos funcionários públicos, como iriam fazê-lo com o PSD? Juntar o PSD ao clube numa agenda de reformas só tornaria a engenhoca ainda mais instável e incoerente. E António Costa sabe-o bem. Tão bem que já veio dizer que, a haver acordos sobre reformas, terão de ser a quatro  – ou seja, não serão. Ou serão meios acordos baseados em propostas do Governo, como o pacote da descentralização, ou em desenhos vagos sobre o ciclo de fundos estruturais que chegará depois de 2020.

Mais do que uma intenção sincera, o “diálogo” é um gesto de ilusionismo que todos os partidos tratarão de repetir até às eleições. Haverá muitos apelos que o Presidente-Rei tratará de amplificar, Costa e Rio usarão palavras belas para nos dar conta das suas preocupações, mas, no fundo, no fundo, tudo não passará de música celestial. A democracia portuguesa ainda não está suficientemente madura para que os partidos encarem os consensos mínimos sobre questões cruciais como algo normal e indispensável. Ainda estamos no tempo da política analógica onde berra quem se quer fazer ouvir. Mais uns dois ou três meses há-de vir a seca, mais incêndios, as greves, o pacto de estabilidade e os partidos dedicar-se-ão ao que sabem e gostam de fazer: interpretar o papel da tribo primitiva em rituais bélicos enquanto esperam o momento para desferir um golpe no seu adversário. Diálogo? De surdos-mudos, talvez.