Crítica

Gente de gelo

Eu, Tonya é um olhar sobre uma América “feia”, rural, que evita a sobranceria.

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A fama, o sucesso, são obsessões americanas e Eu, Tonya é um retrato distorcido dessas obsessões a funcionar
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“Era assim um bocado como a América: ou se ama ou não se é grande fã, e a Tonya era totalmente americana”, diz-se logo num dos depoimentos iniciais, dados no estilo de falso documentário que enforma a narrativa contada por Craig Gillespie. Narrativa que é uma das histórias mais bizarras dos anos 90 americanos, a do conflito dentro da equipa olímpica de patinagem artística que teve climax na agressão a uma patinadora, Nancy Kerrigan, a mando da entourage da sua rival Tonya Harding. Tonya, cujo ponto de vista é essencialmente respeitado pelo filme, sempre negou a sua responsabilidade no incidente, mas não escapou de consequências drásticas: a carreira de patinadora acabou aí, banida, por decisão judicial, de todas as competições oficiais, e pelo menos durante alguns anos foi uma celebridade, mas uma daquelas celebridades que recolhem o opróbrio do público em vez da sua adoração. Como diz num desses depoimentos a Tonya a que Margot Robbie dá corpo, “pensava que a fama ia ser divertida”. Não foi lá muito, nem foi da maneira que esperava.

Mas a fama, o sucesso, são obsessões americanas, e Eu, Tonya é um retrato distorcido dessas obsessões a funcionar. A funcionar, em primeiro lugar, como pressão, sobretudo para quem nasce sem privilégios de classe. Isso é muito bem dado na relação entre Tonya e a mãe (Allison Janney), a principal “curadora” dessa obsessão pelo sucesso — o sucesso em qualquer coisa (calhou ser a patinagem no gelo) — como única forma de ascensão social. Está disposta a tudo pela filha, até a colher o seu ódio pela disciplina férrea que lhe impõe, como se o ódio fosse o preço a pagar pelo sucesso, e o sucesso é para ser obtido a qualquer custo: “nice gets you shit”, “ser boazinha não te leva a lado nenhum” (em tradução livre e menos vernacular), diz-lhe ela numa cena de diálogo que revela, se não a “moral da história”, pelo menos a moral que domina entre as personagens.

O jogo razoavelmente perigoso que Craig Gillespie joga, e que é pelo menos parcialmente bem sucedido é este: encontrar a distância certa para a dar a ver, digamos “criticamente”, esta maneira de pensar e de agir, sem perder de vista uma certa empatia e uma certa gravidade, oferecendo aos espectadores todas as pistas para que se perceba porque é que as personagens pensam assim e porque é que, provavelmente, não podem deixar de pensar assim – é uma questão de sobrevivência. O que equivale a dizer que se o filme aposta numa certa irrisão, também ela “crítica” e devolvida na forma de comédia, nunca se coloca contra as suas personagens, e sobretudo não contra estas duas, Tonya e a mãe (a “comédia” está mais reservada para os homens, o marido e os seus comparsas, desajeitados e nem por isso muito inteligentes). A saga de Tonya acaba assim por funcionar como um olhar sobre uma América “feia”, rural, “redneck”, que em grande medida evita a sobranceria e consegue estar “lá”, numa atitude não necessariamente solidária mas capaz de compreender as suas razões. E com Tonya nunca deixa de estar, o “regard-caméra” desafiante com que a deixamos no último plano sugere que há qualquer coisa a salvar dos escombros: talvez a ideia de que o “sucesso”, afinal de contas, é um estado de espírito, contra o qual os factos e as circunstâncias podem pouco.