Opinião

Bruno de Carvalho, o pequeno ditador

Lutar contra um sistema corrupto utilizando métodos totalitários é o bê-á-bá de qualquer aprendiz de ditador. Pobre Sporting. Pobre futebol português. Pobre país.

É muito difícil para quem tenha um conhecimento mínimo da história política do século XX ouvir o discurso de Bruno de Carvalho na assembleia geral do Sporting e não imaginar o seu braço direito a ganhar vida própria e a subir de forma descontrolada, tal como Peter Sellers no Dr. Estranhoamor. Há gente que se espanta por o futebol ocupar tanto espaço em jornais respeitáveis como o PÚBLICO, mas um discurso totalitário é um discurso totalitário e deve ser sempre denunciado, venha de onde vier.

Uma característica comum a qualquer regime totalitário, seja ele comunista, fascista ou, pelo que se vê, desportista, é a invasão integral da vida dos cidadãos. Tudo passa a ser político, não apenas a forma como nos comportamos no espaço público, mas também aquilo que fazemos em privado. A ambição de Bruno de Carvalho é exactamente essa: no seu entendimento, ser sportinguista não é apenas um aspecto, entre centenas de outros, que caracterizam um indivíduo, mas sim a principal singularidade que define as suas vidas, e que por isso deve ser assumida como prioridade existencial. Dito assim, esta ambição parece absolutamente ridícula e desmedida — e é —, mas é ela que permite a Bruno de Carvalho definir preceitos e sugerir regras comportamentais, não só aos sócios do Sporting, mas à totalidade dos sportinguistas, como se fosse o bispo Edir Macedo ou Il Duce.

Ao pequeno ditador nem sequer falta um pequeno ministro da propaganda, para discriminar exactamente aquilo que pode ou não ser praticado pelos membros da nova igreja sportinguista. Eis a lista de impedimentos proposta pelo director de comunicação, Nuno Saraiva: “Ver ou participar em programas de debate desportivo, ser convidado a falar de temas do Sporting CP, escrever artigos que não sejam para o Jornal Sporting, falar sobre o Sporting CP às rádios, passar links de OCS [órgãos de comunicação social] nas redes sociais, comprar jornais desportivos e também o CM, ou ver canais portugueses sem ser por lazer ou a Sporting TV.”

É um patético índex digno da Santa Inquisição, que deverá ser seguido pelos verdadeiros fiéis do “universo leonino” (35% da população portuguesa, segundo Saraiva), sendo de assumir que os incumpridores passem a fazer parte da perigosa e ímpia casta dos “sportingados”. Tal distinção, aliás, marca com clareza a pulsão totalitária de Bruno de Carvalho, separando os adeptos entre os puros (sportinguistas) e os impuros (sportingados). Só falta mesmo atribuir, numa próxima assembleia geral, uma estrela vermelha a cada sportingado e obrigar a usá-la na lapela, ao mesmo tempo que se acende uma fogueira junto ao estádio de Alvalade com exemplares de A Bola e do Correio da Manhã.

É certo que Bruno de Carvalho não tem um exército para invadir a Segunda Circular e que apenas seis mil sportinguistas subscreveram as suas posições em assembleia geral (falta ainda escutar a opinião de 99,82% dos adeptos). Mas nada disso deve servir para desvalorizar a gravidade do seu discurso e o índex do seu fiel escudeiro Saraiva, que em nome da limpeza do futebol português tem vindo a alargar o lamaçal onde ele diariamente se afunda. Por mais que Bruno de Carvalho goste de citar o seu tio-avô Pinheiro de Azevedo, a verdade é que não aprendeu absolutamente nada com ele acerca do valor da liberdade. Lutar contra um sistema corrupto utilizando métodos totalitários é o bê-á-bá de qualquer aprendiz de ditador. Pobre Sporting. Pobre futebol português. Pobre país.