Crítica

No poupar é que está o ganho

Uma gentil fábula Capriano-distópico-apocalíptica sobre as manias da grandeza da classe média americana

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Oque a classe média americana vê: Pequena Grande Vida
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No futuro próximo que Pequena Grande Vida propõe, a miniaturização celular é apresentada como uma solução ecológica para a sobrepopulação e as mudanças climáticas: reduzindo um ser humano de tamanho, a sua pegada ecológica é infinitamente reduzida, e se toda a humanidade fosse reduzida poder-se-ia contribuir para a renovação do ecossistema planetário. Mas Alexander Payne, o realizador de Os Descendentes e Nebraska, é um tipo esquinado. O que ele quer mostrar é o que a classe média americana vê como possibilidade nesta nova tecnologia criada para o bem da humanidade por uma equipa escandinava. E o que a classe média americana vê é essencialmente, como diz às tantas uma personagem mais cínica, a possibilidade de finalmente poderem viver como gente rica – a redução de tamanho oferece também uma vantagem económica, pois o dinheiro que não chega para pagar a hipoteca multiplica-se à medida que o tamanho se reduz. E a gente rica precisa de criadas, mulheres da limpeza, jardineiros… e eis a mania das grandezas da classe média americana a vir ao de cima, e Payne a provar que ninguém quer realmente saber do ambiente e que a redução de tamanho na verdade não resolve nada, antes se limita a perpetuar o mesmo status quo que já existia antes.

Parecendo que não, a gentil fábula distópico-apocalíptica de Pequena Grande Vida — e que às tantas até seja gentil em demasia — , que acompanha Matt Damon como um zé-ninguém quase capriano para quem a redução de tamanho é ao mesmo tempo a salvação financeira e a possibilidade de relançar a sua vida e o seu casamento, é subterraneamente de uma lógica brutalmente pragmática. O ser humano não vai realmente nunca mudar, vamos todos andar a fazer os mesmos erros até vir a mulher da fava rica (tanto nas nossas decisões pessoais como nas nossas opções profissionais), vamos continuar a ser consumistas e gananciosos e obcecados pelo estatuto social. Dito assim parece que Pequena Grande Vida é um filme desesperado, com uma visão negra do futuro, mas há que dizer que se trata, de facto, de uma fábula doce-amarga com um humor seco, discreto, quase imperceptível, e que o faz sempre com assinalável respeito pelas personagens que cria, que são de facto pessoas com ideias, sentimentos e falhas. É um filme que se recusa a infantilizar as suas personagens e os seus espectadores, preferindo levar a sua premissa a um corolário lógico e deixando a quem vê a tarefa de perceber o que aqui se joga — e que é, apenas, a consciência pura da nossa humanidade enquanto membros de uma comunidade. O melhor sintoma disso é que os efeitos visuais que são necessários à criação deste mundo futuro a dois tamanhos não estão lá para encher o olho ou fazer vista, mas apenas como ferramentas para criar uma realidade convincente. Pode-se sentir que Alexander Payne não conseguiu fazer exactamente o filme que a sua premissa merecia, mas mesmo espalhando-se é uma tentativa bem sincera de fazer uma comédia que ponha as pessoas a pensar.