Jovem médico ganha prémio de 20 mil euros com investigação que pode salvar vidas

Gastrenterologista de 33 anos quis perceber qual é a técnica ideal para ganhar tempo até que fígado de doentes com lesão hepática aguda se regenere ou se encontre outro para transplante.

Foto
Filipe Sousa Cardoso é gastrenterologista no Hospital Curry Cabral (Lisboa) DR

Com uma investigação sobre um tratamento que pode ajudar a salvar a vida de doentes em falência hepática aguda, uma técnica que permite ganhar tempo até que o fígado do paciente se regenere ou se encontre um órgão para transplante, um médico de 33 anos venceu o prémio Banco Carregosa no valor de 20 mil euros. 

A investigação vencedora da segunda edição deste prémio que é promovido pela Ordem dos Médicos do Norte foi realizada em moldes pouco habituais: não teve o apoio da indústria farmacêutica, decorreu em unidades de cuidados intensivos e incidiu sobre uma patologia rara, destaca o vencedor, Filipe Sousa Cardoso, que é gastrenterologista no Hospital Curry Cabral (Lisboa) e liderou este trabalho feito com mais quatro investigadores dos EUA e do Canadá.

O que este estudo demonstra é que há um método que pode ajudar um doente em falência hepática aguda a ganhar tempo para que o seu fígado possa recuperar e regenerar ou, se tal não for possível, para que se encontre um fígado compatível para transplante. Um tempo que pode revelar-se fulcral para a sua sobrevivência.

Controlar níveis de amónia

Os investigadores foram à procura da melhor estratégia para remover e controlar os níveis de amónia - uma substância nociva presente no sangue e que é especialmente tóxica para as células do sistema nervoso central –, de maneira a prevenir lesões neurológicas potencialmente fatais. Nestas circustâncias, "alguns doentes correm o risco de morrer não da falência do fígado mas de morte cerebral", explica o médico.

Para isso, foram analisadas duas técnicas de tratamento parecidas com a hemodiálise: a contínua, que implica limpar o sangue 24 sobre 24 horas (através da circulação fora do organismo, numa máquina) e a intermitente, que dura 12 horas. A técnica contínua revelou-se “significativamente mais eficaz a remover a amónia e a melhorar a sobrevida dos doentes”, concluiram os investigadores. Os resultados – remata Filipe Sousa Cardoso - sugerem que "a utilização atempada deste tipo de tratamento pode ajudar a evitar a morte precoce”.

Apesar de ser rara – estima-se que sejam detectados cerca de 100 novos casos por ano -, a falência hepática aguda é uma condição que pode acontecer a qualquer pessoa, sendo desencadeada por determinadas circunstâncias, por exemplo a ingestão de cogumelos venenosos, a reacção a uma medicação tão trivial como o paracetamol se tomado em doses muito elevadas. Nestes casos, não há tempo a perder. A taxa de mortalidade sem transplante é muito elevada, cerca de 50%, diz o especialista.

O que Filipe  Sousa Cardoso espera deste trabalho que foi realizado nas suas horas vagas – “não temos tempo dedicado [à investigação] nem remuneração específica” nos hospitais - é que possa dar origem no futuro a uma norma clínica, passando os doentes nestas circunstâncias a ter indicação para serem tratados desta forma.

Dos 39 projectos apresentados a concurso, foram distinguidos ainda outros dois, que vão receber 2500 euros cada. As mençoes honrosas foram para um estudo sobre o “Valor do prognóstico de biomarcadores cardíacos nas cardiopatias congénitas", da autoria de Ana Neves, especialista em cardiologia pediátrica do Centro Hospitalar de São João e docente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), e outro sobre "Dor crónica pós-operatória após cirurgia cardíaca", de Luís Guimarães Pereira, anestesiologista do Centro Hospitalar de São João e também docente na FMUP.