Leixões, o terramoto que varreu Matosinhos rumo à industrialização

Até Maio, a exposição Urbevoluções mostra através das artes plásticas a rotina vivida nas margens do estuário do rio Leça antes da construção do porto artificial que a par da indústria conserveira foi o motor de crescimento da cidade.

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Ponte do eléctrico DR/CMM
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Ponte do eléctrico DR/CMM
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Ponte de Matosinhos onde actualmente está a Ponte Móvel DR/CMM
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Construção do porto DR/CMM
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Um dos guindastes titan DR/CMM
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Porto de Leixões DR/CMM
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Gaivotas à chegada da sardinha (pintura, 1911) DR/CMM

No final do século XIX e na primeira metade do século XX, pelo menos 5 pontes ligavam Matosinhos a Leça da Palmeira. Havia uma para automóveis, outra de madeira para peões, uma de ferro para o carro americano, mais tarde para o eléctrico, uma para o comboio e outra de pedra do século XVI. Todas atravessavam o rio Leça, cujas margens eram local de trabalho para lavadeiras e aguadeiros e de lazer para uma elite que no Verão se deslocava até à cidade vizinha do Porto para se servir da estância balnear de rio e de mar que se misturava com o campo.

Eram as duas margens local onde se fixava a maior parte da população que vivia também da pesca e habitava nos núcleos habitacionais contíguos ao estuário em quarteirões com capelas, escolas e outro património edificado.  Em torno deste núcleo existiam aldeias e vilas dispersas pelo concelho.

O Porto de Leixões já existia desde o final do século XIX para servir de abrigo a embarcações de passageiros. Já há muito se entendia ser urgente construir no mesmo local um porto comercial. O da barra do Douro já não dava conta do recado. A primeira doca é construída entre 1932 e 1940. Mais tarde, entre 1957 e 1962, é feita a doca número dois. E é neste período, de cerca de 70 anos, entre o final do século XIX e a primeira metade do posterior, que há uma viragem radical em Matosinhos. O “terramoto de Leixões” marca essa viragem e catapulta o município com foral concedido por Manuel I em 1515 para a era da industrialização, responsável por aquele que foi o maior período de expansão da cidade que foi um dos pilares da indústria conserveira.    

Arte recupera memória do património desaparecido

Esse “terramoto” deixou rasto, mas para que esse novo destino fosse traçado houve o que foi apagado. No museu da Quinta de Santiago, até 6 de Maio, é possível recuperar a pegada desse passado, através da exposição Urbevoluções, que é uma viagem conduzida por telas pintadas por artistas da cidade ou que por ela passaram para registarem esta evolução e de alguma forma eternizarem uma época da qual poucos registos existiriam não fosse através do legado que deixaram. 

Após a construção de Leixões, na altura o maior Porto artificial do país, a paisagem urbana do estuário do Leça alterou-se completamente. Já não existem as pontes referidas, desapareceram casas, capelas, estátuas e outros edifícios. As lavadeiras que além de se servirem do rio recorriam aos tanques, deixaram de os ter – foram desmantelados. Os aguadeiros também já não existem. Do lado de Leça também já lá não está o Hotel Estefânia, sitio de eleição do poeta António Nobre.

A paisagem urbana de Matosinhos sofreu alterações profundas, conta-nos Luís Soares, museólogo da Quinta de Santiago e da autarquia. Poucos serão os que estão vivos para descrever o cenário que existia nas duas margens do rio Leça nessa altura. Servem as obras de arte expostas para que se consiga recuperar essa imagem.

Em quatro salas que visitamos com o responsável pela exposição, desvenda-se esse passado que começa em 1887, e que pouco parece ter a ver com Matosinhos de hoje. Nas duas primeiras, as obras expostas, de artistas como Agostinho Salgado, Aurélia de Sousa, Margarida Ramalho ou José de Brito, dão a conhecer “o bucolismo” de um período antes da construção das docas. Era esse bucolismo e um certo “romantismo” motivo de atracção para “os muitos” que escolhiam esta área geográfica para fugir do rebuliço da cidade. Eram para onde seguiam políticos, homens das Letras e artistas plásticos. Daí existir muito material vindo das artes plásticas que retrata essa época no arquivo da autarquia.

Nas telas estão lá as pontes, “a de pau”, e a medieval, erigida muito próximo do sítio onde está agora a ponte móvel. Há também referências ao lado mais prazeroso e de lazer associado ao rio, que não só servia para trabalho, mas também para passeios de barcos que desciam desde Guifões.   

Os célebres titans

Ainda nesta primeira parte da exposição já se vislumbra o início das construções do Porto de Leixões, com os célebres titans, guindastes construídos propositadamente para poder erguer os blocos de pedra que pesavam toneladas para construir os molhes. De resto, ainda hoje a praia encostada ao molhe do lado de Matosinhos é conhecida como a praia do Titan. Outro quadro dos anos 60, de António José Fernandes mostra a primeira versão da “ponte móvel primitiva” antes de ser inaugurada a actual em 2007.

Se nas primeiras salas estão telas mais centradas na vida quotidiana do estuário do Leça antes da finalização da construção do Porto, nas duas últimas entramos no período que designa de “terramoto de Leixões”, onde já existem referências às chaminés das fábricas de conservas, com destaque para a extinta Fábrica da Tripa, onde actualmente existe uma urbanização. Há elementos que dão conta da “azáfama” da chegada do pescado à praia de Matosinhos, onde durante anos não existia um cais, o que obrigava a que se atracasse no areal, “originando em muitos casos acidentes graves”, conta. Nos quadros de António Carneiro é possível ver algumas lanchas poveiras.  Nas obras de Bruno Reis e Jaime Isidoro já é possível ver as docas, os navios comerciais atracados, alguns armazéns e outros serviços de suporte ao porto.

Curiosamente, estaria na altura da sua construção previsto que os escritórios funcionassem na Quinta de Santiago e na da Conceição, que foi convento franciscano durante vários séculos. Nos anos 1950, os terrenos foram expropriados pela APDL, mas a câmara comprou-os nos anos 60 para transformar a Conceição num parque público, que ainda hoje funciona, e um museu na Quinta de Santiago, que abriu portas em 1996 e por ironia do destino dedica exposição ao tema nos próximos meses.   

Homenagem aos pescadores

Há espaço na exposição para uma homenagem aos matosinhenses e para todos os que se mudaram para a cidade durantes estas décadas, especialmente aos trabalhavam no mar. Na tela de Augusto Gomes, A Família, recorda-se um dos maiores acidentes marítimos, “o maior do país até àquela época”, afirma. Em 1947, junto à barra de Leixões, quatro traineiras afundarem e morreram 152 pescadores, conta. A pintura em tons cinzentos de uma família chegou a estar pendurada numa das paredes da lota de Matosinhos, construída nos finais dos anos 1950, com uma caixa de esmolas ao lado para que se contribuísse “para os órfãos” por força do acidente. Nesta obra há um quadro táctil para que cegos e pessoas com baixa visão possam percepcionar o trabalho.   

Motivos de destaque na mesma sala são três trabalhos de Hirosuke Watanuki, japonês que na década de 1960 viveu em Portugal, durante alguns anos na zona do Porto, e um excerto com 30 azulejos de um painel dos anos 1930, de autoria de Joaquim Lopes, com o total de 233, que durante muitos anos decorou a fábrica de cerâmica do Carvalhinho (1840-1970), em Gaia. Recentemente a autarquia adquiriu esta peça que retrata o dia-a-dia das gentes do mar que ali viviam.

Aumenta a população e cresce a malha urbana

Em 1890, a população de Matosinhos não chegava às 20 mil pessoas. Actualmente em todo o concelho há cerca de 175 mil. É na viragem do século XIX até os anos 1960 que se regista um aumento galopante da população, no período em que o porto é construído e em que a indústria conserveira se instala na zona sul da cidade, encostada à cidade vizinha e sede de distrito, em terrenos que até ao final do século de XIX não havia mais do que a continuação do areal da praia e terrenos baldios.

A população cresce com a chegada de pessoas de todo o país, especialmente da zona norte, “da Murtosa, Ílhavo, Póvoa do Varzim entre outros”. Chegam para trabalhar na construção do porto e para ocupar as vagas nas fábricas de conserva. “Ainda hoje os descendentes vivem em Matosinhos”, afirma.

A população de Matosinhos cresceu, mas também cresceu a malha urbana, que foi crescendo para outras freguesias. Mais próximo do estuário do Leça, o Porto de Leixões é para quem lá vive parte dessa paisagem, assim como são outras estruturas construídas após a sua edificação, como a referida Ponte Móvel, o Mercado Municipal e mais recentemente o Terminal de Cruzeiros. No resto da cidade nasceram novos quarteirões. Matosinhos-sul já não vive dos tempos áureos da indústria conserveira. Nos últimos anos, com o encerramento de grande parte das fábricas, a paisagem volta a alterar-se, com muitos armazéns vazios e outros já recuperados.   

Do passado mais longínquo, foco da exposição, que além das pinturas recorre ainda numa das secções a material fotográfico e em vídeo, é pouco o património edificado que sobra. “A construção do Porto de Leixões foi um verdadeiro terramoto. Matosinhos cresceu mais em 65 anos do que em vários séculos”, diz. Será para o museólogo este espólio da autarquia fundamental para que essa memória seja preservada: “Não fossem estas obras e poucos saberiam como era Matosinhos há algumas décadas”.