Opinião

Vamos continuar a fingir que é só futebol?

Os argumentos para o tribalismo no futebol são iguais aos argumentos de qualquer outro tribalismo: “os nossos primeiro”, “tornar-nos grande outra vez”, “todos atrás do nosso interesse supremo”. Quem discordar é traidor. Quem estiver do outro lado é inimigo.

Este fim-de-semana houve um congresso de um dos grandes partidos portugueses e uma assembleia-geral de um dos grandes clubes de futebol portugueses. As coisas estão muito mal para todos quando é do segundo acontecimento que temos de falar.

Ora, na dita assembleia-geral o presidente do clube de futebol exigiu aos sócios e adeptos que deixassem de consumir qualquer informação pela imprensa, rádio e TV que não fosse a informação do clube ou os conteúdos da TV do clube. Ato contínuo, jornalistas foram assediados por adeptos presentes na assembleia e tiveram de ser protegidos pela polícia. O que diríamos se tivesse sido um líder político a dizer estas palavras? O que diríamos se tivesse sido uma seita religiosa a praticar estes atos? O que diríamos se isto acontecesse na academia?

Como é futebol, apenas o Sindicato dos Jornalistas emitiu um comunicado — com o qual, passadas muitas horas, ainda nenhuma autoridade política ou partidária se solidarizou.

Vale a pergunta: podemos continuar a ignorar o que se passa no futebol português como sendo “apenas futebol”? Até quando fingiremos que a cultura em torno do dirigismo desportivo em Portugal não está profundamente doente? Sei que é tentador fazê-lo. Só que a complacência já se paga muito cara há muitos anos.

Não é de hoje que dirigentes do futebol português passam das marcas, sejam elas as da decência, da legalidade ou do estado de direito. E o problema não é apenas deste clube ou daquele. É uma culpa geral, agravada nos três maiores clubes nacionais. Há muitos anos que dirigentes desportivos destes, a coberto de simbolizarem clubes a que milhões de nós estão afetivamente ligados, conseguem que se feche os olhos aos seus esquemas manhosos e às suas fortunas suspeitas. Que agora cheguem ao ponto de fazer exigências de comportamento dignas de um qualquer aiatolá, fomentando um discurso de ódio contra os jornalistas, é só mais um passo num abismo moral antigo e com culpas partilhadíssimas. É mais um passo, mas não é um detalhe: a liberdade de imprensa é essencial em democracia. Claro que a liberdade de expressão, que inclui a liberdade de criticar a imprensa, também o é. Mas tentar condicionar o acesso à informação e o próprio exercício do jornalismo já não é liberdade e não é aceitável em democracia. Que tantos fiquem calados agora, quando certamente falariam se se tratasse de um caso político, religioso ou académico, é sinal de que a auto-censura funciona.

É óbvio que o futebol representa para muitos de nós uma reserva de irracionalidade. Não vem grande mal ao mundo que assim seja. Mas reservas de irracionalidade como a paixão clubística, como os ciúmes ou como o ódio, têm de ser mantidas dentro de um perímetro em que não possam fazer mal a terceiros. Esse perímetro deve ser guardado por todos os que tenham sensatez suficiente para trazer as pessoas de volta à realidade — melhor ainda se essas vozes sensatas forem de adeptos de futebol, e adeptos dos clubes em questão. Há um ponto a partir do qual o silêncio é cumplicidade com tudo o que possa vir a acontecer. A prova de que já vamos tarde é que há vários anos se firmou uma crença de que, para ganhar ou “para ser respeitado”, os dirigentes têm de ser assim. E os argumentos para o tribalismo no futebol são iguais aos argumentos de qualquer outro tribalismo: “os nossos primeiro”, “tornar-nos grande outra vez”, “todos atrás do nosso interesse supremo”. Quem discordar é traidor. Quem estiver do outro lado é inimigo.

Se o futebol fosse coisa pouca em Portugal — se movimentasse pouco dinheiro, se ocupasse poucas horas de televisão — isto seria só ridículo. Mas enquanto escrevia esta crónica chegaram as instruções do presidente do clube na especificidade: nada de ler ou partilhar artigos da imprensa que o clube não controla ou de ver televisão que não seja a TV do clube, enquanto “eles” não respeitarem os “três milhões e meio” de adeptos do clube. A primeira parte poderia fazer-nos rir. A segunda é mais preocupante. Estes dirigentes acham mesmo que por sermos adeptos dos clubes que eles transitoriamente dirigem podemos ser utilizados como uma massa indistinta para condicionar jornalistas.

Ou seja, estes dirigentes têm uma fraca opinião dos adeptos dos seus clubes: esquecem que os tais milhões de que eles falam são pessoas que pensam pela sua cabeça. Pessoas que pensam pela sua cabeça e que agora terão de pôr limites a esta insanidade, se quiserem que o futebol não possa intimidar nem a imprensa, nem as autoridades políticas, nem as autoridades judiciais.

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