O atlas e o caldo de galinha de Branko

Club Atlas é uma série documental de oito episódios em que o produtor e DJ português dos agora parados Buraka Som Sistema visita e analisa as micro-cenas musicais de várias cidades do mundo e a maneira como a tradição local e a tradição dos sítios de origem de quem lá vive se encontram na música de dança local. A estreia, na RTP2, é na madrugada de segunda para terça-feira, às 00h45.

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Branko na viagem à Índia em Club Atlas DR
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São Paulo também foi visitada por Branko e o realizador João Pedro Moreira DR

Quer saber o que se come às quatro da manhã em Lima, no Peru? Como é que os DJs locais e quem frequenta a noite se alimentam depois de saírem das discotecas? A resposta a essa pergunta, que envolve uma tigela generosa de caldo de galinha, é dada em Club Atlas, a nova série documental de oito episódios da RTP2 apresentada por Branko, ou João Barbosa, o DJ e produtor que é membro dos agora parados Buraka Som Sistema. A estreia é na madrugada desta segunda para terça-feira, às 00h45.

O programa não é sobre comida, mas é algo que está presente nos países por onde o músico viajou na primeira metade de 2017, acompanhado pelo realizador João Pedro Moreira, que também aparece na série. A começar por Lisboa – caso esteja a interrogar-se, o estabelecimento fora de horas escolhido é a Casa Cid, no Cais do Sodré –, prosseguindo pela Cidade da Praia, em Cabo Verde, a já mencionada Lima, no Peru, Montreal, no Canadá, São Paulo, no Brasil, Acra, no Gana e Bombaim, na Índia, Branko explora a história dos sítios onde nasceram micro-cenas de música de dança electrónica urbana que se cruzam com a tradição local e o que vem dos países de origem das famílias dos músicos. E muitas vezes vai até outras cidades dos países que visita.

Cada episódio é narrado pelo apresentador e mostra-o a conhecer os países aos quais vai. Dois deles são estreias: Branko nunca tinha ido ao Peru, apesar de colaborar com artistas locais e de ser a cena que conhecia melhor, nem ao Gana. A falar com o PÚBLICO no estúdio da Enchufada, a editora por ele fundada, em Lisboa, o DJ resume o programa: “Grande parte do formato passa por na primeira metade haver uma explicação do panorama social de cada cidade. Fala-se de migrações, de quem é que vem e de onde vem, por quê, etc. Até é mais uma parte falada por jornalistas do que propriamente músicos. Depois há uma explicação um bocadinho mais prática de ritmos e assim.” Muitos acabam com imagens de festas e com o próprio a actuar.

A comida entra no esquema porque, alega, “da mesma maneira que essas vicissitudes sociais existem na música e têm reflexos e consequências, acontece exactamente o mesmo na comida, é um paralelismo relativamente fácil de fazer”. Faz ligações com a realidade lisboeta: “O hambúrguer da Sónia de Alcântara, os bolos de Santos há não-sei-quantos anos...essas coisas todas fazem algum sentido estarem presentes quando estás a fazer um programa sobre a cultura de DJing, música, clubes e como é que a cultura e a música tradicional se encontram com a música electrónica. Eventualmente, às quatro da manhã às pessoas acabam todas a comer num sítio qualquer e esse percurso tinha de ser captado de alguma forma”. O caldo de galinha peruano não lhe sai, garante, da cabeça. “Todas as noites que passo que não são à Lima, às quatro da manhã lembro-me de que ia bem aquele caldo de galinha. Não é horrível, vais para a cama bem, não comeste fritos nem nada do género. É perfeito.”

 “Interessava-nos ter conversas com pessoas que conseguissem explicar os meios, a realidade social que estavam à volta destas cenas musicais e que poderiam explicar a sua origem”, afirma. “Nem sempre é o gosto ou não gosto”, assegura, é mais a importância. Entre os nomes com quem Branko fala incluem-se, em Lisboa, Pedro Coquenão (Batida), a DJ e radalista Rita Maia. Antes de partir para Cabo Verde, onde é guiado por Dino D’Santiago, encontra-se com Luís Gomes (Cachupa Psicadélica) e Mayra Andrade. No Peru, encontra-se com Matias Aguayo, descobre as origens da cumbia electrónica e como a pirataria se elevou à condição de arte, no Canadá cruza-se com Ghislain Poirier, Lunice ou A Tribe Called Red e na Índia falou com Nucleya.

Estas viagens, seja para explorar cidades e cenas musicais ou para colaborar com artistas locais, são uma parte integrante do trajecto de Branko como produtor. Já tinham sido registadas em Atlas Unfolded, uma websérie da Red Bull que acompanhou Atlas, o primeiro disco a solo, e mostrava colaborações do produtor com artistas locais – também era com João Pedro Moreira e também envolveu Lisboa e São Paulo. Funcionam também como contextualização. Normalmente, Branko descobre estas músicas e cenas através da internet. As viagens fazem-no perceber, assume, por que é que as músicas são àquilo a que soam e donde vêm.

Esta confluência de culturas e a identidade ser espelhada na música é algo que, atesta, “tem tendência para crescer mais”. “A partir do momento em que há um assumir de identidade cada vez maior dos artistas. Hoje tens noção de que os rappers são de Nova Iorque, mas são doutro sítio qualquer. Trabalhei no outro dia com um rapper, o A.Chal, que é de Los Angeles, mas é do Peru. E o Anik Khan, que é de Queens, mas os pais são do Bangladesh. Estão a contar cada vez mais essas histórias.” Uma próxima temporada é, portanto, uma possibilidade grande. De cabeça, o músico menciona “Buenos Aires, duas ou três cidades na África do Sul, Lagos, na Nigéria, Cairo, no Egipto” e, dentro da Europa, “Copenhaga”. “Dá para identificar uma linguagem interessante em quase todas as cidades”, remata.