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O país cartão-postal onde o imprevisível acontece

Na América Central, há um pequeno país que parece um manifesto. Com praias e montanhas, mais reservas naturais do que cidades, mais professores do que polícias, é um zoológico de liberdade a céu aberto, um jardim botânico em ponto grande. Mergulho numa palete de cores e sorrisos infinitos.

Se o leitor procura um destino sem imprevistos e com agenda à prova de bala, se prefere quatro paredes a um céu aberto, a tranquilidade ao coração acelerado, se é mais adepto de animais enjaulados ao invés de uma geografia sem amarras — que é o verdadeiro planeta dos bichos — então pode parar por aqui. Este destino não será, certamente, para si. A todos os outros, bem-vindos à Costa Rica...

As câmaras fotográficas não intimidam nem incomodam Cláudio Martinez. Esboça um sorriso que parece fabricado em série, tantas vezes o deverá repetir ao longo do dia. Acena, feliz, concedendo um retrato, para logo depois o trocar por dois dedos de conversa: quer saber o nosso nome, de onde vimos, o que fazemos, se estamos a gostar do país dele. Martinez nasceu ali, no Norte da Costa Rica, Tortuguero, há coisa de setenta anos. E tem por aquele lugar um amor que não se põe em palavras. “É o meu país”, encolhe os ombros se desafiado a contestar os porquês. Durante duas décadas, era ainda moço, trabalhou para o Governo e ajudou a construir os canais do Parque Nacional de Tortuguero. “Foi graças a esse trabalho que se conseguiu transportar a madeira através da água”, conta, orgulhoso da sua pegada no desenvolvimento do lugar. Reformado, Cláudio não despe o fato de promotor do destino, sentado à porta de sua casa numa aldeia sem carros e de apenas uma rua, cenário de habitações térreas, castiças, coloridas, de portas abertas. Dá informações a quem pede, conta histórias, sorri. “Se visse o que isto foi nem acreditava no que isto é”, desafia.

Antes de 1975, altura em que foi criado o Parque Nacional de Tortuguero, não se pensava em conservação naquele bosque chuvoso de mais de 26 mil hectares. Foi para proteger a tartaruga verde (o baptismo do local vem daí) que tudo começou. Todos os anos, entre Julho e Outubro, estes animais proporcionam um espectáculo único quando, durante a noite, milhares (diz quem viu que se torna impossível caminhar na praia!) trocam o mar das Caraíbas pelo areal de Tortuguero para lá fazer ninho. A época para assistir à desova das tartarugas é outra — mas na Costa Rica o espanto da vida acontece em todo o lado.

“Estamos na Amazónia da América Central”, anuncia Jorge Avila, guia da Swiss Travel e nossa companhia durante a viagem, alguns minutos depois de o porto de Caño Blanco e o Rio Pirismina terem ficado para trás e os canais do parque nacional se darem a conhecer. “Bem-vindos à selva.”

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É dentro dela que nos sentimos. No pequeno barco a motor, olhos postos nas margens, à esquerda, à direita, em frente. Canais largos, depois estreitos, muito estreitos, a mata a mostrar-se fechada, as copas de árvores por cima da cabeça. Nem a chuva pouco meiga que vai caindo diminui o espanto. Os animais andarão por ali— macacos, preguiças, iguanas, aves, tucanos. Com muita sorte, até jaguares. Mas a chuva e a temperatura mais baixa não são convidativas e poucos se dignam a mostrar a sua beleza. Uma iguana gigante numa árvore, garças tigre e outras espécies de aves... E pouco mais.

Amaldiçoa-se a meteorologia, mesmo conhecendo os avisos de que aquela é das mais chuvosas e húmidas do país. Mas como desmotivar no meio daquele cenário onde cabem todos os tons de verdes e castanhos e parece saído de um romance latino-americano?

Tortuguero foi, na verdade, o primeiro momento arrebatador da viagem. A partir dali, já não havia volta a dar: mesmo que tudo corresse mal, havia Tortuguero. A chegada tinha acontecido no dia anterior, no Aeroporto Internacional Juan Santamaria, em Alajuela, a 18 quilómetros de São José. Mas o cair da noite, entre as 17h30 e as 18h, deu apenas para uma corrida ao centro da capital e um cheiro tímido daquela que é a maior cidade do país, uma das mais seguras da América Central. Podendo passar um dia por ali, há que espreitar o charmoso Teatro Nacional, bem perto da Plaza de La Cultura, palco improvisado de diversos artistas e onde se podem visitar os dois museus do banco central: do Ouro e da Numismática. Não muito longe, estão os prédios da Assembleia Legislativa e a antiga casa presidencial Castillo Azul, além do Museu Nacional, óptimo para quem quiser mergulhar na história do país.

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Na Costa Rica rapidamente se aprende que é a luz do sol que define a nossa agenda: os dias devem começar bem cedo, com o amanhecer (entre as 5h30 e as 6h), porque a luz termina umas 12 horas depois. Religiosamente. E isso faz lembrar, ao final do primeiro dia — e depois de uma viagem de dez horas a partir de Madrid —, que a hora do repouso chegou.

Imprevistos, parte I (de muitas)

Chegara então o ansiado dia de Tortuguero. No plano de viagem estava prometido um voo interno com vistas aéreas imperdíveis, entre Alajuela e a cidade mais a norte, não muito longe da fronteira com a Nicarágua e a 80 quilómetros da cidade de Limón. Mas ainda o sol não tinha nascido e a ventania e chuva faziam antever o pior. Assim foi. À chegada ao aeroporto, a notícia: todos os voos tinham sido cancelados, havia até uma árvore caída na pista de Tortuguero. “Estas coisas acontecem, não se podem prever”, diz Jorge, como quem dá mais uma lição sobre o país. “Seguimos de carrinha, a estrada é muito bonita também”, atalha. Mas minutos depois já se sabia que também o anunciado caminho alternativo estava cortado.

- E agora?

- Agora vamos por outra estrada... é bonita também, só demoramos mais.

Não era mentira. Qualquer caminho feito no pequeno país de pouco mais de 50 mil quilómetros quadrados (Portugal tem 91 mil quilómetros quadrados) tem histórias para contar. Ainda na província de São José, a uns 40 quilómetros da capital, passa-se pelo Vulcão Poaz, ainda que o nevoeiro cerrado pouco deixe ver. Há coisa de nove meses, entrou em erupção e obrigou ao encerramento do parque nacional com o mesmo nome, um dos mais visitados do país. Nesta zona, antes de atingir os 1800 metros de altitude, a produção de café é riquíssima. A Starbucks tem ali 240 hectares de terrenos e está a construir um centro de investigação do café que deverá abrir ainda este ano, para se juntar aos já muitos tours do género existentes no país. O caminho continua por uma estrada de curvas e contracurvas, com passagem na cascata de La Paz (e que pena não haver tempo para parar: esta cascata está integrada num parque que é um santuário de animais muito visitado), seguindo até ao barco que levará a Tortuguero, onde só se chega por céu ou água.

Quase duas horas de viagem nos canais separam o porto de Caño Blanco do hotel Pachira Lodge, onde estava marcada a pernoita. O hotel, camuflado numa verdadeira selva, fica a cinco minutos de barco da povoação, onde as opções para dormidas também são muitas (e baratas). Maurício Rodriguez Vargas conhece o povoado como poucos. Tem 30 anos, tantos quantos aqueles em que ali vive, e o ofício dele existe graças àquele lugar, “dos mais lindos do mundo”. De cócoras, numa bancada improvisada com uma tábua, transforma pedaços de madeiras em tortuguitas, esculpindo-as com a ajuda de uma pedra, sem moldes. E rematando depois com aplicação de cera e o fogo de um simples isqueiro. Não aprendeu a arte com ninguém. “Com fé, fui pedindo a Deus para fazer algo bonito”, explica num orgulho que parece também esculpido naquele lugar. “Ele tem-me ajudado.”

Na aldeia, o turismo tornou-se fonte importante de rendimento. E a magia do espaço está em parte na gente que ali vive. São 1700 — a maioria vindos da Nicarágua. Têm o parque nacional de um lado e a praia das Caraíbas do outro (embora imprópria para banhos por causa da bravura do mar). Há cafés, restaurantes, tours para todos os gostos. No supermercado, uma “lista de perros” afixada na montra dá nome aos “caloteiros” do lugar: para esses já não há fiado. E existe até um dialecto local, o patuá, mistura de espanhol, francês e inglês. “Por exemplo, dizem assim: ‘run run, water come’”, exemplifica Jorge Ávila de sorriso aberto. Isto é como quem diz: corram, corram, vai chover!

Mais adequado não podia ser...

O som da água torna a experiência de adormecer nos quartos do Pachira Lodge — onde não há janelas, apenas mosquiteiros — ainda mais intensa. Uma mistura de chuva e sons de aves, macacos, rãs e outros animais. Aqui, o luxo é a falta dele: a televisão foi dispensada, o aquecimento também. O Pachira está literalmente no meio da selva e isso exige uma postura a condizer: “Não se esqueçam onde estão: olhem sempre à volta, habituem-se a isso”, aconselha Jorge Ávila. Depois de um pequeno-almoço cheio de fruta tropical e onde não falta o típico e delicioso gallo pinto (arroz com feijão frito), há uma viagem de barco para fazer. E a chuva continua...

“Dónde está Raul?”

O plano é regressar a Caño Blanco novamente e daí seguir de carro, rumo à zona do Vulcão Arenal, já na província de Alajuela. Mas um aviso via rádio dá conta de estragos em várias estradas. Culpa da chuva e do vento intenso. Terá Raul, o nosso motorista, conseguido fazer o caminho até ao ponto de encontro? Barco para a frente e para trás em busca de rede de telemóvel, chamada para aqui e para acolá. “Dónde está Raul?”, ouve-se o guia costa-riquenho a perguntar. Raul dava voltas à geografia para cumprir o acordado. E acabaria por conseguir. Novo desafio superado.

Já o ânimo ganhava tons da cor do céu quando a Costa Rica mostra ser verdadeiro o que se promete nos seus perfeitos cartões postais. Na estrada, “num golpe de sorte”, uma preguiça de dois dedos a move-se num fio entre duas árvores. Ali, à distância de um braço esticado, um dos animais mais lentos do mundo a mover-se — muito devagarinho. As preguiças são herbívoras, dormem à volta de 16 horas por dia e só descem das árvores, onde vivem, para necessidades fisiológicas, o que acontece uma vez por semana (sorte é mesmo a palavra para descrever este momento!).

Mas atenção aos acasos felizes na Costa Rica.

“Há regras a ser cumpridas na relação com os animais”, avisa Jorge Ávila, trabalhador numa empresa que faz do respeito pela natureza e pelos animais uma verdadeira bíblia. Como deve ser. Na verdade, na Costa Rica há, desde 1998, uma lei de conservação da vida silvestre bastante defensiva. A tentar diminuir estragos já causados pelos humanos. Entre outras coisas, é proibido alimentar os animais. Palavra a Jorge: “Os animais silvestres têm de encontrar a sua própria comida. Os macacos, por exemplo, são muito inteligentes. Se sabem que os turistas os alimentam, porque hão-de procurar comida? Há lugares onde se anuncia que os animais aparecem às 11h50: já estão tão habituados que vão sempre ali àquela hora. E assim deixam de saber encontrar a comida sozinhos,” E isto muda todo um sistema. Dessa forma, “os macacos não vão polinizar as frutas e flores, não contribuem para a germinação”. Mas há mais: quando se dão frutas aos animais esquece-se que aqueles alimentos têm químicos porque foram tratados e esquece-se também que nas nossas próprias mãos há cremes ou repelente de mosquitos (mais químicos!). Isto para não falar de quem decide alimentar os bichos com bolachas ou bolos. “Nos corpos dos macacos mortos já se encontraram químicos que provavelmente ingeriram nas coisas que não são naturais”, lamenta Jorge Ávila.

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Há coisa de um ano, a tentar combater a ameaça a que algumas espécies estavam sujeitas, tornou-se ilegal até tirar fotografias com os animais. Radical? “Essas imagens incitam as pessoas a virem aqui para isso”, justifica Ávila. Culpa de quem tinha comportamentos como pegar nos animais e deslocá-los só para conseguir o plano perfeito para a posteridade. Sim, acontece e não é coisa rara. “Divulgar essas imagens é abrir uma porta para o resto. Entendeu-se que era melhor ser radical.”

Regras aceites. Fotografias de animais sim, fotografias com animais não. Observar os animais sim, interferir na vida deles e alimentá-los não.

Entre os campos e os hotéis

Uma estrada sinuosa dá seguimento à viagem, com passagem por Carmen 1, uma zona de plantação de bananas. Quem por ali trabalha vive quase sempre na pequena localidade com o mesmo nome, onde há uma escola e casas onde não se paga renda. O salário ronda os 20 dólares por dia (por 10 horas de trabalho), mas as jornadas não são meigas: há quem faça quilómetros com cachos de bananas às costas, aos 25 de cada vez pelo menos — e, neste sector, quanto mais se carrega mais se ganha, o que leva alguns a cumprir dias desgastantes em troca de melhor maquia. Nos locais de lavagem, vêem-se sobretudo mulheres, a trabalhar ao som de música a altos decibéis. Separam-se as frutas mais bonitas e maiores para um lado, as restantes para o outro: as primeiras exportam-se quase sempre para os Estados Unidos, as segundas ficam para consumo local. São empacotadas no mesmo dia em que são recolhidas e demoram seis a sete dias a chegar ao país dos gringos, como por ali são chamados os norte-americanos, sem conotações negativas. Para a Europa conta-se um mês.

A banana, o café e o ananás são os produtos mais exportados da Costa Rica. E a agricultura uma das grandes forças de trabalho do país, ainda que 85% dos trabalhadores venham da Nicarágua. Só o turismo ultrapassa os campos: “Desde 1990 o crescimento tem sido constante e, actualmente, a Costa Rica, com cinco milhões de habitantes, recebe três milhões de turistas por ano”, explicam à Fugas os historiadores locais Steven Palmer e Iván Molina, autores do livro Historia de Costa Rica. As bases para que isso fosse possível começaram a ser construídas muito antes, com o “desenvolvimento de um amplo sistema de parques nacionais e áreas protegidas, que representam cerca de 20% do território do país”, contam numa resposta por escrito a quatro mãos. Oficialmente, a aposta no turismo iniciou-se em 1930, mas foi nos anos 80 que começou a “crescer de forma sustentável, como parte de um processo mundial de expansão da actividade na era da globalização”.

Jorge Ávila conhece bem essa história. Ainda se lembra do tempo em que a Costa Rica “apenas vendia sol e praia”, pouco atenta a um turismo focado na sustentabilidade. Era assim quando ele começou no ramo, com formação em hotelaria, numa época em que não havia ainda cursos de guia por aquelas bandas. Estávamos em 1987, tinha acabado de se tornar trabalhador num hotel e não pensava noutras viagens. Tinha-as feito antes disso. Aos oito anos, pouco adepto de estar parado, ajudava na apanha do café. E, ainda adolescente, ao eleger uma área de estudo acabou a fazer um curso de mecânico de precisão: “Fazia peças para carros, moldes para os telefones públicos. Nessa altura ainda não havia telemóveis”, graceja. Jorge gostava de explorar: fez peças para bicicletas, meteu-se num curso de contabilidade por um desafio auto-imposto ao ver amigos irem por esse caminho. “Isso nunca exerci, nunca gostei”, conta, sorrindo.

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Juan Carlos Ulate

A mãe era doméstica, o pai trabalhador do Governo em viagens permanentes pelo país. “Talvez tenha herdado dele essa vontade de conhecer...”, pensa em voz alta. Mas quem o levou para a vida de guia foi um amigo, que um dia, algures pelo ano de 1996, o provocou com um convite: “Achou que tinha a ver comigo, que adoro estar com pessoas. Disse-lhe que podia experimentar mas que se não corresse bem voltava ao lugar inicial”, recorda.

Até hoje não voltou. Já lá vão mais de vinte anos nas estradas do país, o que faz dele um dos mais antigos na profissão: “Fui dos primeiros a ter a certificação”, conta, orgulhoso. Não se cansa de promover o seu país e acumula conhecimento: história, datas, lugares, gente. Animais. “Tenho também um certificado como guia ornitológico.”

Os quilómetros vão-se acumulando na carrinha branca de Raul e a paisagem transfigura-se à medida que o Vulcão Arenal fica mais próximo. Há menos árvores de banana, sobram as de papaia e ananás. O nevoeiro insiste em dificultar: “Ali está o vulcão Arenal, usem a vossa imaginação”, brinca Jorge Ávila, a apontar para uma montanha da qual se vê apenas a base. A primeira erupção do Arenal foi em 1968. Naquela zona havia apenas duas pequenas povoações no lado oeste. Desapareceram por completo. Durante muito tempo, até 1992, não se reinvestiu naquele lugar. O parque nacional tem 12 mil hectares e o vulcão 1600 metros de altura. Desde 2010 que não tem erupções, mas é um vulcão activo, com fumarolas, e considerado um dos mais bonitos do continente americano.

O regresso estava marcado para o dia seguinte, para uma caminhada de quase duas horas no “sendero 1968”, parque onde se podem encontrar até quatro tipos de floresta e uma fauna autóctone que fazem do local um verdadeiro catálogo de animais silvestres, verdadeiramente livres no seu território: mais de metade das aves do país tem ali o seu habitat, há macacos, jaguares, tartarugas. E uma vegetação que parece impossível, pensando na lava que ciclicamente “ataca” o lugar. No mirador deste local tem-se uma das mais belas vistas sobre o Arenal — pelo menos assim se vê nas fotografias. O nevoeiro continuava a dar as voltas ao planeado.

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Mariana Correia Pinto

Imperdível é também uma passagem pelo lago Arenal. Construído artificialmente em 1973 pela companhia eléctrica do país para que ali se fizesse uma barragem que produzisse energia limpa para os distritos de Guanacaste, Puntarenas e Limón. O projecto sacrificou na altura a aldeia de Arenal e mais uns pequenos povoados (há tours para mergulhar no lago e ver as localidades submersas) e obrigou à saída de 2500 pessoas. Mas ali nasceu o maior lago artificial da América Central, com 60 metros de profundidade e 84 quilómetros quadrados de água, origem de 78% da energia hidroeléctrica do país. E, bónus extra, uma zona recreativa apetecível: no lago pode pescar-se, andar de barco, fazer canoagem e, em dias de vento, até fazer windsurf.

Mas há mais. A área do Arenal está cheia de cascatas imperdíveis e águas termais quentes e é um dos locais mais procurados para quem busca aventura.

Comecemos pela hora de relaxar. Fortuna, uma pequena cidade construída há apenas 25 anos, foi transformada em centro turístico. Nesta zona há hotéis edifício sim, edifício não — e restaurantes em igual quantidade. Tanto pode eleger os mais aperaltados como os mais simples: há opções para todos os gostos e bolsos. Tal como as termas: existem várias de acesso livre e umas quantas, mais exclusivas, em que se paga entrada.

Estacionamento feito no Tabacon Thermal Resort & Spa. Mesmo para quem não fique alojado no espaço, é possível desfrutar das termas (convém reservar antes). Tudo começou com o olhar de um arquitecto. Jaime Mikowski, costa-riquenho apaixonado por natureza, dedicava o seu tempo livre a várias coisas para lá do desenho de edifícios. Teve uma plantação de café, deu corpo à primeira vinha da Costa Rica, criou uma empresa de aquecimento de água com energia solar e desenhou diversos hotéis. No final dos anos 1980 apaixonou-se por uma propriedade na base do vulcão Arenal — e não descansou enquanto não tomou conta dela.

No Tabacon, as águas termais fluem em cachoeiras únicas, piscinas naturais, cascatas e recantos inesperados. À volta, vários hectares de flora nativa e jardins botânicos tornam o espaço inesquecível. Passam-se horas a saltitar entre piscinas, com águas a temperaturas entre os 30 e os 40 graus, usa-se a areia negra, vestígios vulcânicos, para esfoliações de pele. E pede-se que o dia estique...

Do relaxamento à aventura

Fazem-se 180 graus entre um estado de espírito e o outro — ainda que não sejam precisos muitos quilómetros de caminho. Na zona do vulcão Arenal, e com vistas para ele, está o Sky Adventures Park. Para quem não é adepto de grandes ousadias, a oferta é mais diminuta, mas vale, ainda assim, uma visita. O teleférico assusta poucos e é uma espantosa viagem, montanha acima, entre uma floresta tropical onde se pode avistar a imensa flora local e, com sorte, cruzar olhares com alguns animais. Já a tirolesa não será para qualquer um: são duas horas de percurso entre 14 linhas e altitudes de respeito, talvez dos trajectos mais emocionantes entre copas de árvores. As pontes suspensas do parque são um abanão aos sentidos: é imperdível esta caminhada semitremida entre os habitats locais. “Agora fechem os olhos uns segundos. Ouçam, sintam”, sugere Jorge Ávila. E de repente, uma paz imensa e a sensação incrível de estar a voar.

“Pura vida”, já se diz a entrar no espírito dos “ticos”, para quem a expressão se tornou símbolo e slogan nacional. As duas palavras servem para adjectivar algo como muito bom, para saudar, substituir um obrigado ou um adeus. Tornaram-se populares num filme mexicano da década de 1950, onde o cómico e despistado protagonista passava a vida a repeti-la. Os costa-riquenhos, povo católico, amante do futebol, quase sempre idólatras dos Estados Unidos, deram-lhe uso e, pouco a pouco, transformaram-na no lema do país. É uma forma de comunicação e também uma forma de estar: a arte de apreciar as coisas simples, de ser humilde, de manter o sorriso. Um carpe diem em versão tropical. Uma das justificações para que lhe chamem a Suíça da América Central.

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A Costa Rica parece vestir uma capa de protesto pacífico. Reacção à sociedade da correria, do descartável, do desrespeito. Pode haver quem considere que levam as coisas muito a peito. É proibido fumar em todos os lugares públicos, interiores ou exteriores. É proibido alimentar os animais, tirar selfies com eles. É obrigatório respeitar a natureza, preservá-la. “Foi assim que nos transformámos nisto”, explica Jorge Ávila. Aqui cresceu o país com a mais estável democracia da América Central, que aboliu o exército em 1948 e investiu o que nele gastava em escolas e condições sanitárias — e por isso tem hoje mais professores do que polícias, uma taxa de alfabetização acima dos 95%, uma esperança média de vida que se aproxima dos 80 anos. Na pequena geografia cabem 5% da biodiversidade mundial e algumas das praias mais belas do planeta. Mais de 20% do território nacional foi transformado em reservas naturais protegidas (por isso há mais reservas do que cidades) e, até 2021, espera-se transformar o desejo de ser o primeiro país do mundo livre de dióxido de carbono em realidade.

De volta à acção. Conselho para quem chega à reserva biológica onde se encontra a Catarata Rio Fortuna: não se deixe impressionar pelo número que vai ouvir — ou não deixe, pelo menos, que isso o faça desistir. Para chegar à catarata, ainda integrada no Parque Nacional do Arenal, é preciso descer qualquer coisa como 530 degraus (e depois subir de novo). Parece difícil (e fácil não é!), mas vale a pena guardar na memória a imagem impressionante da cascata que verá ainda antes de descer as escadas e manter presente o seguinte: quanto mais se desce, melhor fica. A partir de dada altura já os letreiros de incentivo (“Usted puede! Tome un respiro!”: “Você consegue, respire fundo”) deixam de ser necessários. A imersão na floresta é total, o ruído da água cada vez mais intenso, volta e meia a catarata faz-se notar. E depois, o prémio final: a força da água que cai de 70 metros de altura, a boa sensação de ser pequenino num mundo gigante, a possibilidade de tomar um banho (não demasiado perto da queda da água). Desafio superado!

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Finalmente o sol

Ao quinto dia de viagem, o sol. Na estrada para Guanacaste, vê-se o azul do céu e celebra-se como se uma aparição acontecesse. Neste distrito, chove apenas três a quatro meses por ano — bem diferente de outras zonas por onde tínhamos passado, como Tortuguero. Destino: Parque Nacional Rincón de la Vieja. Ali, estão dois vulcões (o Rincon de la Vieja é um dos quatro em actividade actualmente: não é por acaso que em todo o país se aposta em casas térreas e só existem cinco prédios) e 32 rios e riachos — além da fenomenal (os adjectivos começam a faltar) fauna e flora. Há várias formas de chegar perto da base do vulcão. Eleito Cocorito, um cavalo castanho a fazer a condução por um belo percurso de 50 minutos pelo sector de Las Pailas. A partida faz-se da Hacienda Guachipelin (onde horas depois se serviu um almoço buffet delicioso) e o risco está assumido: se nunca se andou de cavalo, há uma primeira vez para tudo. Ainda bem que assim foi.

O Inverno português descolou-se finalmente da pele. O calor e as praias do Pacífico estão finalmente aí. A localidade de Tamarindo, onde estava marcada a dormida, é muito procurada por americanos. E surfistas. Difícil será mesmo escolher a praia onde parar. Playa Conchal, Tamarindo, Playas del Coco. O plano apertado não permitiu mais do que aproveitar o hotel Riu Palace, com ligação directa à pequena praia Matapalo, de areia negra. E a um avistamento de dezenas de macacos destemidos bem ao nosso lado. Felicidade certificada.

Perseguindo viagem até Puntarenas, vai-se notando com mais atenção o que já se tinha avistado antes: junto às bermas das estradas, o lado menos cartão-postal do país. Casas de latão, miseráveis, anunciam o número que os “ticos” ainda não conseguiram combater: a pobreza continua a atingir 20% da população e as desigualdades salariais têm vindo até a crescer.

Segue-se, sem esquecer aquela imagem, até um dos principais portos do país (dali pode visitar-se facilmente a ilha do Coco) e local abundante de praias de areia branca. Tal e qual as promessas de guias de cores intensas que se vêem por aí. Paragem para algumas compras. Passagem na praia com o pôr do sol cor de fogo a anunciar-se. Eddier Sequeira, 45 anos, está no areal com os seus cavalos em busca de clientes para o negócio: cavalgadas pela praia e montanhas: “30 dólares por uma hora, quer experimentar?” Já tínhamos a nossa dose com a visita em Rincón de la Vieja. Pés na areia, até à banquinha de Stuart. Formado em Enfermagem, trabalhou em hospitais do país durante vários anos. Mas o apelo do turismo levou-o ali: em Puntarenas, debaixo de sol, vende, há já seis anos, manga verde cortada como se fosse esparguete e temperada com sal e limão. “Já não troco esta vida por outra”, sorri.

Para o final da viagem estava prometido um dos grandes tesouros do país, no Parque Nacional Manuel António, cidade de Quepos, região outrora ocupada por indígenas. Construído em 1972, um dos mais pequenos, mas mais visitados, parques da Costa Rica é uma verdadeira arca zoológica. Vai-se caminhando pelos trilhos, com Jorge Ávila, guardião de enciclopédias de informação na cabeça, à frente. Ao mínimo ruído, pára: “Uso os ouvidos para ver”, comenta. Pega nos binóculos. O guia sabe identificar os animais apenas pelo som que emitem e parece ter visão raio-x: “Uma iguana ali”, aponta para uma árvore. E os comuns mortais a descobrirem-na, mesmo com ajuda, vários segundos depois. “É uma questão de prática”, sorri.

Caminhando bosque adentro, vai-se avistando o azul turquesa a misturar-se no verde como um anúncio de chegada ao paraíso. A haver um, deve ser qualquer coisa como isto. Pausa na praia, a primeira do parque. O bosque de um lado, montanhas do outro, areia branca, mar azul claro, água quente, sol aberto. E os guaxinins a passearem-se como donos do lugar que são — e a roubar alimentos das carteiras abertas que encontram. Para aproveitar o lugar sem uma multidão de gente, o melhor é ir bem cedo (às 8 da manhã a temperatura é óptima,  a partir das 10h o sol queima e a enchente acontece).

A despedida anuncia-se. Raul, motorista há quase duas décadas no sector do turismo depois de deixar os camiões de carregamento de fruta, confirma a longa viagem feita: no regresso ao ponto de partida, no aeroporto em Alajuela, estão cumpridos “1560 quilómetros” — em estradas onde a velocidade não é coisa legal. E o cansaço não vence a felicidade de o ter feito. Foi pura vida, Costa Rica.

A Fugas viajou a convite da Jolidey e teve a Swiss Travel Costa Rica como guia