O alfaiate do vídeo que ganha prémios a mostrar Portugal

Começou a fazer vídeos caseiros e teve pernas para andar. David Mendes viveu minutos mágicos e agora chovem-lhe prémios de filmes de turismo.

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Adriano Miranda

Há uma estrada secundária, um atalho, para quem vai descendo de Mesão Frio para a Régua. Vê-se o vale, o rio a serpentear. A cor muda ao longo do ano. Não só nos vinhedos, na paisagem, também no rio. Azul e dourado quando bate o sol, cinzento e escuro quando este é mais esquivo. “Acho que faria um time-lapse ao longo do ano. É o meu postal, nunca vi essa imagem em lado nenhum.” David Mendes já fez o filme na sua cabeça. Pelo menos uma parte dele. O que nem sequer é habitual, porque não parte para novos projectos sem ideias pré-concebidas. Contudo, este não é um projecto, é parte do filme da sua vida de 35 anos que começou, precisamente, no Peso da Régua. “É daqueles sítios sobre os quais tenho a minha visão pessoal, não a visão comercial.”

É a visão comercial que impera nos projectos profissionais do realizador e produtor (“andam de mãos dadas”). Afinal, são filmes institucionais, promocionais e corporativos, cada vez mais na área do turismo. Tantos que quase sem se dar conta esta se tornou o coração da Ideias com Pernas, a produtora que fundou há nove anos. E se “a viragem ao turismo não foi programada”, não foi por acaso que este passou a dominar a actividade da Ideias com Pernas. Os 43 prémios que se alinham no escritório – “contei-os antes de vir” –, conquistados nos últimos quatro anos, são eloquentes. Entre estes estão um “golfinho” de prata e um “portão da cidade”, também de prata, nas categorias de “Filmes de Turismo” e de “Filmes de Turismo de Cidade”, galardões que se destacam, ou não tivessem sido obtidos em dois dos mais importantes festivais mundiais de filmes corporativos, o Cannes Corporate Media & TV Awards e o berlinense Das Goldene Stadttor (The Golden City Gate).

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Alcácer com vida (em inglês Live a day in Alcácer), produzido para o município de Alcácer do Sal, foi o filme distinguido, que é, aliás, o mais premiado da produtora. É também paradigmático do posicionamento da Ideias com Pernas, juntamente com A Guardiã de Naturia (filme promocional de Pampilhosa da Serra) e Grândola, Vila Morena (filme promocional de Grândola). “A parte criativa é o nosso trunfo”, reivindica David Mendes, realizador e produtor, “contamos histórias”. Nos dias de hoje, explica, “o storytelling é fundamental”. Nos filmes turísticos, por exemplo, “o destino é quase apenas o pano de fundo, a pessoa está a ver uma narrativa e a sentir-se parte da experiência.” O filme sobre Alcácer do Sal é mesmo narrado e vivido do ponto de vista de um “visitante”; o de Pampilhosa cria um mundo imaginário a partir de uma lenda inventada; o de Grândola vai buscar a inspiração (e banda sonora, instrumental) à música de José Afonso, Grândola, Vila Morena. “Não vou com filmes pré-feitos”, nota David, “posso ter pontos de partida, mas depois é preciso buscar inspiração.” Que pode chegar inopinadamente numa viagem de carro entre Alcácer do Sal e o Porto, após a reunião com os representantes da autarquia e de uma visita ao concelho (e ser descartada para, depois de mil voltas, ser resgatada); ou em sessões de brainstorming com toda a equipa; ou até por sugestão do cliente. O processo muda sempre, à medida do desafio, à medida do cliente (e do orçamento, certamente). “Somos alfaiates do vídeo”, resume.

Mas com várias lutas, sendo uma das principais explicar aos clientes que não se pode mostrar tudo, contar tudo, “se não acaba-se com vídeos enormes, que ninguém vê”. “Nós sintetizamos tudo, é um desafio de que gostamos”, explica, “e criamos a nossa visão”. Uma visão que é um chamariz – “As pessoas têm de acabar o minuto do filme a dizer ‘quero ir aí’, mesmo se não viram tudo o que há para ver e fazer” – e é um trunfo da Ideias com Pernas – “os nossos vídeos mais bem-sucedidos foram aqueles em que tivemos liberdade quase total”.

“Credibilidade” e “liberdade criativa” foi algo que chegou muito à conta dos prémios, embora, ironicamente, o primeiro prémio ganho nem tenha sido por candidatura própria – foi o cliente que submeteu o filme a concurso. Agora vão a todos. E David com eles. “Aproveito para ficar mais dois ou três dias em cada cidade e conhecer um pouco mais”, confessa. Viajar é um dos seus maiores prazeres, conta-nos nos Jardins do Palácio, no Porto (um local que marcou a sua vida “em vários períodos”, tendo sido também palco de várias filmagens), embora o faça menos desde que chegou Gonçalo, o filho de ano e meio. “No entanto, ele já viajou mais do que eu quando tinha 18 anos”, brinca. Como brinca com o filho aos fins-de-semana, muitas vezes à volta de legos. Este é, aliás, “um ponto de partida para a criatividade”. “Tenho muitas ideias assim”, diz – e as primeiras ideias vão sempre para um bloco de notas, confessa, só depois entram os gadgets.

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Já brincava com legos quando era miúdo, mas só há pouco tempo David Mendes se apercebeu de que faz filmes desde criança. Com handycams, registava, por exemplo, festas de passagem de ano em casa de amigos da família. “Há uns tempos estávamos a ver os filmes e era sempre eu que não estava nas imagens, era eu que andava com a câmara”, recorda. Andava também atrás do pai quando este filmava as férias anuais da família no Algarve. As primeiras câmaras “caseiras” eram enormes, recorda, e era toda uma logística. “Havia o dia de filmar. Tínhamos de ir todos juntos para a praia com a câmara de VHS, mais o microfone”, recorda, “era material caseiro, amador, mas na altura era tudo gigante.”

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Agora o material é mais pequeno, mas a equipa é bem maior (cinco a tempo inteiro na produtora; dependendo dos projectos, pode chegar às várias dezenas). O que era passatempo, tornou-se profissão, ainda que o caminho não tenha sido linear (e tenha incluído minutos mágicos). Na verdade, quando chegou a altura de escolher um curso, na cabeça de David “tudo isso era electrónica”. Então, acabou no Porto a estudar engenharia electrónica e electrónica de computadores. “Achei que era essa área, mas o curso era basicamente microelectrónica. Foi uma desilusão total.”

E a verdade é que o mundo de David Mendes sempre teve muita ilusão. Afinal, é irmão do ilusionista Mário Daniel. E se falamos nele é porque os irmãos sempre foram cúmplices, parceiros no crime de iludir audiências. “Desde os 13 anos que tratava da produção dos espectáculos dele.” E vamos pôr os pontos nos ii: produção nessa altura era “desenrascar” som e luz nas apresentações que Mário Daniel, dois anos mais velho, fazia onde calhava. “Foi uma fase de aprendizagem de todas as áreas”, avalia. Haveriam de chegar minutos mágicos, porém, antes, David trocou o curso de engenharia electrónica pelo de tecnologia de comunicação audiovisual. “Foi um ponto de viragem”, nota – até pessoalmente: “Era introvertido, agora...”, ri-se, recordando que nos dissera que falava muito. Durante o segundo curso, ele e o irmão idealizaram o programa “Minutos Mágicos” que, depois de impasses e muita persistência, foi comprado pela SIC (e está, três temporadas volvidas, “com vontade de voltar ao ar”).

Entretanto, começou a Ideias com Pernas, que rapidamente ganhou pernas para andar – e para mudar. No início os serviços oferecidos começavam na televisão e vídeo, e avançavam pela fotografia, design e desenvolvimento web; agora apresenta-se simplesmente com creative films. Foi um longo, e precoce, caminho, desde a produção dos espectáculos do irmão até à produção e realização audiovisual, “outro campeonato”, assume. “O investimento em meios e equipa é incomparável”, nota, “mas tenho a gente certa à minha volta”. Para até aos 40 anos se aventurar no cinema – “Falta-me o guião.” Por enquanto, os planos incluem a realização de um filme em estereoscopia (o vulgo 3D). Já andou pela animação e não enjeita novas linguagens: David Mendes quer aproveitar tudo sempre com o mesmo objectivo, o de contar uma boa história.