Mia e Ana, as mulheres com cabeça

O concurso de Berlim abre à sombra do #MeToo com dois filmes de mulheres que fazem da fraqueza força – Mia Wasikowska em Damsel faz esquecer Robert Pattinson; Ana Brun em Las Herederas faz lembrar a Mulher sem Cabeça de Lucrecia Martel.

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Mia Wasikowska em Damsel dr
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Las Herederas, estreia na longa do paraguaio Marcelo Martinessi dr
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Damsel, dos irmãos Zellner dr
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Robert Pattinson, Nathan Zellner, David Zellner e Mia Wasikowska LUSA/CLEMENS BILAN
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David Zellner e Nathan Zellner com os actores Robert Pattinson e Mia Wasikowska Reuters/CHRISTIAN MANG
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Robert Pattinson em Berlim LUSA/CLEMENS BILAN
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Mia Wasikowska em Berlim Reuters/CHRISTIAN MANG
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Robert Pattinson em Damsel LUSA/Strophic Productions Limited / BERLINALE / HANDOUT
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Ana Brun na conferência de imprensa de Las Herederas LUSA/CLEMENS BILAN
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O realizador paraguaio Marcelo Martinessi LUSA/CLEMENS BILAN

E não foram precisas mais de 24 horas: a sempre criticada competição de Berlim arrancou com os primeiros aplausos e as primeiras vaias. As últimas, imagine-se, foram para Damsel, o bizarro mas sincero western dos irmãos Zellner, com Mia Wasikowska e Robert Pattinson, apenas um par de horas depois de Las Herederas, estreia na longa do paraguaio Marcelo Martinessi, ter arrancado aplausos aprovadores da crítica. E faz todo o sentido que assim seja, ao mesmo tempo que não o faz. Las Herederas – que, esclareça-se já, não é nada mau filme – é exactamente o tipo de filme “de festival” em que a competição de Berlim se especializou (tema íntimo, jovem cineasta, pequena cinematografia latino-americana – lembremo-nos do Urso de Ouro de há uns anos para a peruana Claudia Llosa com A Teta Assustada). Mas é um filme que joga pelo seguro e corresponde àquela “classe média” de que toda a gente se queixa que Berlim tem em demasia. (Já cá voltamos.)

Damsel, por outro lado – que não é tão bom filme como Las Herederas, mas tem os seus momentos –, é o tipo de filme mais experimental e “fora da caixa” que costuma ter poiso no Forum (que tem apostado na nova geração de independentes americanos como Ted Fendt, Andrew Bujalski, Robert Greene ou Alex Ross Perry) e é exactamente o tipo de aposta que Berlim já devia andar a fazer na competição há uns anos largos. Mas para uma imprensa atraída pelos nomes de Mia Wasikowska (a Alice de Tim Burton) e Robert Pattinson, o galã de Twilight reconvertido em actor cool graças ao Good Time dos irmãos Safdie, Damsel é filme demasiado esquizóide e angular para agradar. É uma espécie de actualização seinfeldiana das desconstruções do western dos anos 1970 por gente como Monte Hellman ou Sam Peckinpah (curiosamente, os Zellner citaram, na conferência de imprensa, como modelo a seguir um outro filme mal-amado na sua altura, A Noite Fez-se para Amar de Altman) que colide com a conversa de chacha dos filmes ultrabaixa fidelidade, ultrabaixo orçamento.

Há uma coisa muito importante a explicar sobre Damsel: os irmãos Zellner escreveram, produziram, realizaram e têm papéis de peso no filme. E têm uma ideia absolutamente magnífica: literalmente “partir” o filme a meio. Passamos toda a primeira metade com Pattinson, um pató que parte para as fronteiras do Velho Oeste para resgatar a noiva que lhe diz ter sido roubada, acompanhado por um pregador contratado para oficiar o casamento. Exactamente a meio, aparece Mia, que é evidentemente a noiva, mas está muito longe de ser uma donzela em perigo. Bem pelo contrário – é uma mulher moderna que não deixa que lhe comam as papinhas na cabeça (é um filme #MeToo, mas mais pelo acaso do timing da estreia, visto que o projecto é muito anterior às recentes movimentações). Aí Pattinson, que se vai a ver é um rapaz bastante fantasista, sai de cena, deixando a actriz a tomar conta do filme e a fazer pensar na Maureen O’Hara dos velhos Ford (o que é obra, num filme que recusa toda a lógica simplista dos westerns clássicos). É pena que, depois, os Zellner não tenham unhas para sustentar a sua ideia ao longo de duas horas e o filme se perca nos atalhos de uma subversão que às vezes faz sentido e às vezes é puramente gratuita. Pelo menos, tentaram uma coisa diferente, e isso é uma lufada de ar fresco.

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Damsel

Las Herederas não é uma lufada de ar fresco, mas na verdade também não precisa de o ser. Marcelo Martinessi não tenta uma coisa muito diferente daquilo que reconhecemos ao moderno cinema latino-americano, ainda e sempre à sombra de Lucrecia Martel – que foi até uma das “tutoras” do realizador num dos múltiplos ateliers de desenvolvimento e financiamento por que o filme passou. Os primeiros minutos do filme, então, fazem pensar numa enésima variação sobre O Pântano, com aquela sensação malsã de uma sociedade presa num âmbar venenoso, num passado ao qual não se consegue escapar. Duas mulheres, Chela e Chiqui, moram juntas numa velha mansão delapidada de Asunción e, caídas em ruína financeira, estão a vender as heranças familiares; Chela, aterrorizada com a perda de estatuto social, convencida que toda a gente tem pena dela pelas costas, recusa-se sequer a sair de casa.

Mas, com uma enorme elegância, Martinessi afasta o filme das comparações com Martel ao tornar claro, sem nunca precisar de o dizer, que Chela e Chiqui não são parentes ou familiares, mas sim um casal lésbico que coabita há décadas. E quando Chiqui é colocada em prisão preventiva devido às dívidas do casal, Chela vê-se obrigada a tomar conta de si própria. É, para voltarmos a citar a Martel, uma “mulher sem cabeça” (nem faltam os muitos planos de Chela no carro, aqui um velho Mercedes 240 a diesel à beira de ser vendido) que se torna numa “mulher com cabeça”. Ana Brun, que interpreta Chela, é notável na maneira como faz passar a tortura que é para ela decidir sair da casca, como o seu desejo e a sua desilusão se vêem nos seus olhos e no seu corpo envelhecido – e Marcelo Martinessi filma-a com uma ternura e um pudor que não são nada comuns. Las Herederas não corre grandes riscos, é certo, não tem ainda uma personalidade própria, mas neste caso isso não é nada mau.

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