Crítica

O Castelo Mágico

Evocação poderosa do contraste entre uma América de fantasia e uma América feita de motéis ordinários e sobrelotados. Sean Baker, que tem entre os seus heróis os "realistas" britânicos como Ken Loach e Mike Leigh, talvez tenha conseguido estar, em pleno, à altura desses modelos: na relação com espaços reais, na relação com as criaturas ficcionais que os habituam e nas ressonâncias politico-sociais que assim se despertam.

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Há uma vida notável nas personagens humanas de Florida Project, mas é justo dizer que o protagonista decisivo do filme de Sean Baker é, muito possivelmente, o cenário principal da acção. Estamos em Orlando, na Florida, nas traseiras do Disney World que é a grande atracção turística local, e nessas imediações, como é habitual em torno de grandes atracções turísticas, florescem hoteis e moteis, de luxos e preços variáveis. Florida Project passa-se maioritariamente num desses moteis, que se chama "Magic Castle" pedindo emprestado o nome a um dos "ícones" maiores do Disney World (talvez também na esperança de que turistas mais incautos pensem estar a reservar uma estadia no verdadeiro "Castelo Mágico"). À evidência, não foi feito a pensar em visitantes ricos, com o seu luxo de plástico ordinário e aquelas cores de montra de pastelaria que fazem pensar numa versão xunga do Grand Budapest Hotel de Wes Anderson. Mas é apenas um "pequeno Orlando Motel" e a acessibilidade dos seus preços, pensados para famílias numerosas e pouco abonadas em raids de um ou dois dias ao Disney World, acabou por desvirtuar a sua função original: tornar-se residência permanente, ou "temporariamente permanente", para gente em situação de penúria económica e que está, como nos diz ao telefone o realizador Sean Baker, "na última etapa antes da homelessness".

Orlando, parece, está repleta de moteis assim, involuntariamente transformados em prédios de uma espécie de "habitação social". Foi o co-argumentista de Sean Baker, Chris Bergoch, que é natural de Orlando, que lhe chamou a atenção para o fenómeno. "Já há vários anos que ele me mandava emails e informação sobre o assunto, e depois do sucesso de Tangerine [o precedente filme de Baker] senti que estavam reunidas as condições para se fazer um filme com isto". Visitaram moteis, conheceram residentes, zeladores e dirigentes, numa preparação "documental" que o filme, sendo uma ficção, não trai, bem pelo contrário - por comparação com Tangerine, por exemplo, que era um filme bastante espalha-brasas, a força do lugar empresta um sentido de estrutura Florida Project, funciona quase literalmente como "âncora" a mantê-lo preso a qualquer coisa de muito concreto. Sean Baker, que diz que entre os seus heróis cinematográficos se encontram os "realistas" britânicos como Ken Loach e Mike Leigh, talvez tenha conseguido finalmente estar, em pleno, à altura desses modelos, seja na relação com espaços reais, seja na relação com as criaturas ficcionais que os habituam, seja na articulação entre tudo e isto e as ressonâncias politico-sociais que assim se despertam.

Até porque, notamos, Florida Project, tratando de um conjunto de indivíduos apenas reunido pelo acaso e pela força das circunstâncias, é capaz, não obstante, de evocar um sentido comunitário tão forte como inesperado - algo tão mais relevante quanto na América "a cultura do egoísmo e do salve-se quem puder é cada vez mais incentivada". Mas "tem razão", diz Baker, "por altamente disfuncional que seja é também do nascimento de um sentido comunitário que o filme trata, e da percepção de que, por mais conflituosos que possam ser os interesses individuais, estão todos no mesmo barco".

Ou no mesmo motel. Onde há, entre os vários inquilinos, quer os que o filme trata como secundários quer os que adopta como protagonistas, todo o tipo de situações extremas e todo o tipo de respostas, algumas delas também extremas (a venda de substâncias ilícitas, a prostituição), a essas situações. De certa forma, é um filme sobre o dinheiro, não como obsessão capitalista mas como necessidade de subsistência: uns míseros dólares para a próxima refeição, ou para pagar mais uma semana de renda. É "a economia americana observada no ponto mais baixo da sua escala".

No centro, uma jovem mãe solteira (Bria Vinaite, que "foi escolhida no Instagram e não tem qualquer experiência de representação"), a sua filha criança (Brooklynn Prince) e os amigos da mesma idade, e a personagem de Willem Dafoe, o gerente do motel, sempre num corrupio de apartamento em apartamento, tão severo como preocupado, tão duro como terno. "Sim, é uma figura paternal", confirma Baker. E não é totalmente inventado: "Os gerentes destes moteis acabam por se tornar assim, é impossível uma relação puramente profissional, são aos mesmo tempo o senhorio, o cão de guarda [há uma cena em que Dafoe expulsa um pedófilo das imediações] e o pai protector daquela gente toda". O Bobby interpretado por Willem Dafoe é, conta, bastante decalcado de uma figura real que conheceu nas suas investigações. Já a Halley de Vinaite é uma criação puramente ficcional, embora ecoada "por dúzias de Halleys reais". Há uma espontaneidade tão grande, sobretudo nas cenas com as crianças, que até nos surpreende a revelação de que o argumento era muito escrito, "muito preciso". Houve algum espaço para improvisação, "até para não estrafegar a energia em bruto dos jovens actores", mas não tanto assim. "Eu adoraria ter podido filmar as crianças a serem crianças, e trazer isso para o filme, mas teria precisado do dobro do tempo de rodagem - inicialmente pedi 60 dias, a produção concedeu-me metade disso".

Mas é com as crianças, e o verdadeiro Castelo Mágico em fundo, em imagens captadas ao estilo "guerrilheiro" (Baker filmou essa cena no Disney World sem esperar por autorizações, recorrendo ao telemóvel com que rodou Tangerine) que o filme termina, numa evocação poderosa do contraste entre uma América imaginária, uma América de fantasia, e uma América de todos os dias, feita de moteis ordinários e sobrelotados.