O princípio do fim político de Bibi, um “mágico” cada vez com menos truques na manga

Netanyahu tenta desacreditar as investigações que os seus aliados descrevem como um “golpe” e promete não desistir. Nos próximos meses, o Procurador-Geral terá de decidir se o acusa de corrupção, fraude e abuso de confiança.

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Netanyahu está há quase dez anos seguidos no poder Reuters
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A última reunião semanal do Conselho de Ministros, no domingo Ronen Zvulun/EPA

Para já, os seus colegas de Governo não têm interesse em deixá-lo cair. “Quero garantir-vos, a coligação está estável”, disse Benjamin Netanyahu esta quarta-feira, horas depois de ter descrito como “cheio de buracos, como queijo suíço” um relatório da polícia onde se recomenda que seja acusado de corrupção, fraude e abuso de confiança.

Netanyahu, prestes a tornar-se no político mais tempo no poder em Israel, batendo o fundador do Estado, David Ben-Gurion, reagiu às recomendações da polícia como lida desde sempre com este tema – negando tudo e tentando desacreditar as investigações. Mas talvez seja tarde para essa estratégica, com a oposição a pedir que se demita e jornais habitualmente críticos (e próximos do centro-esquerda) a sugerir que “começou a contagem decrescente para a partida de Netanyahu” (Ha’aretz) ou que está “de saída e por baixo” (Yediot Ahronot).

Ainda há quem acredite que o homem que quer concorrer a um terceiro mandato seguido em 2019 (depois de ter chefiado o executivo de 1996 a 1999), se salvará, como habitualmente. Afinal, ele conseguiu quase confundir-se com Israel. Mas são menos, depois do discurso de Bibi, diminutivo para um político que tem como alcunha o “mágico”, precisamente pela resistência política e surpreendente habilidade para se livrar das situações mais complicadas. É que a intervenção em que enumerou os seus feitos militares e a sua dedicação ao “bem do país”, uma “missão sagrada” que nunca venderia “por uns quantos charutos”, parecia quase uma despedida, só que não o foi.

Uma decisão de meses

Tão improvável como a sua primeira vitória, contra Shimon Peres, seria livrar-se desta situação. Agora, o seu destino está nas mãos do Procurador-Geral, Avichaï Mandelblit, que o próprio ajudou a subir na carreira. É ele que terá de decidir se um primeiro-ministro em funções será pela primeira vez acusado pela Justiça, e pode levar meses a fazê-lo.

Em Israel debate-se se Mandelblit terá coragem. Parte da discussão centra-se no facto de este ser um país sempre em estado de alerta: para alguns, a segurança tem prioridade e Netanyahu deve ficar; outros consideram que Israel não pode arriscar ter um primeiro-ministro distraído nas suas próprias batalhas legais.

Ehud Olmert, antecessor de Bibi, demitiu-se para evitar esta situação, em Setembro de 2008, uma semana depois de a polícia recomendar que fosse acusado de subornos, quebra de confiança e lavagem de dinheiro. Acabou por ser condenado e esteve na prisão até ao ano passado. Na altura, Netanyahu exigiu-lhe que se afastasse – a lei não obriga um dirigente suspeito ou acusado a demitir-se.

O que os jornais desta quarta-feira escrevem, a partir do relatório policial e ao contrário do que insiste o primeiro-ministro, é que ficou claro que em causa está muito mais do que “uns charutos oferecidos”. Ao todo, há quatro processos que envolvem directa ou indirectamente Netanyahu, a sua mulher (que em breve será levada a tribunal por gastos na residência do casal indevidamente cobrados ao Estado no valor de 84 mil euros), filho e colaboradores próximos.

As recomendações da polícia baseiam-se apenas em dois, “dossier 1000” e “dossier 2000”, cujas investigações estão mais avançadas: no primeiro, o líder do Governo, a sua mulher Sara, e o filho, Yaïr, são suspeitos de receberem centenas de milhares de euros em charutos, champanhe, jóias ou viagens pelo pagamento de favores. Só em jóias para Sara, o produtor de Hollywood Arnon Milchan e o empresário australiano James Packer terão investido 240 mil euros.

Bibi fala em “prendas de amigos”, a imprensa escreve que as ofertas correspondiam a encomendas precisas feitas pela família, No caso de Milchan, Netanyahu ter-lhe-á prometido ajuda na extensão do seu visto americano e na promoção dos seus interesses no mercado de televisão. Packer queria uma autorização de residência em Israel.

O fim de uma era?                                               

O caso “2000” envolve a alegada tentativa de Netanyahu subornar o proprietário do maior jornal do país, Yediot Ahronot, para melhorar a cobertura do seu Governo em troca de leis para prejudicar o tablóide de distribuição gratuita Israel Hanyom, financiado pelo multimilionário americano Sheldon Adelson.

“A era Netanyahu acabou”, diz o líder do Labour, na oposição, Avi Gabby. “Qualquer figura pública decente tem o dever de fortalecer a polícia e a lei e pôr fim ao caminho do governo liderado por Netanyahu”, acrescentou. A aliança de centro esquerda considera que as conclusões da polícia são “claras, duras e conclusivas”.

Quem com ele está no poder, não parece pretender que o Governo caia já: o ministro da Educação, Naftali Bennett (líder do partido de extrema-direita Casa Judaica), um dos pilares da frágil coligação, diz que o primeiro-ministro “é um homem honesto” que deve ficar; Moshe Kahlon, ministro das Finanças e outro pilar (mas do seu partido, Likud), escreveu no Facebook que só o Procurador-Geral pode tomar uma decisão. Já o ministro do Turismo, igualmente do Likud, comparou o relatório da polícia a “um golpe”.

Para além das questões legais, e da insegurança de Israel, que nos últimos dias lançou uma série de ataques contra a Síria (em resposta ao derrube de um F-16 israelita), há quem lembre outro critério a ter em conta deste debate. É que a vida luxuosa do casal Netanyahu (Sara terá instituído como regulares as refeições de cordon bleu, antes um privilégio para convidados de Estado) está bem distante do comportamento dos primeiros líderes e contradiz valores que passavam por criar um novo Estado e uma nova sociedade, igualitária e sem corrupção.