Entrevista

“O Alqueva corre o sério risco de não ser utilizável já a partir de 2019”

Os partidos estão em estado de negação sobre a seca em Portugal. E nem falam da única solução: ir buscar água ao mar, acusa José Roquette.

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Miguel Manso

Espanha tem mais de 700 dessalinizadoras instaladas que, só por si, produziriam água utilizável para Portugal inteiro. E por cá, os políticos nem falam dessa solução, lamenta o empresário. 

Enquanto empresário e membro da Associação Melhor Alentejo tem manifestado preocupação com a situação de seca que o país vive. O que é que devíamos estar a fazer e não estamos?
A questão da seca é uma a que não posso fugir, porque estou no olho do furacão – no que respeita ao Alentejo e relativamente às previsões sobre as alterações climáticas. É um problema em que, se não houver capacidade para antecipar o que pode vir a acontecer, com probabilidade grande, quando chegar a altura já é tarde. E já está a fazer o seu caminho. Depois do ano hídrico muito complicado em 2016/17, já estamos no 2017/18 sem haver indicação de possa haver uma melhoria. Estamos a 14 de Fevereiro, a hipótese de haver alguma chuva só aparece a 24 – e mesmo aparecendo esta chuva a espaços não chega para encharcar a terra. 

O Estado tem instrumentos, face à dimensão do problema, para o minimizar? 
No que respeita ao Alentejo, esta questão está ainda em estado de negação. Não é tratada com o sentido de emergência – até, se calhar, pelo efeito traumático dos incêndios ... Não acontece que seja levada em linha de conta a probabilidade (que é científica) de o Alqueva...

Para muitos o Alqueva teria resolvido o problema de seca no Alentejo. Mas não...
Não é assim e, infelizmente, se este for um ano hídrico parecido com o anterior, o Alqueva corre o sério risco de não ser utilizável já a partir de 2019, porque o Alqueva não é utilizável abaixo da chamada “quota 135”, cerca de 1000 hectómetros cúbicos de água. 

Isso leva-nos à conclusão de que esta política baseada em barragens não é já o suficiente?
Não há tanto uma questão de adiar barragens, há uma questão concreta da água em si. Só faz sentido ter barragens, se elas puderem encher. A situação a norte é um bocadinho melhor, mas não é muito melhor do que abaixo do Tejo. Mas o que é preciso é entender que o problema é mesmo a entrada da água. Nas suas nascentes, o Douro e o Tejo já secaram.

Face a esse cenário, o que é que se pode fazer?
Se não chove, só há uma alternativa: é ir buscar a água onde ela está, que é o mar. E em Portugal falar de dessalinização é uma coisa que ainda está lá por trás do sol posto, ignorando que a Espanha é o quarto país do mundo na produção de água dessalinizada. A Espanha tem mais de 700 dessalinizadoras instaladas que, só por si, produziriam água utilizável para Portugal inteiro. Aqui em Portugal, que eu saiba, temos uma muito pequenina em Porto Santo. Mas o que não existe é a percepção... É que podia dizer-se: “Talvez para o ano.” Mas esta questão não se põe, é o tal estado de negação. 

Os políticos não estão alerta?
E, se vir bem, são todos os políticos. Não vê no OE para 2018, não vê no que está previsto em termos de fundos comunitários e nem na previsão da década 2020/30 nada a falar da água! A única coisa que vi na intervenção do Governo, que é uma ponta do icebergue, é tentar modificar a cultura dos portugueses quanto aos seus hábitos de consumo da água – que demora muito tempo e se torna muito complicado na vivência diária. E, depois, a água que sai das nossas casas sai toda pela mesma via, as mais sujas e as outras. Acontece que é preciso, para efeito de recuperação adequada (e a sua reutilização), por exemplo, em Lisboa, levantar quase a cidade inteira – porque as estruturas estão quase todas feitas para deixar misturar os dois tipos de água. É evidente que isso implica investimentos muito grandes.

No seu caso, na Herdade do Esporão, onde a água serve fins agrícolas, o que é que já está a ser feito?
É uma questão que já foi abordada por nós há seis anos. Hoje gastamos um terço da água – e o trabalho de adegas é altamente consumidor de água. O que fizemos foi uma linha de recuperação e redução do que gastávamos. 

Chegou a ter um projecto de investimento turístico muito ambicioso para o Alqueva, que acabou por cair com a crise e por falta de financiamento bancário. Hoje, com o boom turístico, acha que era possível montar esse projecto? 
Não. Claramente que se hoje tivesse de arrancar com um projecto daqueles, a perspectiva de que o Alqueva possa entrar em crise era fundamental... Aquele era um projecto-âncora para o turismo do Alentejo como o Esporão foi para a vitivinicultura. Mas com estas perspectivas, a minha decisão seria, francamente... Não quer dizer que não possa haver perspectivas no turismo, mas não podemos pensar que o Alqueva resolve.

Tem larga experiência no sector bancário. Acha que ele hoje está mais tranquilo?
Comecei no GES, éramos seis sócios (...). Depois voltei ao BCP (...). Sem querer insistir muito na perspectiva do populismo, posso pensar que o que aconteceu ao engenheiro Jardim Gonçalves ou ao Ricardo Salgado são manifestações muito desse tipo. Isso acabou por conduzir à situação actual em que estamos, isto é, para uma parte importantíssima do sector, os centros de decisão não estão em Portugal. Não podemos pensar ou imaginar que os bancos são instituições de caridade, hoje até por razões de sobrevivência. Hoje em dia, temos de aceitar o facto de as decisões já não estarem aqui.

A queda de Jardim Gonçalves e Ricardo Salgado aconteceu por razões políticas?
Não. A forma que caracterizou o populismo, de “eu é que sou importante, a instituição é menos importante” foi, quanto a mim, uma parte muito importante daquilo que aconteceu. Há duas coisas que muitas vezes se confundem: poder é uma coisa, ganância é outra. Às vezes quando se juntam os dois, a combinação é um bocado explosiva. As consequências que vieram... mas temos que dizer uma coisa: o Banco de Portugal e as autoridades de supervisão não fizeram o trabalho de casa.