Chris Rock voltou sem avisar

Tamborine é o sexto especial daquele que é um dos maiores e melhores cómicos norte-americanos e o primeiro dos dois que o Netflix lhe encomendou. Está disponível desde quarta-feira. Nele, Rock fala sobre o divórcio e o mundo de hoje. É um regresso, ao final de dez anos sem lançar nada de novo em termos de registos de stand-up.

Chris Rock está de volta em <i>Tamborine</i>
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Chris Rock está de volta em Tamborine Netflix

Chris Rock já não fazia um especial de comédia desde Kill The Messenger, de 2008, rodado para a HBO. Na altura, Barack Obama ainda nem sequer tinha sido eleito presidente, mas era algo que o cómico desejava. Tal desejo prendia-se em parte com ele, como homem negro, poder parar de dizer às filhas que, quando crescessem, podiam fazer tudo. Se um homem negro podia ser presidente, elas poderiam ser tudo o que quisessem.

Rock regressa ao tópico de alguém poder ser o que quiser quando for grande, e às filhas, em Tamborine, o especial do Netflix cuja data de lançamento foi anunciada de surpresa de um dia para o outro. Só esta terça-feira é que se soube quando iria para o ar: no dia seguinte. É o sexto especial da sua carreira e o primeiro de dois pagos a peso de ouro que o serviço de streaming encomendou à lenda da comédia e está disponível desde esta quarta-feira.

Realizado por Bo Burnham, jovem cómico cujo recomendável especial Make Happy também é do Netflix, e filmado no ano passado na Brooklyn Academy of Music, em Nova Iorque, é um excelente regresso em forma de um dos maiores, melhores e mais consistentes cómicos norte-americanos. Mesmo que haja partes datadas (em dada altura, fala-se, por exemplo, em Omarosa, que entretanto saiu da Casa Branca), não são um factor muito negativo.

Depois de uma curta introdução ao som de Them Changes, de Thundercat, Tamborine arranca em pleno com Chris Rock a falar da quantidade de polícias que matam jovens negros não armados – comenta que seria de esperar que volta e meia estes matassem também miúdos brancos –; a falar sobre o que pensa da polícia – está dividido quanto a esse assunto, por um lado como homem negro e por outro como homem rico que é proprietário de casas –, e a falar ainda do controlo de armas e do sistema judicial dos Estados Unidos.

Também se atira a Donald Trump, à religião, à educação das filhas – é aí que volta à carga com o tema de se poder ser o que se quiser quando se for grande, algo que, desta vez diz não ser verdade, já que ninguém é especial como pensa –, a ausência de karma ou uma defesa da necessidade de aprender a lidar com bullies. Continua com as repetições, a expressividade, a afectação vocal, o tom enérgico e deliberado e as perspectivas inteligentes sobre o mundo – quer se concorde ou não – e a ter a mesma piada de sempre, só que agora está talvez um pouco mais contido, mais maduro, sofrido, vulnerável e vivido do que era antes.

Mas a parte mais importante do especial, e aquilo a que lhe dá nome, é o divórcio por que Rock passou há dois anos, que também serve de pretexto para examinar a sua posição como homem negro rico e bem sucedido. O cómico nunca foi propriamente a pessoa mais iluminada do mundo no que toca a questões de género, e isso continua aqui, mas Rock tem tendência a abordar esses tópicos com um pé na realidade. E, ao mesmo tempo, a perguntar-se “o que raio há de errado com os homens?” e a admitir que as mulheres não são propriamente bem tratadas pela sociedade.

Rock nunca demoniza a outra parte da relação, e fala de como foi um idiota nos 16 anos em que foi casado, a trair a mulher (é complicado não vir à cabeça o álbum 4:44, de Jay-Z, que lidava com temas parecidos e até envolvia Rock, num dos vídeos complementares de The Story of O.J., a falar sobre a experiência de ser negro na América) e a não lhe prestar atenção suficiente. O título – um pretexto também para se ouvir, no fim do especial, o clássico Tamborine, de Prince – vem da comparação que Rock faz entre manter uma relação bem sucedida e fazer parte de uma banda, em que é preciso empenho mesmo quando só se está a acompanhar – ou a tocar tamborim.

Não é como se houvesse pouco Chris Rock no mundo. Nos últimos anos, o cómico continuou a ser uma figura activa, seja em digressões de stand-up, na produção de talk shows como Totally Biased with W. Kamau Bell ou The Rundown with Robin Thede, a participar nos filmes que Adam Sandler faz para o Netflix, a escrever, realizar e protagonizar as suas próprias comédias, como Top Five, e até a realizar especiais como Live at the Apollo, de Amy Schumer. Mas é bom vê-lo de volta. Venha o segundo.