Os médicos que nos “desentopem” as artérias e salvam o coração

Há médicos que são especialistas em desobstrução de artérias, os “canos” que transportam o nosso sangue. Cada vez mais doentes fazem angioplastias. Esta quarta-feira é o dia do doente coronário.

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Paulo Pimenta
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Calmo e sorridente, António Lima entra na sala de hemodinâmica do Hospital de Santo António, no Porto. Aos 78 anos, alguns dos quais a sofrer com uma dolorosa angina de peito, já sabe ao que vai. É a segunda vez que se prepara para fazer uma angioplastia para desobstruir uma artéria, e a parafernália tecnológica e o corrupio de médicos e enfermeiros à sua volta não o intimidam nem assustam.

Admite apenas que está um pouco ansioso, mas também sabe que o procedimento a que vai ser submetido — e que implica uma mera anestesia local, sem cirurgia — vai abrir-lhe a porta para uma melhor qualidade de vida. Poderá deixar de sentir aquele “mal-estar no peito” que o acomete sempre que acelera o passo e quase dispensar o comprimido de nitroglicerina que lhe deram para pôr debaixo da língua em caso de emergência.

“Já me desentupiram antes... Não tenho medo, não custa nada”, desdramatiza o reformado que nunca fumou mas tinha duas artérias quase totalmente obstruídas. António reconhece que gosta de comer bem, mas está longe de se considerar um doente de risco. A última vez que mediu a tensão “tinha 160” (a máxima). E o colesterol? “Não sei”, responde, descontraído.

“É hipertenso, tem colesterol elevado e um historial familiar de doença coronária. É um caso típico de doente coronário”, enumera Henrique Cyrne de Carvalho, o director do laboratório de hemodinâmica do hospital portuense que vai acompanhar os dois cardiologistas de intervenção — uma subespecialidade da cardiologia — que se preparam para iniciar a viagem pelo interior das artérias até ao coração de António.

A angina de peito é provocada pelo estreitamento ou obstrução das artérias. Isso provoca a redução dos níveis de oxigénio e nutrientes que chegam às células do músculo cardíaco, explica João Brum Silveira, o cardiologista responsável pela angioplastia. A obstrução resulta normalmente da formação de placas de gordura no interior das artérias (aterosclerose).

Antes era a “aguentoterapia”

Com 40 anos completados em 2017 (chegou a Portugal quase uma década depois), a angioplastia foi evoluindo e passou a ser a solução para grande parte dos casos de angina de peito e de enfarte agudo de miocárdio. Antes não havia grande remédio para as pessoas que sofriam desta dor transitória no peito. “Tínhamos a aguentoterapia”, brinca Henrique Carvalho.

A realidade actual é radicalmente diferente. “A tecnologia evoluiu a um ritmo galopante. Agora dispomos de recursos pouco agressivos.” Dispensando bisturis, com um custo que ronda “os sete a dez mil euros”, a angioplastia tornou-se um procedimento de rotina para desobstruir as artérias coronárias. Quando tapadas com placas de gordura que provocam coágulos, as artérias não permitem a irrigação sanguínea adequada. E, sem isto, o músculo que nos mantém vivos pode morrer.

O enfarte agudo de miocárdio corresponde justamente à morte de uma pequena parte desse músculo vital. E é precisamente este desfecho que os cardiologistas de intervenção querem evitar ao máximo. Em Portugal, como nos outros países ocidentais, o número de angioplastias coronárias em geral tem vindo a aumentar (foram perto de 15 mil em 2016), substituindo as cirurgias. Ao mesmo tempo, a mortalidade por enfarte agudo de miocárdio caiu (são pouco mais quatro mil mortes por ano).

Na comparação com os outros países da União Europeia, enfatiza João Silveira, que é presidente da Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular, até ficamos muito bem na fotografia. “Estamos em quarto lugar na mortalidade intra-hospitalar.”

“As nossas válvulas são como as dos carros"

Sedado mas consciente, António vai permanecer deitado no equipamento de fluoroscopia, um sofisticado sistema graças ao qual é possível visualizar imagens das suas artérias em tempo real. Não abre os olhos sequer quando os médicos entram, pelo pulso, no caminho para o seu coração. Com um cateter, um finíssimo tubo, percorrem a artéria coronária direita.

À medida que a intervenção avança, os monitores e ecrãs com imagens bidimensionais e tridimensionais permitem seguir todos os passos. Detecta-se um segmento calcificado, mas pouco se pode fazer. “As nossas válvulas são como as dos carros. O problema é que estão preparadas para 60 mil quilómetros quando hoje fazemos 80 mil. Com a idade, vão fibrosando, apertando”, ilustra Henrique Carvalho.

“Somos uma espécie de canalizadores. Mas enquanto eles trabalham com canos inertes, as artérias têm vida, são muito complexas”, compara. Pelo caminho, um microscópico balão na ponta do cateter é insuflado e dilata a artéria obstruída, esmagando a placa de gordura que impede a correcta passagem do sangue.

O médico regressa às analogias: “Um balão destes aguenta dez vezes mais do que o pneu de um carro. É engenharia complicada.” Se necessário — e no caso de António é — coloca-se uma minúscula e aparentemente frágil mola metálica — um stent —, uma prótese em crómio-cobalto que, ao abrir dentro da artéria, facilita o fluxo sanguíneo.

"Nunca tivemos tantas mulheres"

António vai ficar com o stent para o resto da vida. Há riscos? Sim, mas têm mais que ver com a gravidade da doença do que com o procedimento, asseguram os médicos. “Não somos Deus”, avisam. Nem curam — a doença coronária é crónica. “Temos aqui clientela frequente. E nunca tivemos tantas mulheres entre os 30 e os 50 anos”, lamenta João Silveira.

A angioplastia demora 30 minutos, uma hora, dependendo do estado do doente e do número de artérias obstruídas. António teve sorte. “As artérias taparam, mas ele foi desenvolvendo pequenas conexões, aquilo a que chamamos circulação colateral. O músculo não ficou afectado”, descreve Henrique.

Mas o sucesso das angioplastias tem um lado perverso. “O doente parece que não está doente”, explica João Silveira. Acostumados a vidas agitadas, muitos pacientes não conseguem alterar os hábitos mais perniciosos. Nem conseguem muitas vezes perceber que estiveram perto da morte.

“Uma vez um doente, e era um caso grave, perguntou ao anestesista se podia ir buscar o carro porque o tinha deixado mal estacionado”, exemplifica o cardiologista. E outro insistia em viajar no dia seguinte para Milão, onde tinha de fechar um negócio. “É preciso que metam na cabeça que têm de mudar o estilo de vida. Senão em três anos estão aqui de novo.”

A prevenção é fulcral. “Somos bons a tratar mas maus a prevenir”, diz João Silveira. “Os grandes inimigos são o tabaco e o excesso de peso, que provocam problemas metabólicos. É preciso disciplina.”

Uma parte considerável do sucesso destas intervenções está nas mãos dos doentes. Quando tem um ataque cardíaco, muitos ainda não ligam para o 112 para receber assistência, apesar de todas as campanhas feitas nos últimos anos. É preciso repetir a mensagem até à exaustão, insiste João Silveira. É fulcral ligar logo para o número de emergência quando há sintomas. Senão os doentes correm o risco de ir parar a um hospital que não tem cardiologia de intervenção (em Portugal há uma rede com 20 unidades preparadas) e perdem logo duas horas. E essas são precisamente as “horas de ouro”.

“Dos doentes que nos chegam com enfarte, a taxa de mortalidade durante a fase do internamento é de 2,4% e durante o primeiro ano é de cerca de 4%, portanto os doentes que nos chegam a tempo ficam com grande qualidade de vida”, sublinha.

A situação está a melhorar, mas para estes especialistas ainda há um longo caminho a percorrer. As campanhas têm tido algum sucesso, o número de chamadas para o INEM aumentou, mas este instituto “não tem pessoal suficiente” para dar sempre resposta com a rapidez necessária.

Se à entrada no sistema persistem muitos problemas, à saída também. António é um privilegiado. Depois de tratado, já sabe que vai fazer reabilitação cardíaca, um passo fundamental para que não regresse dentro de alguns anos ao ponto de partida. Vai ser acompanhado durante seis semanas no Santo António por fisiatras, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos que vão testar os seus factores de risco cardiovasculares e ajudá-lo a mudar o estilo de vida. Mas ainda são poucos os hospitais que dispõem deste tipo de resposta.