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“Give hugs, not pugs” (mesmo em postais), pedem os veterinários no Dia dos Namorados

Neste Dia dos Namorados, desvia-te dos cartões com pugs e bulldogs franceses. Primeiro, porque já são um cliché e depois porque "os cães da moda" sofrem, avisam os médicos veterinários

“Give hugs, not pugs” é pelo segundo ano o mote escolhido pelos médicos veterinários britânicos a propósito do Dia dos Namorados. Além de pedirem para que os casais não ofereçam um cão desta raça, estendem ainda o apelo às empresas que fazem cartões com fotografias ou ilustrações de cães de focinho achatado que por esta altura inundam as prateleiras das lojas (e as imagens partilhadas nas redes sociais).

O aviso integra-se na campanha #BreedtoBreathe que quer juntar várias marcas no combate ao aumento de popularidade das raças de cães braquicefálicos. Por esta altura, o foco está nos vendedores de cartões que “representam as tendências do momento” e a quem a associação enviou uma carta a pedir a substituição destas raças por outras que não sofram “só para ter um certo aspecto”. A Marks & Spencer, o Costa Coffee e a Heinz já aceitaram “considerar” a presença destes animais nas suas campanhas de publicidade.

O objectivo é revelar a verdade por trás das “características físicas extremas” vistas como “adoráveis” – culpa da “adoração do ser humano por cabeças redondas e olhos grandes”, o mesmo mecanismo que “nos faz achar bebés fofos e querer cuidar deles”, explicava a médica veterinária Joana Prata numa crónica no Pet, em Março último.

Os pugs fazem parte das “raças controversas” que são “frequentemente vistas como fofas, mas que, na realidade, acarretam vários problemas de saúde”, escreve a Associação Veterinária Britânica no seu site. “O dia de São Valentim é supostamente o dia mais romântico do ano, por isso dar um presente que retrata um cão que sofre problemas graves de bem-estar como resultado da maneira como é criado não deverá ser a mensagem que queremos dar a quem gostamos”, defende o presidente da associação, Gudrun Ravetz. “Temos de parar de ver estas raças como fofas”, sublinha, acrescentando que estes animais podem sofrer a vida toda com “dores horrendas que também ficam caras para o dono”.

Popularidade continua a aumentar

Segundo dados da associação britânica, mais de metade dos cães braquicefálicos (“cabeça curta”) e um quarto dos gatos braquicefálicos precisam de tratamento para problemas de saúde relacionados com o seu aspecto físico. De acordo com um inquérito a veterinários no Reino Unido, as três razões principais para as pessoas comprarem pugs e outros cães braquicefálicos são o seu aspecto e a sua popularidade, traduzida também na elevada presença em merchandising e nos meios de comunicação.

Apesar dos avisos regulares de médicos veterinários e associações de apoio aos animais, a fama destes animais continua a aumentar. Os bulldogs franceses, outros cães braquicefálicos, são agora 31 vezes mais procurados do que há uma década, por exemplo, escreve a associação no comunicado.

Também a Associação Portuguesa de Médicos Veterinários Especialistas em Animais de Companhia alertou para esta situação em Outubro de 2017, num esclarecimento público. “Para além dos problemas respiratórios mais falados, decorrentes da conformação facial e rinofaríngea (síndrome obstrutiva das vias aéreas superiores do braquicéfalo), constam ainda outros problemas reportados, nomeadamente reprodutivos “, acredita Lisa Mestrinho, a presidente da APMVEAC. “Afecções como estas necessitam obrigatoriamente de intervenção cirúrgica para melhorar a qualidade de vida e, em casos mais extremos, assegurar a sua sobrevivência”, continua.

Estes procedimentos, que deveriam ser “recursos excepcionais”, estão a tornar-se comuns e foram um tema central em Setembro de 2017 numa reunião de especialistas de todo o mundo em Copenhaga. Lisa Mestrinho diz que a associação que preside recomenda a “criação responsável destas raças, que se traduz por uma selecção de exemplares isentos dos problemas acima descritos” e “incentiva a esterilização de animais com conformações anatómicas braquicéfalas extremas”.