Entrevista

Accionista chinês “é uma espécie de renascimento” da Partex

António Costa Silva, presidente da Partex, diz que a empresa vai entrar num “novo ciclo” com a venda ao grupo chinês CEFC, que quer investir e transformá-la “numa plataforma global”, orientada para o Médio Oriente, Ásia Central e países de língua portuguesa.

O negócio ainda não está fechado, mas o presidente da Partex está confiante que é só uma questão de tempo. Do lado do vendedor está a Fundação Gulbenkian e do comprador o grupo CEFC, conglomerado chinês que quer também os seguros do Montepio. Com o novo accionista, que tem vindo a crescer no petróleo e no gás (é accionista do gigante russo Rosneft e entrou em mercados como Abu Dhabi), a empresa terá capacidade para chegar a novas geografias e voltar às renováveis.

O presidente da Partex, que se tem reunido com o novo accionista e está a tentar obter o máximo de orientações, diz que os recursos humanos são “uma das condições cruciais do contrato”. O novo investidor quer “a equipa, as valências, o know-how, a tecnologia”, diz, além das participações da empresa que, segundo dados preliminares, subiu as vendas para 320 milhões de dólares e o resultado líquido para 67 milhões. Para a equipa de gestão é um “desafio aliciante” trabalhar com uma companhia “que vai estar no centro da geopolítica mundial, da geoeconomia e das transformações energéticas”.

A Partex vai ser vendida a um investidor chinês, a CEFC. O que é que falta para se oficializar o negócio?
A negociação, complexa, está a decorrer. Nesta altura estão-se a discutir os termos do acordo. Acho que há uma grande probabilidade de se concretizar. Depois, após o acordo, tem de haver a notificação a todas as companhias operadoras onde estamos, e há algumas concessões em que é necessário consultar também os parceiros por causa dos direitos de preferência.

Conhece o comprador? Onde é que está presente? 
Não gosto muito de falar sobre os meus accionistas, quer o actual, quer o potencial futuro. É uma companhia chinesa, um grande conglomerado, que começou na parte do downstream, na refinação, terminais, logística. Recentemente entraram no upstream [exploração e produção], no Médio Oriente, na Rússia, e elegeram a Partex como uma espécie de plataforma para investimentos no upstream, globalmente, onde eles não têm muitas valências e querem potenciar o valor da companhia nessa base.

Vai ficar à frente da empresa, sendo essa a vontade do accionista? 
Eu tinha um mandato que terminava em 2019 com o accionista actual. Mas, aparentemente, nas conversações entre o vendedor e o comprador, uma das questões que ele pôs foi a de a equipa continuar. Não só a equipa de gestão, mas também a equipa técnica. É uma das condições cruciais do contrato, porque, mais do que os activos, estão interessados na equipa da Partex, que tem grande influência, sobretudo no Médio Oriente, e uma dimensão e capacidade técnica elevada. Os nossos engenheiros, geólogos, geofísicos são muito competentes, ao nível dos melhores no mundo. E eles querem preservar essa força de trabalho.

Então, ficará à frente da empresa?
Eu não gosto de abandonar os barcos a meio, sou um combatente. E, se quiserem, este vai ser um combate para transformar a Partex. Têm uma visão muito clara, de transformar a Partex numa plataforma global e, para mim, para os meus colegas de gestão, é um desafio aliciante. Vamos trabalhar com uma companhia e um país que vão estar no centro da geopolítica mundial, da geoeconomia e das transformações energéticas. Aliás, uma das razões pelas quais escolheram a Partex foi por verificar que os activos da empresa seguem a rota da seda: nós estamos na Ásia central, no Cazaquistão – onde, no futuro, poderá haver um grande pólo, envolvendo também o Turquemenistão e outros países –; estamos no Médio Oriente, onde eles entraram numa das concessões históricas… Nós já estamos em Abu Dhabi, na GASCO, eles estão noutra concessão, pelo que pode haver sinergias interessantes. Também estão com a apetência de entrar em Omã, onde a Partex é muito forte e tem grande parte dos activos; e depois estamos em Portugal, que vêem como uma base tecnológica para apoiar o Médio Oriente e as outras operações mas também para intervir nos países de expressão portuguesa. Querem chegar ao Brasil e a Angola, onde a Partex já está, provavelmente Moçambique, e a países como a Argélia. Penso que a nossa equipa está preparada para isso, mas, para responder a esta escala global, vamos ter de empreender transformações profundas na companhia, na sua dinâmica, no seu modelo operacional.

Os recursos humanos são então um activo mais importante do que as participações? 
Não tenho dúvida nenhuma. É uma afirmação que fazem de forma repetida, desde a primeira reunião. Eles querem a equipa, as valências, o know-how, a tecnologia.

A Partex vale, então, mais do que o valor que está inscrito no balanço…
Sobre isso não vou fazer comentários. As companhias podem ter muitos activos, mas se não tiverem pessoas não funcionam. Esta companhia faz 80 anos, foi criada em 1938 pelo senhor Calouste Gulbenkian, e há 62 anos que é património da Fundação Gulbenkian, desempenhando um papel crucial na obra filantrópica ao longo do tempo. O senhor Gulbenkian, como ele dizia, era um “arquitecto de negócios”, não era um homem de negócios. Ele criou e desenvolveu um modelo novo, em que conseguiu aglutinar as companhias ocidentais, os países do Médio Oriente, para produzir petróleo. Esse modelo de negócio ainda está em vigor, e foi ele que o inventou, no célebre “Red Line” Agreement, em que desenhou um perímetro geográfico em que as empresas, em vez de competirem entre si, colaboravam. Esse modelo ainda vigora, não só na indústria petrolífera mas também na indústria aeroespacial. Temos este legado, de um homem extraordinário, que foi um visionário, e a companhia procura adaptar-se a todos os ciclos. Nós vamos começar um novo ciclo, é uma espécie de renascimento da companhia.

A CEFC vai aglutinar na Partex os activos energéticos que já detém, ou o inverso? 
Eu estou já em contacto profundo com o novo accionista, mas, em termos de modelo operativo, isso ainda não está claro. O que está claro é que eles querem usar a Partex como a plataforma para o upstream, para ser o centro, mas têm outras operações e estão espalhados pelo mundo. Mas, no upstream, a exploração e produção de petróleo e gás, consideram que vamos ser a base dessas valências tecnológicas.

Sente que, em termos globais, está à frente de uma microempresa que se vai tornar numa grande empresa? 
Sinto… Com todo o respeito que temos pelo nosso accionista, a Fundação Gulbenkian tem um determinado perfil, de intervenção e de investimento, e tem regras muito claras. Estamos a iniciar um novo ciclo de renovação das concessões no Médio Oriente, processo que começou há dois anos, com a renovação da ADCO em Abu Dhabi. A Partex poderia ter entrado, mas o processo exigia um investimento à cabeça de algumas centenas de milhões de dólares. A fundação pesou muito bem esse investimento e considerou que ia duplicar a sua exposição ao petróleo e gás. Só que tem certas linhas, certas regras, e não queria isso, mas simultaneamente não queria cortar as asas à Partex. Compreendeu que a empresa precisava de investimentos para continuar a ser um player internacional e reforçar-se. Foi nessa base que a fundação se abriu para um processo de abertura de capital da Partex, inicialmente parcial, para captar outros accionistas capazes de investir. Só que apareceram vários interessados, e alguns queriam a aquisição total da companhia. Há aqui uma articulação dos interesses da fundação, em termos da gestão do seu património e das regras muito claras que tem para não passar um certo limiar na exposição ao petróleo e gás, com a possibilidade de a Partex encontrar uma via para se desenvolver.

Que concessões é que se estão a renovar e quando? 
Houve essa concessão [Abu Dhabi], e normalmente as renovações são por mais 30 a 40 anos. Há outra que será renovada em 2024, em Omã, e temos em 2028, em Abu Dhabi.

Omã é a grande fonte de receitas da Partex… E o de Abu Dhabi, foi renovado?
Não. Curiosamente, o nosso potencial accionista ficou [na operação], pelo que vamos tirar sinergias muito grandes daí.

Um dos destinos possíveis da Partex com o novo accionista é Moçambique, tendo em vista a exploração de gás?
Nesta altura, estamos a discutir as orientações gerais e as áreas de intervenção.

Mas é uma possibilidade real?  
É uma possibilidade. Os chineses valorizam muito os países de expressão portuguesa. Aliás, não é por acaso que escolheram Lisboa como a sua base financeira e eventualmente vão ter também aqui a base tecnológica do upstream. E uma das razões é para chegar aos países de expressão portuguesa.

Há um potencial enorme de gás no Norte de Moçambique, com fácil ligação para a Ásia…
A China, em 2017, importou mais 20% de petróleo e mais 50% de gás. É um colosso extraordinário, que está num processo de grande transformação e requer recursos energéticos a uma escala sem precedentes. Já passou os Estados Unidos como o primeiro importador mundial de petróleo, e no gás estão em expansão acelerada. Eles compreenderam bem o que é que os Estados Unidos estão a fazer, ao substituir, com a revolução do shale [petróleo e gás de xisto] – que é a primeira grande revolução energética do século XXI (só a Europa é que ainda não compreendeu isso) – as centrais a carvão por centrais a gás. As emissões de CO2 são 60% inferiores, e os chineses estão a seguir o mesmo caminho.

A China tem uma necessidade mais imperativa do que a Europa, provavelmente…
Tem toda a razão. Os chineses identificaram a questão ambiental como uma das que podem inibir o seu desenvolvimento económico. Eles têm cerca de 15 cidades entre as 20 mais poluídas do mundo. Agora estão a diminuir o consumo de carvão. Em 2015, a descida foi de 2%, e de 2,2% em 2016, e as emissões de CO2 na China estão a cair. Nos Estados Unidos ainda é mais espectacular: o consumo de carvão desceu 13% em 2015 e 8,8% em 2016. Durante 30 anos, as emissões aumentaram ao nível do planeta, 1,6% ao ano, com todos os analistas a dizer que até 2040 era impossível estabilizar, e pela primeira vez nos últimos anos temos essa estagnação e a possibilidade de reversão. E de onde é que vem a solução? Da combinação do gás com as energias renováveis. Os chineses são o maior investidor do mundo em energias renováveis. Investem cem mil milhões de dólares por ano, mais do que os Estados Unidos e a União Europeia juntas. Todo este processo se insere numa grande transformação energética que vai usar muito menos carvão, ajustar o consumo de petróleo e usar muito mais gás e energias renováveis.

Sente que está à frente de uma empresa que é suja, não amiga do ambiente? Porque a mensagem que o seu actual accionista dá é a de que está orientado para a sustentabilidade, logo, tem de se desfazer da Partex...
Como vos disse, não comento as decisões do accionista. O que lhe posso dizer é que compreendo perfeitamente que o accionista tem os seus projectos, as questões de sustentabilidade, tem as suas ideias e há muito debate no mundo, mas a questão fulcral é que nós não podemos só emitir opiniões, temos de estudar o mercado de energia. Os factos são irrefutáveis. Repare que estamos num planeta, como eu dizia há pouco, que há 30 anos estava a aumentar as emissões de CO2, e isso tem a ver com o modelo de desenvolvimento económico. Em 1950, eram 5000 milhões de toneladas de CO2, perfeitamente acomodável. Só que no fim do século XX eram 25.000 milhões, aumentando cinco vezes em 50 anos. O problema não é o das empresas de petróleo e gás, é do modelo de desenvolvimento económico e da transformação que é necessária. Nessa transformação, tenho defendido sempre isso, temos de pensar fora do barril, e as companhias de energia têm de estar à frente das transformações. Há uns anos, quando o dr. Emílio Rui Vilar era presidente da fundação, pediu um documento à equipa de gestão sobre o futuro e fizemos uma recomendação para transformar a Partex numa companhia de multienergias. Apostar menos no petróleo, apostar mais no gás, abrir a aposta das energias renováveis.

Como está essa ideia? O objectivo era chegar aos 50% de petróleo, 30% a 40% no gás e o resto renováveis…
Sim, era esse o plano. Entretanto isso mudou. As energias renováveis, quando o dr. Artur Santos Silva entrou para a fundação, passaram outra vez para a fundação só como investimento financeiro. Eu acredito que as companhias no futuro têm de ser de multienergia, de apostar nas várias formas de energia. Para correspondermos aos desígnios da Conferência da Paris, e evitarmos que a temperatura aumente dois graus Celsius, temos que consumir, daqui até 2040, menos 40% de carvão, menos 15% de petróleo, e aumentar 15% de gás e 40% de energias renováveis. E isto é plausível, temos a tecnologia e as condições para o fazer. Por isso é que acho o projecto com o novo accionista chinês interessante, porque tem essa visão multienergética.

Acha que vão querer reforçar nas renováveis?
A China é o maior apostador do mundo nas energias renováveis. Não me sinto nada tóxico. O petróleo, na transição do século, desempenhou um papel crucial. O motor de combustão interna, depois com o carro, com o avião, a electricidade, os computadores, o telefone, essas grandes tecnologias que foram descobertas e desenvolvidas no século XX, foram as grandes responsáveis pelo crescimento espectacular da riqueza no planeta. Porque tiveram um impacto brutal sobre a produtividade total dos factores de produção. Isso é que explica o avanço exponencial do PIB no século XX. Tudo aquilo que temos hoje, o património acumulado da civilização, em termos económicos e sociais, está baseado nisso. Mas é muito importante fazer esta transformação, e isso não se faz com pensamento politicamente correcto, com ideias que não são baseadas nos factos, com a retórica completamente separada dos mecanismos de mercado. É só ver o que se passa na Europa. Há a Europa, campeã da redução das emissões de CO2, pensamento politicamente correcto, que renunciou ao gás a começar por Portugal, como se fosse uma coisa tóxica. E sabe o que é que está a acontecer? O carvão barato que sobra dos Estados Unidos está a ser exportado para a Europa. Você tem vários países europeus, entre eles Portugal, que estão a consumir cada vez mais carvão (com mais emissões de CO2). Toda a gente fala do petróleo e gás, e há uma espécie de demonização, e ninguém fala do grande elefante que está na sala, o carvão.

Vê a Partex a apostar novamente nas renováveis? 
Vejo. Nós temos muitos contactos no mundo, e isso é uma das coisas que nos distinguem. Temos, por exemplo, contactos muito estreitos com a norueguesa Statoil, que está a apostar em energias renováveis, e já nos convidou várias vezes. Obviamente que quando o accionista limitou os investimentos, não era plausível, mas já o é no novo contexto. Ainda não está definido o novo modelo para o futuro, mas é algo para que nós olhamos e que eu defendo. Temos a energia eólica, que hoje é competitiva, e na energia solar os custos de produção de painéis reduziram-se 75% nos últimos seis anos. A energia solar vai ser uma das grandes energias deste século, porque cada dia que passa recebemos do sol oito mil vezes mais energia do que toda a que o planeta consome. Mas atenção: as energias renováveis têm uma densidade energética fraca quando comparadas com o petróleo e com o gás. Tem de haver uma combinação. E depois são intermitentes. Isso é uma das grandes questões, porque não podemos desenvolver uma base tecnológica, uma civilização digital, avançada, dependente só de fontes intermitentes.

Sobre o petróleo, com cotações a tocar nos 70 dólares, já chegámos ao fim da era de preços baixos?
Penso que estamos num ciclo de recuperação dos preços e que eles tenderão a aumentar. Se olharmos para reservas estratégicas, que são um indicador muito importante, estão a diminuir de forma acelerada nas últimas dez, 12 semanas. O que é que isso significa? Significa que o mercado está a entrar em equilíbrio. Desde 2014 e até meados de 2017 tivemos no mercado mundial um excesso de produção de dois milhões de barris por dia. E isso deveu-se sobretudo à produção dos Estados Unidos, do shale oil [petróleo de xisto]. Cada uma das três grandes bacias que existem hoje nos Estados Unidos significa um país do Golfo Pérsico a produzir dentro do território americano e é isto que está a mudar toda a geopolítica do petróleo.

O barril a 70 dólares não vai potenciar o petróleo de xisto?
Vai. O que está a pressionar os preços em alta hoje é claramente a descida das reservas e a subida da procura mundial, que no ano passado, em média, foi de 1,6 milhões de barris por dia e, para 2018, se espera que seja de dois milhões de barris por dia. Isto porque a China está a consumir muito mais petróleo, e também muito mais gás, e também por causa da recuperação da economia mundial. E estes factores estão coligados com outro que é a OPEP. A política da Arábia Saudita, que levou toda a OPEP atrás, de tentar minar a produção dos Estados Unidos produzindo ao máximo e lutando pela quota de mercado, estava destinada a falhar. Só quem não conhece os americanos… Quando começaram esta revolução do shale oil e do shale gas, demoravam dois meses a furar um poço e hoje estão a furar em 12 dias. A OPEP voltou atrás e a partir de Novembro de 2016, com um novo secretário-geral [Mohammed Barkindo], que é uma pessoa que eu acho admirável, um diplomata nigeriano, está a conseguir milagres. Pela primeira vez conseguiu um acordo que liga os países OPEP aos países não-OPEP, com a Rússia à cabeça, e já anunciou que o acordo se vai manter até ao final de 2018 e que criará um mecanismo para o prolongar depois dessa data. E, curiosamente, também anunciou que já estava a falar com os Estados Unidos, para eles aderirem, o que acho muito difícil. Mas o preço, subindo, reactiva a produção norte-americana e, se reactivar muito – e ela está a subir –, isso pode conter os preços. Por isso, espero uma recuperação moderada, na ordem dos 70 a 72 dólares até ao final do ano.

Os americanos vão continuar a ser os grandes concorrentes da OPEP? Temos a China a emergir como potência energética e não está alinhada com a OPEP. Isso pode introduzir novos focos de tensão?
Acho que sim. O secretário-geral da OPEP está a tentar ligar as pontas todas dos grandes produtores mundiais. A China está a produzir cada vez menos petróleo, mas a importar cada vez mais. Obviamente, à China interessa um preço que seja acessível. Com a retirada dos Estados Unidos da ordem internacional, há muitos vazios que se estão a criar na geopolítica mundial e o que se passa é que a Rússia está a ocupar esses vazios e é hoje um grande player no Médio Oriente. Há claramente um eixo da Rússia com o Irão e há um eixo da Rússia que se está a aproximar da China – a China vai depender, e muito, no futuro, da produção da Rússia. Portanto, pode haver uma recomposição da geopolítica mundial da energia em que os Estados Unidos obviamente são independentes do ponto de vista energético e têm um afastamento cada vez maior do Médio Oriente. Isso é mau para o Médio Oriente, é mau para o mundo. E quanto à Arábia Saudita, em 2017 foi a primeira vez que um rei saudita foi a Moscovo. Isto nunca tinha acontecido e vem na sequência do acordo entre a OPEP e a Rússia e de uma ligação que se está criar, que também tem a ver com a desconfiança dos sauditas em relação ao aliado americano. Há uma recomposição. E os sauditas também já estão a olhar para a China, porque a China é um dos grandes consumidores do petróleo da Península Arábica.

E os sauditas encaram com preocupação a aproximação da Rússia ao Irão. Como é que se consegue este equilíbrio de forças entre sunitas e xiitas?
É muito difícil. O Médio Oriente é uma espécie de todos contra todos, ainda por cima temos uma série de Estados falhados, que introduzem uma paisagem política nova, temos uma espécie de medievalização do poder político. É evidente que os sauditas [sunitas] estão preocupados com o eixo xiita que cresce. Os xiitas têm uma preponderância no Iraque, Síria e Líbano e também no Bahrein, mas o ponto crucial que irrita muito os sauditas é que eles também têm influência na província oriental da Arábia Saudita. É um facto pouco conhecido, mas entre 10 e 12% da população saudita é de confissão religiosa xiita e na província de Qatif, onde está o campo de petróleo de Ghawar, que é o maior do mundo, há muita instabilidade. E, como tal, estes novos eixos estão a criar nas monarquias sunitas uma situação de tensão, que tem necessidade de resposta. E agora, quando se fala com todos aqueles responsáveis, há uma coisa que vem sempre nas conversas, que é a entrevista que o ayatollah Khomeini deu em 1979, quando veio de Paris para Teerão, e em que disse: “O mundo islâmico foi dirigido até hoje pelos árabes, foi dirigido pelos curdos com Saladino, foi dirigido pelos turcos no Império Otomano. Chegou a hora dos persas”. E isto ecoa profundamente em todos aqueles regimes sunitas do Médio Oriente, porque eles dizem que, de facto, com as intervenções que os Estados Unidos fizeram no Iraque e no Afeganistão e com o que sucedeu a seguir, parece que realmente chegou a hora dos persas. E há esta aliança forte do Irão com a Rússia. Provavelmente a visita do rei saudita à Rússia é para criar abertura, a ligação à China é para criar equilíbrios, porque eles sentem que, com a ausência progressiva dos Estados Unidos do Médio Oriente, alguma coisa têm de fazer, porque o tempo corre contra eles.

Como é que vê a mudança de regime recente em Angola e o reposicionamento que a Sonangol sofreu nos últimos meses?
Vejo estas mudanças como muito positivas e fiquei muito impressionado quando o Presidente João Lourenço disse que a referência política dele era Deng Xiaoping, que eu também considero que foi uma das maiores personalidades políticas do século XX e que foi quem mudou a China. Ele tem uma conversa muito interessante com o antigo secretário de Estado norte-americano George Shultz, em que criticava Gorbachov e dizia: “Fez tudo ao contrário: começou pela política e não mexeu na economia e criou o caos; nós, aqui, estamos a abrir a agricultura e as pequenas empresas pouco a pouco; as pessoas querem mais, mas vamos continuar a abrir a economia e a abertura política virá a seu tempo. Temos de ser persistentes e fazer as coisas pela sequência certa”. E eu acho esta formulação admirável e, portanto, o Presidente João Lourenço tem de seguir a sequência certa para redinamizar o país. Angola tem um potencial enorme, tem é de encontrar maneira de pôr a economia a funcionar. Penso que os sinais dados na Sonangol são muito positivos, de ir buscar pessoas que conhecem o negócio. Obviamente terá muitas dificuldades, porque a Sonangol estava completamente paralisada. Há a questão de a Sonangol aglutinar tudo, ser a concessionária, o regulador, a companhia nacional e o fundo soberano; penso que ele estará a olhar para isso e a tentar encontrar soluções e depois há-de dinamizar a economia. Nós olhamos para Angola e 42 a 45% do PIB é petróleo, 75% das receitas do Governo são petróleo, 95% das exportações são petróleo. É evidente que o país tem de aprender, como está a aprender. Não sei se se recordam, mas em Julho de 2008 o petróleo estava nos 140 dólares por barril e em Dezembro estava nos 30 dólares. Angola também sofreu, só que, nessa altura, a OPEP fez o contrário, cortou a produção e os preços recuperaram em V, e não foram tiradas ilações. Angola tem muito trabalho de casa a fazer e penso que o novo Presidente o está a fazer. Não sabemos se será um novo ciclo, só o futuro o dirá, mas eu espero bem, até porque nasci em Angola, que seja um ciclo muito frutuoso para o país.