Todo um outro Dia dos Namorados com Luís Severo e Colleen Green

Esta quarta-feira, Luís Severo apresenta-se com convidados no Musicbox, mas não cantará amores perfeitos (porque o amor é difícil). Quinta-feira, Colleen Green mostrará no Anjos 70, em Lisboa, que somos mais complexos que os clichés da data.

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Já se sabe vai ser uma azáfama dos diabos, uma canseira. A correria para comprar a prenda porque tem que ser, data "oficial" é para ser cumprida, e as dores de cabeça para encontrar um sítio para jantar, porque estão sempre cheios neste dia e, consequentemente, é provável que deixar a reserva para a última hora não dê bom resultado. Como é que se vai explicar depois que temos mesmo que ficar pela pizza no sofá, enquanto está toda a gente a trocar prendas de olhar embevecido (e aliviado) nos restaurantes reservados com a devida antecedência, com banda-sonora romântica como em pano de fundo?

14 de Fevereiro. É dia de São Valentim, o mártir cristão e patrono dos namorados e sente-se a pressão social no ar. 14 de Fevereiro, dia dos Namorados, dia de concerto. Boa data para marcar um, “afinal, as pessoas gostam de gastar dinheiro nesta data”, ri Luís Severo, figura destacada entre os nossos cantautores contemporâneos, autor de Cara d’Anjo e de um álbum homónimo, editado em 2017, considerado pelo Ípsilon um dos melhores do ano. Severo sobe esta quarta-feira ao palco do Musicbox, em Lisboa, para assinalar a festividade (22h30, 10€).

“Boa Companhia – Luís Severo e Convidados” foi o nome que o cantor de melodia certeira e palavra bem versejada deu ao concerto. Uma noite de duetos com “amor e amizade” para os quais convidou Cristina Branco, Júlia Reis, das Pega Monstro, Rodrigo Araújo (Vaiapraia & As Rainhas do Baile), Diogo Rodrigues e Bernardo Álvares. “São pessoas que senti que influenciaram positivamente a minha evolução ao longo desta década”, diz ao PÚBLICO, antes de alertar, “mas não vou fazer bem o que se estaria à espera que fizesse”, tendo em conta a data. Não, esta quarta-feira, o espírito de São Valentim será outro. E prolongar-se-á um dia mais.

Quinta-feira, no Anjos 70, em Lisboa, a editora e promotora Maternidade também montará a sua festa para o Dia dos Namorados. O centro das atenções será a americana Colleen Green, autora de I Want to Grow Up (2015), o seu álbum mais recente, pérola de rock muito sónico, numa linha que liga os Ramones às Breeders, estas às Elastica, estes todos aos Wavves, um punk directo com melodias tão escorreitas quanto são complexos os sentimentos que canta – o desejo de alienação, a misantropia e a culpa que lhe vem associada, a complexidade das relações, o difícil que é o amor. “I’m sick of being dumb / sick of being numb”, grita ela em “I want to grow up”; “From an early age / TV is my friend / And it has been always there for me / In my time of need”, confessa sem pudor, com humor, em TV; “And I’m wondering if I’m even the marrying kind / How can I give you my life / When I know you’re just gonna die?”, pergunta na dorida Deeper than love.

Colleen Green, 33 anos, nascida em Los Angeles, será o centro da noite (concerto às 21h, bilhetes a 5€). “Ela captura muito questões de vulnerabilidade, criando música na primeira pessoa em que aborda muito, em várias direcções, as questões afectivas e os relacionamentos”, descreve Rodrigo Araújo, fundador da Maternidade e rosto de Vaiapraia & As Rainhas do Baile (convidado de Luís Severo no supracitado concerto que este dará no Musicbox). I Want to Grow Up, sucessor de Miles Go To Compton (2012) e Sock It To Me (2013), gravado com Jake Orrall (JEFF The Brotherhood) e Casey Weissbuch (Diarrhea Planet) em Nashville, é o álbum em que Green usa de forma mais consistente a superfície lúdica das canções, “jovem e bubblegum”, nas palavras de Rodrigo, como veículo para abordar a sua complexidade humana.

Colleen Green será o prato forte da noite, repetimos, mas haverá mais: “um jantar com menu especial”, servido às 18h, seguido de “um karaoke em que as pessoas serão convidadas a cantar canções de amor”, ou seja, “a fazer aquilo a que se chama figuras tristes”, explica Rodrigo – a interpretação de karaoke mais sentida, é esse o critério de avaliação, receberá um “cabaz criado pelos artistas do catálogo da editora Maternidade” e a devolução do preço do bilhete. É todo um outro dia dos namorados. “É uma data em que há uma certa pressão para se viver uma relação convencional, em que há pressão sobre quem está solteiro ou ‘encalhado”, defende Rodrigo. “Nós vamos aproveitar este contexto para nos divertirmos questionando a relevância destes estados afectivos, porque há mais coisas. Como é que lidamos com toda uma panóplia de estados, o da total disponibilidade, a fobia ao compromisso, o it’s complicated das redes sociais, o poliamor?”. Entre um karaoke “democrático” – “funciona a partir da base de karaoke que existe no YouTube, está lá tudo e até dá para treinar em casa” – e aquilo que Colleen Green nos mostrará em voz, guitarra e caixa-de-ritmos, a Maternidade contribui para a discussão.

Luís Severo, voltemos a ele, homem que nunca celebrou a data, que nunca comprou uma prenda no dia dos Namorados, também não está interessado em “fingir que este dia é só para falar de coisas boas”: “Se o que estamos a celebrar neste dia é o amor entre as pessoas, não podemos só falar do que é fácil”. Curiosamente, os convidados, a julgar pelas canções que escolheram para interpretar com Severo, são da mesma opinião. “Pegaram nas mais pesadas, houve essa coincidência. Quem for ao concerto [a lotação já está esgotada] pode ser exposto a algum desconforto, mas as pessoas conhecem a minha música e sabem que não tenho canções exclusivamente positivas”.

Há várias matizes nas canções de Luís Severo e é isso que o concerto explorará. Sendo um concerto de dia dos Namorados, a ideia de duetos foi imediata. “Mas depois entra a banda e já não é a dois, o que é bom porque também fica incluído o poliamor. E também tocarei a solo, assim quem estiver sozinho também se sentirá incluído”, sorri. Toda uma outra banda-sonora, todo um outro Dia dos Namorados.

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