A dança quer estar mais tempo em cena e este festival vai tratar disso

Na sua segunda edição em pleno, o Cumplicidades, com programação de Abraham Furtado e Tânia Carvalho, convida 12 artistas a apresentarem-se durante sete dias noutras tantas salas lisboetas. Antes disso, haverá cem aulas de danças abertas ao público.

Foto
Heteroptera, de Aurora Pinho, estará no Negócio ZDB JOSÉ CALDEIRA

A meio da sua intervenção na apresentação do Cumplicidades 2018, terceira edição (se contarmos com a “edição zero” em 2015, ainda sem a componente internacional) do festival de dança contemporânea que habita Lisboa entre 10 a 16 de Março, Francisco Camacho pega num postal com a imagem deste ano para exemplificar a forma como, a cada nova aparição, o Cumplicidades tenta ser um festival diferente. Há “um olhar renovado a cada edição”, potenciado graças à estratégia assumida de convidar sempre diferentes programadores que vão “repensando o festival e diversificando os olhares sobre o que está a acontecer” de palpitante, explica o director da EIRA, estrutura que arriscou pôr de pé este evento “no auge da crise”. Na altura, diz, tratou-se de “um acto de resistência e militância”. A postura, de certa forma, mantém-se.

Para o Cumplicidades 2018, a EIRA convidou o espanhol Abraham Hurtado para assegurar a programação internacional, enquanto a selecção de artistas portugueses ficou a cargo de Tânia Carvalho. E muito em linha com a sua predisposição matemática para trabalhar a dança, a coreógrafa – que actualmente apresenta um extenso ciclo dedicado à sua obra em três salas de Lisboa – propôs um programa desenhado a partir do número sete. Sete criadores nacionais apresentarão as suas peças (estreias absolutas ou criações inéditas em Lisboa) em sete salas distintas em todos os sete dias do festival: Aurora Pinho no Negócio ZDB, Vitalina Sousa no Teatro da Trindade, Bruno Senune na Biblioteca de Marvila, Inês Campos no Espaço Alkantara, Flora Detraz no CAL – Primeiros Sintomas, Ballet Contemporâneo do Norte no Teatro Ibérico e Vasco Diogo na Rua das Gaivotas6.

A proposta de Tânia Carvalho caiu especialmente bem junto do Cumplicidades, sobretudo devido à tal militância que esteve na génese do festival. Ora se desde a edição zero que é apregoada a missão de conquistar novos públicos para a dança e conseguir visibilidade para artistas mais arredados das grandes salas, torna-se uma atitude “política” esta de estender as carreiras dos espectáculos no âmbito de um festival. “A dança quer estar mais tempo em cena; a dança quer ter a possibilidade de ser vista”, sentencia Francisco Camacho.

Uma criação negociada 

Abraham Hurtado quis também fugir ao modelo clássico do programador que escolhe peças em circulação ou que encomenda novas criações. Em vez disso, e pegando na deixa lançada por Tânia Carvalho, preferiu centrar toda a sua atenção num só espectáculo, a apresentar sucessivamente nas mesmas sete salas já referidas. A diferença de fundo, no entanto, encontra-se no modelo seguido para chegar a este espectáculo: a partir de uma open call, à qual responderam 200 artistas, seleccionaram-se 25. Foi esse grupo reduzido que apresentou propostas para uma criação que depois os próprios votaram. Os cinco que reuniram maior consenso, Gizem Aksu (Turquia), Myrto Charalampous (Grécia), Shira Eviatar (Israel), Matías Daporta (Espanha) e Oriana Haddad (Egipto/Itália), encontram-se neste momento a montar a peça (O Território dos Corpos) que irá emergir da negociação entre as diferentes ideias.

O foco neste caso foi, desde logo, dirigido para a zona do Mediterrâneo, procurando potenciar sintonias e fricções políticas e sociais, fez saber Hurtado, dando resposta a outra das preocupações do Cumplicidades desde o primeiro momento: “permitir um olhar sobre o outro mais desprovido de preconceitos” – assim o enunciou Francisco Camacho. Outro dos atractivos de O Território dos Corpos será perceber a adaptação de uma mesma peça a vários espaços e observar a sua qualidade mutante.

Para lá dos espectáculos, este ano o Cumplicidades inaugura um programa paralelo, de 3 a 10 de Março, com cem aulas abertas (da dança clássica e contemporânea às mais variadas danças tradicionais ao lindy-hop ou às danças de salão) distribuídas por 15 freguesias lisboetas, por forma a levar a dança até onde ela é menos frequente ou visível. No sentido contrário, o também inaugural projecto educativo do festival tentará facilitar o acesso da comunidade estudantil aos espectáculos através de uma abordagem directa a escolas do ensino secundário, universidades e escolas do ensino artístico.

Tudo para que, como diz o director da EIRA, a dança tenha mais possibilidades de ser vista em Lisboa.