Crítica

Super-África

Os interesses da afirmação política, do statement, contra os interesses da grande e amoral máquina industrial: match nulo, ou quase.

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Tem algumas cenas onde a “acção” colhe os seus fundamentos plásticos em motivos, visuais e sonoros extraidos a uma mitologia “pop” africana
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Em termos políticos faz todo o sentido e toda a pertinência, para mais tendo em conta o carácter cada vez menos subterrâneo da interminável guerra civil americana, que finalmente chegue a hora de ver uma personagem negra (ou um conjunto de personagens negras) como centro de mais um filme embrenhado no universo dos super-heróis (da Marvel, neste caso), e com tão fortes conotações históricas no activismo dos negros americanos (o Black Panther apareceu nos comics em 1966, no mesmo ano em que se formaram os Black Panthers, que nele terão colhido inspiração para a sua designação). Evidentemente não se esperava que a parelha Marvel/Disney estivesse a financiar uma peça subversiva de 200 milhões de dólares, mas o nome de Ryan Coogler, que dirige e co-escreve o argumento (fazendo de Black Panther, e tanto quanto o corporate filmmaking o permite, um projecto de "autor"), deixava alguma curiosidade: é um realizador sincero, empenhado e, como o mostrou o belo Creed, não desprovido de talento.

De alguma maneira esse parece ser o conflito "surdo" de Black Panther: os interesses da afirmação política, do statement, contra os interesses da grande e amoral máquina industrial. Dá "match nulo", ou quase. É verdade que o filme permite algumas articulações políticas, tão discretas que nos perguntamos se nalguns casos serão completamente conscientes. Wakanda, o reino africano de onde é originário o Black Panther, parece mimar alguns históricos "cancros" da política africana, do nepotismo sentado em cima de fabulosos recursos naturais (o vibranium, fundamental na intriga) aos irresolúveis conflitos tribais; uma cena num museu londrino, logo no início, lança a questão do colonialismo predador; e, no fim de contas, a propensão de Wakanda para o isolacionismo absoluto ecoa um velho fantasma americano muito saliente nos dias que correm, sendo que essa, a divisão entre isolacionistas e proponentes de uma abertura solidária às relações internacionais, é a grande questão de "política interna" que cruza o filme.

É verdade que isto está lá, mas é pouco como agit prop. Os 200 milhões de dólares, a lógica e os trâmites da grande produção de super-heróis impõem-se, e Black Panther, em natureza, está mais próximo de qualquer Super-Homem ou Capitão América do que da ferocidade do melhor Spike Lee ou da rebeldia dos classicos do blaxploitation. Se nos parece, ainda assim, ligeiramente mais fresco e mais imaginativo do que a norma do filme de super-heróis, isso acontece por duas ou três razões que passamos a enunciar: tem humor, muito mais humor do que a solenidade grandiloquente típtica do género habitualmente permite; tem algumas cenas onde a "acção" colhe os seus fundamentos plásticos em motivos, visuais e sonoros (as cores, as músicas), extraidos a uma mitologia "pop" africana, e isso, para além de original, é feito com uma certa graça; tem um óptimo elenco, e é capaz de aproveitar bem o vasto leque de secundários (de Angela Bassett, sempre um prazer revê-la, a Forest Whitaker, passando pelo vilão de Andy Serkis), todos com direito a personagens "carnudas". Depois não evita as "partes gagas" do costume, o excesso de complicação narrativa que demora um tempo escusado a resolver, a banalidade das sequências que dependem quase exclusivamente dos efeitos especiais, a relativa indiferença com que, no geral, tudo é encenado (falando de Coogler: nada de comparável àquele combate de boxe em plano-sequência que ele filmou em "Creed"). Mas, enfim, temos a sensação de sair da projecção um pouco mais compensados do que o é que costume.

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