Crítica

Clint Eastwood: às armas, às armas

É o making of de três “heróis”, o momento em que começaram a brincar com as armas e a ajoelharem-se perante Deus.

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Spencer, Anthony e Alek parecem ausentes de si próprios no reenactment, alienando a verdade dos seus corpos
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Aquele plano dos kids with guns, turbulência adolescente à procura de foco, apaga sem pedir licença — não pede licença ao Elephant, de Gus van Sant, por exemplo (e, já agora, é surdo perante o And they turn into monsters/Turning us into fire/Turning us into monsters/It’s all desire/It’s all desire/It’s all desire de Kids with guns, canção dos Gorillaz). Trabalha uma ideologia a partir da folha em branco. É a sua determinação, é a sua insolência — mas também é alguma indecência  – afirmar-se através da rasura: apaga como se tivesse o patrocínio da National Rifle Association e do proselitismo cristão.

Estamos no flashback de 15:17 Destino Paris, estamos na agitação de três miúdos, de nome Anthony Sadler, Alek Skarlatos e Spencer Stone, adolescentes hiperactivos a quem a escola diagnosticou desordem comportamental, défice de atenção, e por isso recomenda medicamentos, e a quem trata como estatística. Os números dizem que filhos de mães solteiras “tendem” a ter problemas. É nesta parte que uma das mães riposta de forma muito eastwoodiana: “My God is bigger than your statistics” — é a raiva e frustração dos deixados por conta que, confere, são as pessoas do cinema de Clint.

Mas depois...

Não nos enganemos: estamos no making of de “heróis”, o momento em que começaram a brincar com as armas e a ajoelharem-se perante Deus. Os meninos que brincam com armas e são crentes estão destinados a missões. Numa varanda sobre Veneza, aqueles que eram adolescentes e agora são adultos escutam o apelo. Uns dias depois, a 21 de Agosto de 2015, no comboio Amesterdão-Paris, 554 passageiros a bordo, três americanos impedem o marroquino Ayoub El Kahzzani, armado de Kalashnikov, pistola e estilete, de cumprir um massacre que planeara.

Podemos pensar como é que Eastwood se sairia com um filme sobre Ayoub El Kahzzani — porque ele também se terá ajoelhado perante o Profeta e ouvido um apelo. O espectador pode ser sobressaltado por esse pensamento. Mas 15:17 Destino Paris não se inquieta com “ses”, não pensa em Ayoub El Kahzzani, que é mero catalisador do heroísmo americano. Aliás, como acontecia em Sniper Americano (2015), em que Eastwood escolhia a vertente hagiográfica de uma história — a de Chris Kyle, o mais certeiro sniper do Exército americano —, deixando para uma adenda informativa no final aquilo que teria carregado tudo com outra ambiguidade, contradição e escuridão (se contasse também a história de Eddie Ray Routh, o veterano que estava a ser tratado por stress pós-treumático quando baleou e matou Chris). 15:17 Destino Paris confirma a rasura a que os últimos filmes do cineasta procedem para, em tempos de dúvida, irem directos à restauração do heroísmo. Como se, depois de ter estado no vórtice da contradição, da complexificação, o heroísmo fosse agora aventura indolor e neutra para personagens e espectadores (talvez que o grande medo do cinema americano actual seja o desconforto — mas é estranho ver Eastwood tocado pela infantilização que ocupou o ritual cinematográfico mainstream).

Do Eastwood pós-Grand Torino (2008) ausentaram-se a densidade pastosa e o peito aberto à contradição. Já filmou a viagem pelo heroísmo como sangria — praticamente todos os seus filmes, alguns deles obras-primas (Imperdoável, em 1992, por exemplo). Há um, Flags of our Fathers (2006), que parece ser mais directamente o negativo de 15:17 Destino Paris. À via crucis dos heróis da batalha de Iwo Jima, os homens que apareceram na icónica fotografia do hastear da bandeira e que o filme segue na sua agonia, 15:17 Destino Paris contrapõe qualquer coisa que extravasa para o campo do reality-show celebratório, turístico e propagandístico a propaganda do heroísmo, pelo menos. Ao preparar o filme, que adaptava o livro autobiográfico The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Soldiers, Eastwood decidiu oferecer as personagens aos “verdadeiros heróis” — Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos são “interpretados”, em adultos, por Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos. É uma decisão que, não sendo inédita (vários se lembraram já de Audie Murphy — 1925-1971 —, medalhado na II Guerra, que em 1955 fez dele próprio num filme sobre o seu heroísmo, To Hell and Back, de Jesse Hibbs, adaptação das suas memórias), tem uma componente de statement (e de risco, vamos ser justos): como se, depois de Bradley Cooper (Sniper Americano) e Tom Hanks (Sully) Eastwood quisesse chegar mais perto do rosto de uma verdade. Mas é aí — mais do que no facto de enganar expectativas ao resumir o ataque a um mero instante para se dedicar à explanação de um ideário — que 15:17 Destino Paris é, no mínimo, desconcertante. O que é que Clint viu na rigidez destas presenças? Spencer, Anthony e Alek parecem ausentes de si próprios no reenactment, alienando a verdade dos seus corpos — rasurando a violência e o desejo — e do que os une como amigos em demonstrativos diálogos e selfies de viagem. Como nas promoções turísticas, vendem uma história. Como nas promoções turísticas, a individualidade dos espaços também é apagada.

Agora que a América de Eastwood se vem fixando em “images d’Épinal”, sem classes, sem frustração, sem desejo ou violência, quer-se um novo Dirty Harry. E que venha a fealdade, a brutalidade, violência. A patinadora redneck de Eu, Tonya?

P24 O seu Público em -- -- minutos

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