A ambição de esclarecer todos os mistérios desde o princípio até ao fim da vida

O Instituto Gulbenkian de Ciência tem 269 investigadores dedicados sobretudo a estudar o nosso organismo e a forma com interage com o ambiente. A cientista Mónica Bettencourt-Dias é a directora deste instituto, desde Novembro.

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O IGC conta hoje com 269 investigadores, 32% dos quais estrangeiros e, nos últimos cinco anos, publicou mais de 700 artigos em revistas científicas

O Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, foi fundado em Julho de 1961 e, na verdade, continua a fazer exactamente a mesma coisa que fazia no princípio: procurar respostas que chegam sempre cheias de novas perguntas. Sobretudo na área da biologia e biomedicina. Porém, muita coisa mudou nestes anos. O IGC ganhou autonomia, actualmente tem 269 investigadores (32% são estrangeiros de 30 países diferentes) e, nos últimos cinco anos, publicou mais de 700 artigos em revistas científicas. Usa um orçamento de cerca de 16 milhões de euros anuais (mais de seis milhões de euros são financiamento directo da Fundação Calouste Gulbenkian) para descobrir algo novo todos os dias.

Mónica Bettencourt-Dias foi nomeada directora do IGC em Novembro e, confessa, ainda está a discutir os planos para o futuro do instituto que pela primeira vez é dirigido por uma mulher. “Em 2018-2022, o IGC ambiciona tornar-se uma das instituições de investigação mais conceituadas a nível mundial, baseando-se na sua experiência, visibilidade nacional e internacional, consolidação actual das ciências biomédicas em Portugal e proximidade com as actividades promovidas pela Fundação Calouste Gulbenkian”, adianta apenas um documento que enviou ao PÚBLICO com algumas notas sobre a história e missão do IGC.

Mas, apesar da nova direcção, não se espera uma revolução que afaste o IGC de outra coisa que não seja um lugar de fazer ciência. A grande mudança ocorreu em 1998 quando, sob a direcção do imunologista António Coutinho, o IGC passou por uma reforma profunda e transformou-se numa instituição de acolhimento para novos grupos de investigação.

Ano após ano, o instituto afirmou-se como um dos mais importantes lugares de ciência em Portugal. Nos últimos cinco anos, celebrou mais de uma centena de contratos de financiamentos nacionais e internacionais num total de 22 milhões de euros. No mesmo período, somam-se os prémios atribuídos aos seus investigadores com bolsas milionárias e reconhecidas internacionalmente, desde a Fundação Bill e Melinda Gates às nove bolsas garantidas pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC, na sigla em inglês).

A lista de descobertas com a marca IGC é longa e muitas foram notícia. Descomplicando o olhar para esta instituição, existem aqui duas perguntas essenciais: uma sobre como se forma e funciona o nosso organismo e a outra centrada em como o organismo interage com o ambiente. A partir destas questões, abre-se um mundo com implicações para áreas que vão desde o envelhecimento à fertilidade, passando pelas doenças infecciosas, a obesidade, o cancro e muito, muito mais.

É impossível resumir quase 60 anos de descobertas, de pequenos e grandes passos no caminho do conhecimento, desde a ciência básica à que conseguimos aplicar na prática com vantagens para a nossa qualidade de vida. Eles, os investigadores do IGC, já desvendaram a diversidade escondida das bactérias do intestino sugerindo formas para recuperar após tratamentos com antibióticos, também encontraram um novo tipo de neurónios que podem vir a servir como alvo para fármacos contra a obesidade ou (só mais um exemplo) descobriram que os seres humanos produzem naturalmente anticorpos contra uma molécula que existe nos mosquitos que transmitem a malária. Num nível mais próximo de uma aplicação prática, também há o exemplo de um ensaio clínico iniciado no IGC para o tratamento da sépsis que envolve cinco instituições hospitalares alemãs para testar um grupo de fármacos. Exemplos de um esforço de quem quer mudar as nossas vidas para melhor.

Uma das principais marcas do IGC é também a formação das gerações mais novas. Nos últimos cinco anos, dos 61 estudantes que acabaram o seu doutoramento no IGC, 88% continuam a fazer investigação, lembra Mónica Bettencourt-Dias. Os números fornecidos pela instituição garantem que mais de 400 estudantes fizeram aqui o seu doutoramento e que, “daqueles que acabaram há mais de 15 anos, mais de 60% são agora chefes de laboratório”.

Sublinha ainda que o instituto “já incubou mais de 88 equipas de investigação, das quais 53 estão agora noutras Instituições portuguesas ou estrangeiras, espalhando e fortalecendo a visão do IGC e a sua liderança científica”. Lembrando que no passado domingo se celebrou o Dia Internacional das Mulheres na Ciência, Mónica Bettencourt-Dias assinala também que, actualmente, 41% dos chefes de laboratório no IGC são mulheres. Um sinal de uma conquista de sucesso que, ressalva, também se verifica noutros institutos de investigação em Portugal.

“O IGC é uma instituição verdadeiramente única”, defendia Jonathan Howard, o director do IGC desde 2012 até final do ano passado, numa entrevista ao PÚBLICO pouco tempo depois de tomar posse. No IGC, argumentava, tinha encontrado um instituto “vivo, interactivo, intensamente corporativo, baseado em recursos partilhados, e um local onde jovens cientistas assumem a responsabilidade total pela sua investigação, num ambiente colegial e de ajuda”. Longe do pragmatismo e rigor que está no ADN dos investigadores, o biólogo admitia que se sentia “tocado pela magia” do lugar.

Agora, é a vez de Mónica Bettencourt-Dias dirigir este lugar. Apesar de não querer revelar detalhes sobre os planos que tem para o IGC, a nova directora do IGC não esconde algumas das suas convicções. “Muitas das descobertas saem da intersecção de diferentes perspectivas da realidade. Gostamos muito de ter grupos que trazem novas perspectivas e que fazem coisas diferentes mas promovemos um trabalho em conjunto”, diz.

Por outro lado, sobre o acelerado ritmo das descobertas empurradas por novas tecnologias que ajudam os cientistas a chegar cada vez mais longe e mais rápido, a cientista constata: “É uma altura excelente para trabalhar nesta área. Todos os dias há descobertas novas que mudam a maneira como olhamos para nós e que mudam a maneira como fazemos ciência. É uma revolução e isso é fantástico.”

E fica ainda um aviso que quase pode ser lido como uma linha programática: “Temos de estar mais abertos a colaborações para conseguirmos juntos ter os recursos tecnológicos de que precisamos e ter a massa crítica que nos permite ter várias perspectivas. É importante juntar esforços também a nível nacional. Temos uma massa crítica excelente em Portugal na área da biologia e biomedicina e acho que há muita vontade em trabalhamos juntos para aproveitarmos o melhor de cada uma das instituições.” É altura de reforçar os laços entre as instituições nacionais que trabalham nas mesmas áreas? “Sem dúvida. Para mim é uma das coisas mais importantes a fazer.”