Secretário-geral da NATO defende missão de treino no Iraque sugerida pelos EUA

Ministros da Defesa da Aliança Atlântica devem aprovar também dois novos comandos, um dos quais para o Atlântico.

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“Não podemos deixar o Iraque agora”, justificou o secretário-geral da NATO Francois Lenoir/REUTERS

Os ministros da Defesa dos países da NATO deverão aprovar, já esta quarta-feira em Bruxelas, o projecto para o envio de uma missão de treino militar para o Iraque que possa contribuir para a estabilização da situação de segurança e apoiar os esforços de reconstrução do país após a derrota e expulsão das forças do Daesh, no fim do ano passado.

“Não podemos deixar o Iraque agora”, justificou o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, que vincou que depois de ganhar a guerra contra os jihadistas, que chegaram a ocupar um terço do território, também “é preciso ganhar a paz”.

Numa conferência de antevisão da ronda ministerial de quarta e quinta-feiras, o secretário-geral da NATO manifestou a sua convicção de que, apesar das divisões e receios de alguns dos parceiros europeus relativamente ao envolvimento da aliança numa nova operação militar no Médio Oriente, os ministros deverão dar luz verde ao projecto— que poderá ser lançado oficialmente na próxima cimeira de Julho.

A “sugestão” partiu do secretário norte-americano da Defesa, Jim Mattis, que no início deste ano solicitou formalmente que a NATO considerasse a possibilidade de enviar uma missão de aconselhamento e treino das forças nacionais iraquianas, que nos últimos três anos combateram os militantes do Daesh na região.

O “pedido” dos Estados Unidos foi também subscrito pelo primeiro-ministro do Iraque, Haider al-Abadi, que tem um encontro marcado com Stoltenberg esta semana, à margem da Conferência de Segurança de Munique. Mas terá de ser o Governo iraquiano a convidar os instrutores da NATO a entrar no país — o que dependerá do resultado das eleições legislativas marcadas para o próximo dia 12 de Maio.

Segundo avançou o secretário-geral, a missão que a Aliança Atlântica está a preparar para o Iraque, e que passa sobretudo pelo “desenvolvimento das capacidades locais”, deverá ser semelhante àquela que já está em curso no Afeganistão desde Novembro de 2009 — Stoltenberg lembrou que vários aliados reforçaram os seus meios nessa missão, que deverá crescer de 13 mil homens para cerca de 16 mil este ano.

Ao contrário do que aconteceu no Afeganistão, a NATO não participou directamente nas operações de combate no Iraque, onde a iniciativa militar foi assumida por uma coligação liderada pelos Estados Unidos. No entanto, a aliança integra a coligação anti-terrorismo que luta pela erradicação do auto-proclamado Estado Islâmico.

Stoltenberg não falou em números, mas disse que a missão da NATO trabalhará em coordenação com as forças da coligação internacional e da União Europeia no terreno, por exemplo nos aspectos técnicos de desenvolvimento de doutrinas e políticas de defesa em academias militares. Outras vertentes que a missão poderá assumir dizem respeito à formação de pessoal médico, ou de especialistas que possam desactivar material explosivo.

Novos comandos

No mesmo encontro, os ministros da Defesa devem também dar o seu aval ao projecto de modernização e adaptação da estrutura de comando da NATO, pensado para garantir que a aliança tem a flexibilidade necessária para responder aos novos desafios e ameaças que contribuíram para “uma mudança dramática” do ambiente de segurança — da nova postura agressiva e expansionista da Rússia, à guerra híbrida e cibersegurança.

O plano prevê o estabelecimento de dois novos comandos conjuntos, cujas localizações só serão discutidas nos próximos meses. Um abrangerá o Centro da Europa, e será responsável pela movimentação de tropas em território europeu, isto é, pela gestão logística, mobilidade e reforço das forças da aliança na fronteira Leste.

O outro é um novo comando marítimo para o Atlântico, que terá como missão assegurar a protecção das linhas de comunicação do Atlântico. Tendo em conta que, em tempos de crise, esse comando conjunto terá à sua ordem a poderosa Segunda Esquadra dos EUA, o mais provável é que seja integrado na base naval de Norfolk. Mas por causa da sua situação geográfica, Portugal poderia — pelo menos teoricamente — aspirar a acolher a nova estrutura.

De resto, a NATO prevê criar um novo centro de operações ciber, e também novas estruturas específicas para enfrentar os desafios da guerra híbrida.