Editorial

O comboio de baixa velocidade

O TGV não se tornou um tema tabu - tornou-se uma assombração. Para duplo azar nosso, não foi só o TGV que parou em Portugal, foi quase todo o investimento nas nossas ferrovias.

“O TGV é um tema tabu na política portuguesa e assim o será por muito tempo”, explicou brevemente ao jornal espanhol ABC o primeiro-ministro português. António Costa omitiu o “porquê” - e ainda bem, porque nos envergonharia. Mas quis descansar os “nossos irmãos” além fronteira, garantindo que os dois países vão “reforçar a interconexões bilaterais” e que, para isso, está a assegurar que haverá “um tempo de tranquilidade”, de consenso político, sobre os próximos investimentos em infra-estruturas no nosso país.

Para azar nosso, o TGV não se tornou um tema tabu - tornou-se uma assombração. Para duplo azar nosso, não foi só o TGV que parou em Portugal, foi quase todo o investimento nas nossas ferrovias. 

É o que hoje nos explica o Carlos Cipriano: há dois anos, o ministro Pedro Marques anunciou o ambicioso “Plano de Investimentos em Infra-estruturas Ferrovia 2020”, que previa o lançamento de obras em 1193 quilómetros de linhas férreas (entre modernização das actuais e construção de novas). Nesta altura, o plano devia ter já obras em 528 quilómetros. Quer adivinhar quantos arrancaram? 79.

Não é caso único, porque em Portugal, comboios, só mesmo a baixa velocidade. Em 1988 o governo de Cavaco Silva apresentou o seu plano, que passava por encerrar linhas e modernizar outras - modernização quase não houve, mas as linhas foram encerradas. Depois vieram Guterres e Barroso, com o TGV. E com ele a rede convencional passou para segundo plano - em particular a linha do Norte, que está a ser modernizada desde… 1999 (e pelos vistos 19 anos não foi tempo suficiente para o concluir).

O mais triste é que, se faltam as obras, nunca faltaram os anúncios. E o ridículo com eles. Como foi o caso da promessa de Pedro Marques, em Março de 2017, de que as obras em Elvas começariam no final do ano - quando neste momento nem há estaleiro no local. Ou da cerimónia do mesmo ministro na Guarda, em Novembro passado, para assinar a adjudicação das obras que conduzirão à reabertura da linha entre aquela cidade e a Covilhã em Março de 2019, quando o seu plano de há dois anos apontava para o final de 2018.

Sim, como dizia António Costa ao ABC, Portugal precisa de “um tempo de tranquilidade”, “afastando do debate partidário todos estes temas” do investimento em intra-estruturas. O problema é que, na verdade, consenso já há: PS e PSD têm convergido nas últimas décadas em anunciar planos - e em deixá-los depois na gaveta. Talvez fosse boa política concordar em, por uma vez, pô-los no terreno.