Opinião

Ainda se grita golo na rádio

O Dia da Rádio pretende demonstrar que este meio de comunicação ainda está bem vivo e presente no quotidiano de boa parte dos indivíduos, mesmo na era do Facebook, do Instagram ou do Snapchat.

A fase da desconfiança em relação à sobrevivência da rádio nos tempos da Internet parece ultrapassada. Pelo menos acredita-se que sim. Já não são tão frequentes os discursos derrotistas que condenavam a rádio a uma morte prematura.

Para isso muito têm contribuído alguns números que, se não explicam tudo, têm pelo menos a virtude de organizar o pensamento e ajudar a colocar as coisas no seu devido lugar. E, efetivamente, a rádio não sendo o meio de comunicação com mais audiências (longe disso) também não está moribunda. Pelo contrário, tem encontrado novos modos de se valorizar e, pasme-se, entrar por caminhos inovadores.

O relatório State of the News Media elaborado pelo Pew Research Center referente a 2016, deixa bem claro que a rádio em FM e AM continua estável em termos de audiências ao mesmo tempo que está a ganhar terreno no campo do online. Se esta é a realidade norte-americana, por cá as coisas não são muito diferentes. De acordo com o relatório de regulação da Entidade Reguladora para a Comunicação, em 2016 os 55% de residentes em Portugal que ouviram rádio fizeram-no em média durante mais dois minutos do que no ano anterior, situando-se nas três horas e 13 minutos por dia. Ou seja, ainda que a subida seja ligeira, a rádio continua a ter ouvintes no seu modo tradicional, a par da crescente escuta online.

O Dia da Rádio que se assinala a 13 de fevereiro, instituído pela Unesco, pretende demonstrar que este meio de comunicação ainda está bem vivo e presente no quotidiano de boa parte dos indivíduos, mesmo na era do Facebook, do Instagram ou do Snapchat.

Este ano, o Dia Mundial da Rádio é dedicado ao desporto, justamente uma das áreas que celebrizou este meio de comunicação e elevou as suas capacidades comunicativas. Para um jovem de 20 anos do século XXI poderá parecer estranho imaginar que em tempos os jogos de futebol aconteciam todos (ou quase todos) na tarde de domingo. E que havia gente a percorrer as ruas munidos de pequenos transístores na mão. Aquilo gerava um cenário sonoro difícil de explicar e que se caracterizava pela sobreposição de relatos, de golos, de vozes. Mas era mais do que isso.

O relato de um jogo de futebol era a rádio a expressar-se com todas as suas potencialidades. A ubiquidade, através da vertiginosa volta pelo país, relvado a relvado. De estádio em estádio. “Tempo e jogo?”, interpelava-se a partir do estúdio. E que melhores imagens mentais se podem fazer sentir senão através da descrição do jogo na voz do Fernando Correia ou do saudoso Jorge Perestrelo? Mas onde o relato da bola era (e é) insubstituível é na emoção que transmite. O remate que “quase foi”, a defesa inacreditável, a “revienga” de trocar os olhos ou o pontapé nas “orelhas da bola”.

A rádio de hoje não abandonou o desporto, mas há que reconhecer que os tempos são outros. As escolhas são geridas em função dos recursos e esses, sabe-se, não abundam na rádio. O relato já não percorre o país. É seletivo. Os três grandes e pouco mais. O futebol, hoje tal como antes, é a modalidade que domina. Mas, mesmo assim, a rádio soube estar na era da Internet. Em 2016, Portugal foi campeão europeu de futebol e o som do relato conjunto da Antena 1 tornou-se viral na Internet. Uma espécie de símbolo sonoro da emoção que varreu o país desportivo com a vitória portuguesa. E o que dizer das webrádios desportivas que vão nascendo aqui e ali ajudando os ouvintes (particularmente os emigrantes) a estar perto do seu clube da Terra, aquele que as emissoras nacionais (e muitas locais) ignoram?

Já não há transístores a passear pelas ruas, mas na rádio, numa nova rádio, ainda se grita golo!