Tem havido mais sismos em Portugal?

Em Janeiro, perto de Arraiolos, houve um sismo já com alguma magnitude e têm-se seguido réplicas. A partir da madrugada desta segunda-feira também começaram a registar-se centenas de pequenos sismos nos Açores.

Angra do Heroísmo após o sismo de 1980 de 7,2 graus de magnitude
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Angra do Heroísmo após o sismo de 1980 de 7,2 graus de magnitude Mário Silva

É uma das perguntas dos últimos tempos: estaremos a ter mais sismos em Portugal? De facto, neste momento estamos a viver um período de maior actividade sísmica na zona a norte de Arraiolos desde meados de Janeiro, assim como nos Açores, dizem os geofísicos. Mas isso é normal, adiantam ainda. Já noutros períodos se assistiu a movimentos semelhantes da Terra nestas zonas.

Comecemos por Arraiolos, ou mais precisamente a norte de Arraiolos. Um sismo entre a magnitude 4,6 e 4,9 graus na escala de Richter foi sentido em várias zonas do país a 15 de Janeiro. O epicentro foi registado a cerca de seis quilómetros de Arraiolos, perto da localidade de Aldeia da Serra. Depois deste primeiro sismo, têm sido registados outros mais pequenos, incluindo um na madrugada desta última segunda-feira.

Saindo de Arraiolos e alargando o olhar para uma região desde os Açores até Gibraltar, estamos numa zona de fractura entre a placa africana e a placa euroasiática. “Estamos numa zona de confronto entre duas placas continentais. E esse confronto vai originar sismos no Sul de Portugal [como na zona de Arraiolos ou de Lisboa]”, explica Mourad Bezzeghoud, geofísico no Instituto de Ciências da Terra da Universidade de Évora.

Por isso, não é de estranhar uma crise sísmica perto de Arraiolos, em que houve um sismo principal mais forte e réplicas durante um certo período de tempo (ainda a decorrer). “Na zona de Arraiolos houve crises sísmicas várias vezes com esta assinatura [características]”, diz por sua vez Bento Caldeira, também geofísico do Instituto de Ciências da Terra da Universidade de Évora, acrescentando que já houve algumas crises destas desde o início do século XXI. “Esta crise começou com um sismo de magnitude de 4,9, que é o mais elevado desde o período da sismologia instrumental [na zona], no princípio do século XX [quando começaram a usar-se sismómetros].”

Mourad Bezzeghoud salienta que esta actividade sísmica vai ajudar os geofísicos a identificar a falha geológica na zona – que deslizará de forma horizontal na crosta terrestre e, através desse movimento, origina pequenas rupturas e sismos. “Já temos uma ideia, mas não temos certezas”, remata Mourad Bezzeghoud.

A Terra também tem estado movimentada na ilha de São Miguel, nos Açores. Desde a madrugada de segunda-feira que têm sido registados centenas de sismos de magnitude reduzida. “Parece ser uma crise vulcânica”, aponta Mourad Bezzeghoud. E Bento Caldeira acrescenta que se trata de um “enxame” de sismos, em que ocorrem muitos tremores de magnitude 1 ou inferiores. Os Açores são uma zona muito sísmica e vulcânica. Afinal, aqui ocorre a junção entre a placa americana, a euroasiática e a africana. E ainda há perto dos Açores a Dorsal Médio-Atlântica, uma cordilheira no meio do Atlântico que é fronteira de placas tectónicas.

“É normal”, diz Mourad Bezzeghoud sobre estas dinâmicas. “A energia está a ser libertada”, frisa, acrescentando que é melhor existirem 300 sismos pequenos do que um grande. O geofísico refere ainda que tanto a população dos Açores como a da Aldeia da Serra já está habituada a estes movimentos da Terra. Além disso, estima-se que em Portugal continental haja por ano cerca de 15 sismos com magnitude superior a 2,5 graus.

E por que há quem tenha a impressão de que tem havido mais sismos? Será devido ao crescente número de notícias sobre os sismos? “Provavelmente”, responde Bento Caldeira. “E as pessoas nestas situações ficam mais atentas. Depois vão ao site do Instituto Português do Mar e da Atmosfera e vêem que há sismos, mas noutros períodos também tem havido.” Já Mourad Bezzeghoud refere que é uma “percepção”: “A actividade [sísmica] nunca pára. E os media vão amplificando o fenómeno, o que tem um lado bom, porque informam, e um lado mau, porque assustam.”

Os dois geofísicos destacam que agora temos uma rede sísmica (instrumentos que registam os sismos) muito mais densa do que há uns anos. “Antigamente, mesmo se existissem redes sociais, nos anos 40 ou 60, não havia estes efeitos porque nem todos os sismos eram registados. Agora, até os sismos mais baixos o são.”

Resumindo, não temos então motivo para entrar em alarme? “Não há razão para alarme, há razões para se ter cuidado e para se preparar a população. Não temos informação se haverá um sismo superior. A população tem agora de ser mais informada e educada”, responde Mourad Bezzeghoud, até porque não há maneira de prever um sismo. Bento Caldeira também mostra precaução: “Diria que não há razão para alarme, mas não sabemos. Não se consegue fazer uma previsão de um sismo e não lhe posso garantir que amanhã não haja um.”

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