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Megafone

A inocência do cancro nas crianças

Mas se a vida nos traz dúvidas irrepetíveis e sensação de impotência, há uma pergunta que nunca terá uma resposta que nos convença: porque é que as crianças podem ter cancro?

O sofrimento é daquelas condições inerentes à vida e, ainda que nos desviemos dele ou o adiemos por um tempo ilimitado ou improvável, existe sempre algum momento em que colidimos com ele.

Mas há partes da vida que nunca deveriam ser acaso de tamanha coincidência e as crianças nunca deveriam vivenciá-lo.

Passava pouco das 10h. Passo primeiro pela sala de espera ou do rastreio, que é onde os meninos aguardam para serem chamados para consultas ou análises. É uma sala colorida, com brinquedos e jogos, uma educadora e uma voluntária.

Tento estar descontraído, mas o João puxa-me pelo casaco e pede ajuda; ele está a fazer uma refeição de plasticina para levar ao pai e deixou cair os talheres. O João tem seis anos, o cabelo começou a cair-lhe, já só tem uns “tufos”, mas isso não lhe interessa muito, nem a mim ou a quem conviva de perto com ele. É o sorriso que o distingue. E o que importa ali são os talheres de plasticina e a refeição que me explica ao detalhe, assim como se mostra contundente de que o pai terá que comer tudo: “Terá que comer tudo como o João para ficar forte e saudável”.

Acredito de imediato que aquelas palavras, precedidas do sorriso, serão esperança. As crianças na realidade parecem muitas vezes bem, porque não percebem ao certo aquilo que têm… E é isso que lhes costuma valer.

Tento identificar o cheiro que estou a sentir, mas é quase indecifrável, talvez um misto de cloro de piscina com outra coisa, o ar é quente e há por ali alguma gente.

Sair da sala de rastreio é angustiante pois nunca se sabe como e quando voltamos a ver as crianças que ali conhecemos. Ao lado desta surge então a sala de consultas, hoje não me demoro porque os meninos estão sem paciência.

O Pedro está deitado no sofá, está triste e com dificuldade em respirar através da máscara, e a Sofia acabou de sair de um exame, não pára de vomitar. Ela está corada, os olhos estão cobertos de lágrimas e o ar zangado reflecte-se nas respostas que dá à mãe ou no olhar de raiva com que me espreita. Respiro fundo, sinto-me impotente e mesmo sem o querer tenho que desviar o olhar da Sofia, não lhe posso passar insegurança ou medo.

As funcionárias estão sempre sorridentes, mas não disfarçam o ambiente pesado.

Penso nos meninos que vou encontrar no internamento, os corredores destes são cobertos de pinturas, bonecos e frases de esperança ou motivação. Sinto que qualquer coisa me bate nas pernas, ignoro mas vejo que é o Rodrigo; foi operado a um tumor cerebral, mas já nem se lembra disso. Pede-me ajuda para desenrolar os tubos do soro que se enrolaram à volta do triciclo e o impedem de continuar. A mãe dele está ao telefone, alheada do que se está a passar e se não são as instruções do Rodrigo ainda hoje lá estava à volta dos tubos.

Despeço-me dele e desejo-lhe boa viagem, mas ignora-me porque precisa de estar rapidamente no fundo do corredor.

Quando regressa passa por mim e volta a parar: “Sabes se aquela é a porta para a rua?” Digo-lhe que não sei, mas para não se preocupar porque ali está mais quente e não apanha nenhuma constipação. “Sabes que aquilo que tenho é pior do que uma constipação?” Eu desvio o olhar e ele continua a pedalar, como se ao fundo do corredor estivesse lá a solução para tudo.

Entro num quarto onde não conheço ninguém, digo “Bom dia” mas não obtenho resposta. As crianças ficam curiosas mas não me aproximo; elas estão acompanhadas pelos pais. Entendo que ainda não é o momento, estão a adaptar-se à situação e qualquer aproximação é ainda vista de lado, como uma intromissão à dor, porque sentem que ninguém os compreende ou pode entender aquilo que estão a sentir. É um espaço de revolta e frustração que não passa facilmente.

No quarto ao lado estão duas crianças, não as conheço mas a reacção destas é completamente diferente. O pais sorriram de imediato, estão calmos e resignados e espero que as crianças se aproximem; é difícil identificar logo quando é menino ou menina.

Pouso a mão na cama e não tardo a sentir um pé pequenino que me empurra como que a dizer: “Ei, estou aqui”.

Faço-lhe cócegas e oiço uma gargalhada, os pais dizem que já não ria há três dias. É a Amália.

Não percebi o que tinha, nem interessa, sei que por um momento a fiz rir e se esquecera do penso ou das cólicas. A mãe vai beber um café e fico logo a saber que ela gosta de vídeos com hambúrgueres que ganham vida e começam a morder os sapatos das pessoas. O pai quer que ela veja algo mais didáctico mas ela não gosta de coisas que a façam pensar muito. Vinte videos de hambúrgueres que falam depois, eu saio do quarto. A Amália fica bem disposta e vejo que o Rodrigo ainda pedala com vigor.

A seguir vêm as salas de quimioterapia. A Rute faz tratamentos todos ao dias, tem 14 anos e assiste às aulas no iOad. Às 8h, a ambulância vai buscá-la a casa para a entregar às 21h. Está com a mãe que, assim que chega, liga a televisão e não muda o canal durante o dia. Quando chego apenas lhe vejo o sorriso no olhar porque a máscara me impede de ver o resto, a cabeça está coberta por um gorro. Há tanta calma neste espaço que transborda e me contagia a mim também. Falamos um pouco, não a posso fazer rir porque se engasga facilmente, mas volta e meia lá nos esquecemos disso. Os livros e a música são uma paixão comum.

Lembro-a de que tem que comer e beber água, imito-a também e ela volta a rir com dificuldade. A mãe saiu e continuamos a falar até que somos interrompidos pela máquina de quimioterapia que avisa para a substituição da embalagem está quase a chegar ao fim. Ficámos em silêncio e fomos também interrompidos pela realidade. A enfermeira trata disso e eu vou ter que me ir embora.

Queria dar-lhe um abraço mas não posso porque hoje terá algumas dores.

É este o dia-a-dia que nunca deveria existir, a página que nunca deveria ser escrita ou o instante que jamais poderia acontecer. Ainda assim, em cada criança encontro esperança e dias seguintes, uma vida por fazer e vontade de ela ser para sempre.

Mas se a vida nos traz dúvidas irrepetíveis e sensação de impotência, há uma pergunta que nunca terá uma resposta que nos convença: porque é que as crianças podem ter cancro?