Oxfam em risco com escândalo de prostituição no Haiti

Elementos mais radicais do Partido Conservador aproveitam caso para impor a ideia de que o financiamento público à ajuda humanitária britânica deve ser reduzido.

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O sismo de 2010 no Haiti teve resultados devastadores Eduardo Munoz /REUTERS

A sobrevivência da Oxfam, uma das organizações humanitárias com actividade internacional mais conhecidas do mundo, está a ser posta em causa com a revelação de que não agiu de forma adequada perante denúncias de que trabalhadores da organização solicitaram prostitutas, possivelmente menores, no Haiti, após o grande sismo de 2010, e no Chade.

Penny Lawrence, vice-directora da Oxfam, anunciou a sua demissão esta segunda-feira, dizendo sentir vergonha por ter deixado que isto acontecesse enquanto ela era directora para os programas internacionais da organização. “É claro agora que estas alegações, que envolvem o uso de prostitutas e se relacionam com o comportamento de director do país e membros da sua equipa no Chade, foram mencionados antes de ele ser transferido para o Haiti. Tenho vergonha de ter permitido isto e assumo plena responsabilidade”, afirmou Lawrence.

Estas declarações foram conhecidas depois de uma reunião do director-geral da Oxfam, Mark Goldring, com a secretária de Estado para o Desenvolvimento Internacional, Penny Mordaunt, que tinha ameaçado cortar o financiamento público à organização humanitária, que tem actividade em 90 países.  Se a Oxfam não demonstrasse “liderança moral” neste caso, disse Mordaunt, o Governo cortaria a ajuda financeira – que no ano passado totalizou quase 32 milhões de libras (mais de 36 milhões de euros), diz a Reuters, cerca de 8% de todo o seu orçamento.

Para além do financiamento público, também as doações podem ser atingidas drasticamente por este caso – nos últimos dias, desde que o jornal The Times revelou o caso, muitos doadores regulares desta organização fundada em 1942 deram ordem aos seus bancos para cancelar as transferências, relata o Guardian.

“A Oxfam fez um pedido de desculpas sem qualquer limitação – a mim, ao povo do Reino Unido e do Haiti – pelo comportamento vergonhoso de alguns dos seus colaboradores no Haiti, e pelos falhanços da organização em lidar com isso”, disse a governante, num comunicado após a reunião. Disse ter havido um inquérito da Oxfam na altura, mas que o Departamento de Ajuda ao Desenvolvimento não foi informado de que o caso envolvia maus comportamentos sexuais. Até ao fim da semana, Penny Mordaunt espera mais garantias da organização sobre como se lidará com futuras situações do género.

O embaixador do Haiti no Reino Unido tinha exigido à Oxfam e ao Governo britânico conhecer a identidade dos colaboradores da organização que tinham pago por fazer sexo com haitianas, após o sismo de 2010. Bocchit Edmond disse ainda que estava a considerar processar a Oxfam – diz-se que as prostitutas seriam menores. O responsável máximo da Oxfam recusou identificar os trabalhadores visados dizendo recear consequências para as mulheres em causa.

Para além das consequências para a Oxfam, este caso pode afectar todo o financiamento da ajuda humanitária no Reino Unido – que tem estado sob fogo dos sectores mais fechados do Partido Conservador, nomeadamente os partidários do “Brexit”.

Jacob Rees-Mogg, o actual preferido desta linha mais reaccionária dos tories, apareceu logo no dia seguinte à revelação da história pelo Times à porta de Downing Street para entregar uma petição de mais de 100 mil leitores do tablóide Daily Express exigindo cortes no orçamento dedicado à ajuda humanitária.

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Jacob Rees-Mogg foi entregar uma petição à primeira-ministra britânica pedindo o corte à ajuda humanitária Peter Nicholls/REUTERS

O Reino Unido é um dos únicos seis países que atinge o objectivo expresso pelas Nações Unidas de gastar 0,7% do seu Rendimento Nacional Bruto (a riqueza produzida por quem vive de facto num país) em ajuda humanitária, o que representa qualquer coisa como 13 milhões de libras anuais (14,6 milhões de euros). Ir ao encontro desta meta da ONU foi uma política seguida pelo anterior primeiro-ministro britânico, David Cameron, que apostou em mostrar um conservadorismo com compaixão. Mas depois de ter perdido o referendo do “Brexit”, em 2016, os ventos políticos mudaram definitivamente de direcção.