Entrevista

“Progredir significa construir a melhor versão de nós próprios”

Francesco Marconi chegou a Nova Iorque com um enorme desejo de integração. Começou a escrever e agora partilha as suas reflexões mas, garante, não vende ilusões.

Francesco Marconi é filho de mãe portuguesa e de pai italiano
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Francesco Marconi é filho de mãe portuguesa e de pai italiano DR

Uma das formas de captarmos a atenção dos outros e até de moldarmos a forma como nos olham é contarmos uma história. A nossa. Este é um conselho de Francesco Marconi que, no livro Avance, conta como o seu pai italiano conheceu a sua mãe portuguesa num comboio para Paris e onde a jovem estava a ser incomodada por um grupo de soldados enquanto tentava ler o jornal. O pai levantou-se, pediu para que não a importunassem e escreveu o seu contacto na primeira página do jornal que a jovem lia. “Se alguma vez vier a Roma, ligue-me, eu mostro-lhe a cidade”, disse-lhe. Foi o que aconteceu, um ano depois. E esta é uma das razões por que Marconi, criado em Coimbra e formado em economia, gosta da indústria da informação, onde trabalha, em Nova Iorque, na agência noticiosa Associated Press (AP), como director de estratégia. 

“Crie a sua própria narrativa” é uma das propostas do livro Avance, da editora Matéria-Prima, lançado no início do ano. Avance não é só um incentivo ao leitor para fazer algo com a sua vida, mas é aquilo a que o autor chama um algoritmo, cada letra remete para uma proposta: A - A importância de saber quem é; V - Visualize os seus sonhos; A - Arranje um plano; N - Nada o impede; C - Combata a inércia; E- Eleve-se e seja ainda melhor. Porque, como diz na capa do livro: “O sucesso não se encontra, cria-se.” 

O português foi considerado pelo site MediaShift uma das personalidades mais marcantes de 2017 no campo da inovação digital, esteve recentemente em Portugal para falar dos projectos de inovação na AP, que desenvolve, mas também para o lançamento do livro, que foi publicado primeiro em língua inglesa. Marconi dá aulas na Columbia University como professor convidado e já foi investigador convidado na Universidade de Harvard e na Columbia Business School.

PÚBLICO: Como surgiu a ideia de escrever este livro?
Francesco Marconi: O livro surgiu a partir de uma necessidade inicial de “sobrevivência” social no sentido amplo do termo. Explico-me melhor. Fui para os Estados Unidos em 2009 para fazer um estágio, como economista, nas Nações Unidas. Cheguei com um enorme desejo de me integrar, de ter uma contribuição diferenciada e de crescer profissionalmente. Desde sempre segui a rotina de anotar regularmente ideias que me surgiam, situações que me faziam reflectir, problemas a que não sabia dar resposta. A ideia não era escrever um diário num registo intimista, mas sim um Diário de Bordo em que as dificuldades e os insucessos ocuparam sempre um lugar central. E nos primeiros meses da minha chegada às Nações Unidas a matéria-prima para o meu Diário de Bordo crescia exponencialmente.

Comecei então a observar de modo um pouco obsessivo como funcionava o mundo à minha volta: desde os comportamentos mais banais das pessoas – o modo como se cumprimentavam, como faziam conversa de circunstância – até aos mecanismos de funcionamento das relações de trabalho. E o meu Diário de Bordo estendeu-se por muitas linhas até que a escrita se transformou numa actividade que sistematicamente procurava um suporte sólido, digamos científico, que me permitisse desenhar uma trajectória consistente. E assim comecei a estudar o modo como as pessoas comunicavam, a ler textos de psicologia da comunicação, a estudar artigos de economia comportamental (behavioral economics). E num certo momento senti que poderia ser útil publicar o meu Diário de Bordo, para que outros Diários de Bordo surgissem. Publiquei, assim, há poucos meses nos Estados Unidos o Live Like Fiction de que surge agora uma adaptação em português da editora Matéria Prima, Avance.

Por que lhe chama um algoritmo, não pode ser uma mnemónica (para nos lembrarmos do que cada letra quer dizer)?
Organizei as experiências que vivi, as histórias que conto, as peculiaridades das personagens que constituem para mim uma referência, com uma ordenação preferencial. A mensagem de cada capítulo será mais efectiva se assentar sobre a mensagem do precedente! Chamei-lhe um algoritmo por esta razão e talvez pelo facto que me é cara a linguagem matemática.

O algoritmo responde à necessidade do indivíduo desenhar uma estratégia de vida, de criar um guião, um pouco à semelhança da racionalidade que hoje obriga a empresa a ter o seu plano de negócios. A importância de ter um plano, um guião é bem ilustrada por exemplo pela participação de Michael Phelps nos 200 metros mariposa, nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, que conto no meu livro. Logo que começou a prova Michael Phelps sentiu que os seus óculos estavam a deixar entrar água. Enchiam-se aos poucos até que, por fim, deixou completamente de ver. Mas Phelps, não parou, não desistiu, nem sequer abrandou pois tinha um plano: Antes de qualquer competição, costumava fechar os olhos e imaginar a corrida inteira – braçada a braçada, do início ao fim. Assim, à medida que os óculos se enchiam de água, Phelps sabia instintivamente quantas braçadas lhe faltavam. Ao aproximar-se do final, deu uma braçada que era exactamente a distância que faltava. Com efeito, com aquela braçada ganhou a corrida com um novo recorde mundial da categoria. Mais tarde, quando um jornalista lhe perguntou como tinha sido nadar sem ver, Phelps respondeu: “Foi exactamente como imaginei.”
 
Quando comecei a ler Avance, pensei que se tratava de um livro que ajudaria as pessoas que querem mudar de vida profissional. Mas, à medida que fui avançando, creio que está mais voltado para quem já está dentro de uma empresa e quer progredir. Como é que o vê?
Eu gostaria que a leitura fosse mais abrangente… Cada um de nós move-se num universo composto por múltiplos cenários, mas que, em última análise, estão fortemente interligados. Para simplificar, a mensagem que queria transmitir, era que progredir significa construir a melhor versão de nós próprios, transformá-la numa história – profissional e pessoal – que valha a pena ser vivida. Porque como diz a poetisa Muriel Rukeyser: “O universo não é feito de átomos, é feito de histórias”.

Este é um livro exigente pois pede ao leitor que o vá completando, que faça um balanço da semana. Porque o estruturou assim, de maneira a que o leitor se comprometa?
Sim, é verdade, pois acredito que a tal “melhor versão” resulta de um compromisso com nós próprios, resulta do traçado de um guião com que nos devemos comprometer. A ideia do guião pretende sublinhar que o “sucesso” se constrói, não se encontra. Com isto não quero dizer que não há factores externos negativos que nos “determinam”. Seria demasiado simplista.  

E no final, qual é o objectivo? É possível que a pessoa assimile tudo o que propõe ou que faça escolhas?
Cada um de nós é marcado por histórias diferentes, e por diferentes ensinamentos que tira das mesmas histórias. O objectivo é que o leitor construa o seu próprio algoritmo: assimilando a minha versão das histórias ou rejeitando-a. Aquilo que eu gostaria é de produzir uma reacção!

Pode chamar-se um livro de auto-ajuda?
Não gosto da designação de auto-ajuda, pois evoca um género de escrita que promete paraísos. Creio que todos, em algum momento, decidimos que temos de mudar algo. Mas não basta encontrar uma estratégia e comprometer-se a mudar, como insinuam muitos livros de auto-ajuda. Mudar é de facto difícil: há hábitos enraízados, questões emocionais, e condicionantes exteriores. É preciso muito empenho, energia e tempo. É preciso que cada um de nós faça a sua própria viagem. E é isso que proponho no Avance. Conto histórias, falo de insucesso, mostro características da personalidade de personagens que admiro, cito estudos científicos para fundamentar observações. Não vendo ilusões.