Editorial

A nova revolução verde

Entre o drama da fome que persiste e a epidemia de obesidade que cresce, há uma pergunta cada vez mais incontornável: o que fazer para tornar o mundo da alimentação mais racional?

Poucas revoluções do século XX foram tão boas para a humanidade como a que transformou a agricultura e retirou milhões de pessoas do pesadelo da fome. Hoje, porém, a revolução verde está em crise. Vítima do seu próprio sucesso, a transformação baseada na ciência, na escala e na produtividade tornou-se uma ameaça para a sustentabilidade, para a biodiversidade. Tornou-se ainda um factor de desperdício e um foco de uma das mais terríveis epidemias do nosso tempo: a obesidade. Com a fome confinada a cenários de conflito ou a países dominados pela cleptocracia ou pela má governação, discute-se tanto a alimentação humana pelos seus limites como pelos seus excessos.

É impossível ficar ao lado dos problemas. Entre a realidade existente, com o abuso de proteínas no hemisfério Norte e a subnutrição em várias zonas do planeta, e o mundo ideal, há um fosso difícil de transpor. A eficiência na produção que hoje leva ao desperdício de um terço dos alimentos implica uma lógica económica baseada na competição e numa ordem geopolítica. Mudar essa lógica exige uma quase utopia: obriga a acertos na globalização, na concorrência, no próprio capitalismo.

Pretender o regresso da produção ao modelo da agricultura familiar é uma aspiração que, como sublinha o director-geral da FAO numa entrevista ao P2, deve reforçar o seu papel na agenda do nosso tempo. Mas acreditar que é possível com uma deliberação política reduzir o poder das multinacionais que dominam o negócio da alimentação é também uma utopia. Porque quem poderia alterar a lógica das coisas é quem domina esse ciclo de negócio — a Europa, os Estados Unidos ou o Brasil.

Mais do que confiar no poder da política, é melhor pensar que uma grande transformação só ocorrerá quando cada um de nós for ao supermercado e preferir pagar mais por pão de cereal do Alentejo ou carne de um pequeno produtor da Galiza. Quando a força motriz dos hábitos não for a quantidade e o preço mas os bens sustentados numa tradição rural, numa cultura, num padrão de qualidade que o agrobusiness não contempla.

A próxima revolução verde não será por isso um modelo de aumento de produção — mas um princípio de produção sem hormonas de crescimento animal, nem doses industriais de agro-químicos, nem sementes manipuladas para resistir a insectos. Pode ser uma utopia: mas, nos anos ásperos do pós-guerra, a hiperabundância de comida também o era.