A papelaria do Parlamento está em liquidação total e vai fechar as portas

Proibição de fumar em espaços públicos fechados e queda a pique da compra de jornais e revistas tornaram negócio economicamente inviável. Pedro da Conceição parte de “coração partido”.

Concessão de Pedro da Conceição expirou em Dezembro
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Concessão de Pedro da Conceição expirou em Dezembro Miguel Manso

A papelaria do Parlamento está em saldos. Não são uns saldos normais. É uma liquidação total. O negócio tornou-se “economicamente inviável” e quem explora o espaço não vê outro caminho que não seja o de fechar a loja.

Pedro Conceição, 49 anos, chegou ao Parlamento há pouco mais de uma década. Ganhou um concurso público, depois de o anterior “proprietário” ter desistido da exploração. Vendia um pouco de tudo. Canetas diversas, blocos de apontamentos, objectos variados para prendas de última hora, jogos da Santa Casa, tabaco e todo o tipo de jornais e revistas.

No iníco, o negócio permitia uma renda para fazer uma vida tranquila, mas ao longo do tempo foi sofrendo alguns golpes. Com as limitações ao fumo nos espaços públicos fechados, a papelaria foi obrigada a deixar de vender tabaco e, depois, a venda de jornais foi caindo a pique. Quando pegou no negócio, entre os clientes do Palácio de São Bento e alguns externos, Pedro Conceição “vendia cerca de 300 jornais e revistas por dia. Agora vendia um, dois por dia”, revela ao PÚBLICO.

“Os grupos parlamentares têm uma colecção diária [de jornais] que os deputados consultam. A biblioteca da Assembleia da República também e os hábitos de leitura mudaram. Hoje, quase toda a gente lê as notícias na Internet”, explica.

Ao pequeno espaço junto ao bar e a uma das entradas para o hemiciclo parlamentar já nem sequer chegam jornais. O fecho “está previsto para daqui a um mês, um mês e pouco” e Pedro Conceição já cessou os contratos com a maior parte das distribuidoras. A máquina dos jogos da Santa Casa também já foi desligada e os blocos de notas já esgotaram. O que resta “vai sendo vendido a preços mais baixos” para ver se limpa o stock. Sobram as muitas saudações e os desejos de felicidade que vai recebendo de deputados, funcionários e jornalistas.

“Parto com o coração partido. Aqui só fiz amigos, não tenho razão de queixa de ninguém. Só conheci pessoas de excelência no tempo que aqui estive. Só deixo amigos. Trataram-me sempre bem”, diz agora, emocionado.

Pedro faz questão de garantir que ninguém o “empurrou para a saída”. “Antes pelo contrário, fizeram tudo para que eu continuasse, desde a administração, ao gabinete do secretário-geral. Tudo, fizeram tudo, foram extraordinários, mas não dá para continuar. É inviável”, repete.

Começou a acompanhar a política de outra forma desde que chegou ao Parlamento. Hoje diz seguir “com muito mais atenção” os debates que se fazem além da porta que fica a meia dúzia de metros da sua papelaria, à esquerda, e que dá entrada directa para as bancadas do PSD e CDS. Tem as suas opiniões sobre a política, mas assegura que nunca as manifestou a ninguém na Assembleia da República. “Entendo que, por trabalhar aqui, devo ter um comportamento especial, como não manifestar publicamente as minhas opiniões políticas ou até participar em manifestações”, revela ao PÚBLICO.

Pedro Conceição fala num “ambiente de trabalho extraordinário” e garante ter “amigos em todos os partidos”. “Tenho tido dias em que muitas vezes me vêm as lágrimas aos olhos, quando as pessoas passam aqui de propósito para me desejar boa sorte. Tive a felicidade de trabalhar num sítio com pessoas extraordinárias.”

Assim que fechar a papelaria do Parlamento, Pedro Conceição vai mudar ramo. Vai dedicar-se aos seguros. Mas pensa voltar “algumas vezes” ao local onde foi feliz. Para “rever os amigos” e para tentar “arranjar clientes”. “A Assembleia da República é um local com potencialidade para vender alguns seguros.”

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