Situação financeira da Raríssimas “é grave”. Direcção pede regresso de mecenas

Nova direcção tem vindo a cortar em custos que não considera “aceitáveis para uma associação sem fins lucrativos" e passará a comunicar aos mecenas o destino de cada donativo.

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NUNO FOX/LUSA

A nova direcção da Raríssimas ainda não tem uma imagem completa daquilo que é a situação financeira da instituição, mas uma questão é clara: “É grave”. Há pouco mais de um mês no cargo, os novos directores apelam ao contributo dos mecenas, depois de terem assistido a “uma quebra muito significativa” nos apoios, que os obrigou a negociar novos planos de pagamentos com os fornecedores. De facto, se não tivesse recebido o apoio estatal neste período, a Raríssimas teria fechado portas, deixou claro Sónia Margarida Laygue, a recém-eleita presidente da instituição.

A qualidade dos tratamentos aos utentes e o vencimento dos trabalhadores não está, no entanto, em causa, garantiu Laygue, numa conferência de imprensa na manhã desta sexta-feira, em Lisboa. Foi, para isso, fundamental a continuidade da prestação de serviços contratualizados com o Estado. De outra forma a instituição teria dificuldade em continuar de portas abertas, na sequência da investigação da TVI que revelou suspeitas de gestão danosa da anterior presidente, entretanto constituída arguida.

A nova direcção diz estar a avaliar a situação financeira e o modelo de gestão da Raríssimas, pelo que não avança, para já, dados sobre a perda de apoios ou dívida a fornecedores. “Um mês é curto para avaliar uma situação tão complexa”, defendeu Sónia Laygue, que aproveitou também para destacar o trabalho que tem vindo a ser feito.

A instituição renegociou as condições de pagamento a fornecedores, começou a reunir com os principais mecenas – a quem passará a comunicar o destino de cada donativo – e regularizou algumas situações contratuais com trabalhadores. Laygue destaca ainda que a Raríssimas está a cortar em custos que não considera “aceitáveis para uma associação sem fins lucrativos”, tendo já devolvido o BMW da associação. “As deslocações e carros de funções não podem existir”, afirmou, por fim, em referência aos gastos da anterior presidente.

Paula Brito e Costa, que é ainda directora da Casa dos Marcos, continua suspensa dessas funções. Para a substituir foi criada uma comissão coordenadora daquele que é o maior projecto da Raríssimas.

Em breve será feita uma auditoria financeira à instituição, a pedido da direcção, que está ainda a procurar alternativas ao nível da oferta dos serviços.

“Grande mudança de modelo de gestão”

Sónia Laygue destacou que a instituição se rege agora “pela repartição de responsabilidade e de poderes”, tendo chamado um “comité de peritos” para ajudar a direcção, e que todas as reuniões deste órgão se realizam de porta aberta aos colaboradores. Está, em suma, em curso uma “grande mudança de modelo de gestão” para abandonar um anterior “modelo centralizado nas relações pessoais e focado nos títulos”.

Contudo, “sem peças novas e gasolina será difícil pôr o carro a andar novamente”. Laygue usou a metáfora para apelar aos portugueses, em particular aos mecenas, que ajudem “a salvar a Raríssimas”, de forma a “continuar a tomar conta” das crianças com doenças raras que apoiam. O apoio, destacou a presidente, pode ser feito através de donativos monetários ou em géneros, apoio técnico ou apadrinhamento.

Já sobre a recusa do Governo ao pedido de reconhecimento da Fundação Raríssimas, a presidente afirmou que a decisão “não teve nenhum impacto” na estratégia da nova direcção, que “nem sequer estava a contar com isso”, uma vez que todo o processo foi conduzido pela anterior.

Laygue aproveitou ainda para fazer um corte com o passado: “Não temos nem os meios, nem a responsabilidade nem o direito de avaliar os actos em causa”, afirmou, remetendo para os inquéritos a decorrer internamente, no Ministério Público e na inspecção do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.