Opinião

O país do Cabo da Roca a caminho de Pyeongchang 2018

Espero que este maior intercâmbio entre Portugal e a Coreia sirva de base para o alargamento e diversificação das relações bilaterais.

Nos Lusíadas, Camões definiu o Cabo da Roca como o sítio “onde a terra se acaba e o mar começa”. O Cabo da Roca é o extremo ocidental da Eurásia, no extremo oriental temos a aldeia coreana de Tomal (que em coreano significa o fim da terra), onde a Eurásia acaba e começa o Oceano Pacífico. O começo de Portugal é o fim da Coreia e o começo da Coreia é o fim de Portugal. Fico a pensar, com satisfação, se foi também um acaso inevitável António Guterres suceder a Ban Ki-moon na liderança da ONU.

Desde 1961, ano do estabelecimento das relações diplomáticas, que a República da Coreia e Portugal têm mantido uma relação de amizade e cooperação firme. Quando é necessário responder às provocações da Coreia do Norte, sejam ensaios nucleares ou testes de mísseis balísticos, ou quando é precisa uma cooperação próxima nas organizações internacionais de que ambos os países são membros, a Coreia e Portugal confirmam a sua forte aliança através do apoio mútuo. Contudo, a realidade é que há muito poucas pessoas a saber que o primeiro ocidental a pisar solo coreano foi um mercador português chamado João Mendes. Também o grande potencial de cooperação e de investimento comercial proveitoso para ambos os países tem sido pouco aproveitado. Felizmente, tanto a nível governamental como a nível empresarial têm vindo a aumentar os esforços para se conhecerem melhor e procurarem possíveis áreas de cooperação.

No último ano, as visitas de altos funcionários do Estado português à Coreia aumentaram, tivemos a visita do secretário de Estado da Internacionalização, da secretária de Estado do Turismo e do secretário de Estado Adjunto e do Comércio. Também tivemos visita de várias delegações de alto nível da Coreia, a mais recente foi a do presidente da Assembleia Nacional em Janeiro deste ano, ao longo do ano passado recebemos delegações de deputados, da Korea Communications Comission, da International Contractors Association of Korea, da Câmara Municipal de Busan e do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ambos os países procuram possíveis formas de cooperação para a promoção do turismo — no ano passado, o número de turistas coreanos a visitar Portugal ultrapassou os 120 mil. A abertura de uma ligação aérea directa, a cooperação na área das tecnologias de informação e comunicação, a cooperação em energias renováveis, a promoção do comércio e investimento ou a entrada conjunta nos mercados africanos e latino-americanos são exemplos de áreas em que podemos trabalhar em conjunto. Espero que estas expectativas se concretizem em breve, pois seriam mais uma demonstração da proximidade entre a Coreia e Portugal. Para mim é bastante estimulante trabalhar para tornar estas possibilidades em realidade.

Os Jogos Olímpicos de Inverno vão realizar-se entre 9 e 25 de Fevereiro em Pyeongchang. Os Jogos vão ter cerca de 2900 dos melhores atletas do gelo e da neve, vindos de 92 países, a competir por 102 medalhas de ouro em 15 modalidades. Espera-se que este seja o maior evento realizado até hoje na história dos Jogos Olímpicos de Inverno. O Governo coreano quer honrar o compromisso que fez perante a comunidade internacional de realizar os jogos olímpicos da paz, do desenvolvimento económico, da cultura, das TIC e do ambiente.

É particularmente digno de atenção o facto de estes Jogos Olímpicos de Inverno se realizarem no único país dividido do mundo, as duas Coreias assinaram um armistício em 1953 mas nunca chegaram a declarar o fim da guerra. É importante salientar o valor da participação da Coreia do Norte no desfile conjunto na cerimónia de abertura e na formação de uma única equipa de hóquei no gelo feminino, considerando que a península coreana atravessou um período de constantes tensões resultantes da ambição nuclear da Coreia do Norte. Recentemente as duas Coreias retomaram as conversações, que estavam interrompidas há mais de dois anos, e houve um alívio das tensões militares. Não há dúvida de que os Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang cumprem à letra o espírito de “Ekecheiria”, ou seja, trégua olímpica, que na antiga Grécia decretava o cessar das hostilidades durante os Jogos Olímpicos.

Espero que este espírito olímpico nos leve à promoção de conversações, intercâmbios e cooperações e até mesmo ao fim do programa nuclear da Coreia do Norte e ao estabelecimento da paz na península coreana. Acredito que os Jogos Olímpicos de Pyeongchang vão realizar-se com muito sucesso e que serão os verdadeiros Jogos Olímpicos da Paz, uma celebração pacífica em que participam os cidadãos de todo o mundo.

Tenho pena que apenas participem dois atletas portugueses nestes Jogos Olímpicos da paz, mas compreendo que as condições climatéricas de Portugal não são as melhores para os desportos de Inverno. De qualquer modo, vou torcer para que tenham bons desempenhos e que regressem a Portugal com boas recordações do outro lado do mundo. 

Recentemente, começámos a ter na Coreia vários programas de cultura e entretenimento a mencionar com alguma frequência Portugal. O interesse dos coreanos por Portugal aumentou, tal como aumentou o número de turistas coreanos em Portugal. Em Portugal, a curiosidade pela cultura coreana — como a K-pop — também tem vindo a aumentar, assim como tem vindo a aumentar o número de estudantes portugueses de língua e cultura coreana. Espero que este maior intercâmbio entre Portugal e a Coreia sirva de base para o alargamento e diversificação das relações bilaterais. Como embaixador da República da Coreia em Portugal, farei todos os esforços para ser uma ponte que liga os nossos dois países.