Álvaro Lapa: entre a escuridão e a luz

No Museu de Serralves, inaugura esta sexta-feira a maior retrospectiva alguma vez dedicada a Álvaro Lapa. Oportunidade para redescobrir uma obra que transcende o seu tempo sem deixar de falar dele. Com pinturas, desenhos, palavras de um artista.

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Mais de dez anos depois do desaparecimento de Álvaro Lapa, o curador Miguel von Hafe Pérez é da opinião que o artista continua a ser redescoberto, reencontrado. Não apenas pelo modo como utilizava materiais pobres, não apenas pelo significado denso, radical que dava às referências artísticas e literárias, mas por uma ideia difusa de atemporalidade Ângelo de Sousa

No centro de uma sala do Museu de Serralves, repousam, sobre uma mesa, livros, catálogos, folhas de papel, um portátil, um telemóvel, canetas e lápis. É dela que o crítico e curador Miguel von Hafe Pérez dirige a organização e a montagem de No Tempo Todo, retrospectiva da obra de Álvaro Lapa (Évora, 1939 - Porto, 2006). À volta, há quem meça o espaço para a colocação de telas, quem transporte, com desvelo, pinturas, quem faça perguntas, quem atenda aos apelos nervosos dos telemóveis. Falta uma semana para a inauguração da exposição, na qual se mostrará pela primeira vez um extenso e inédito conjunto de desenhos, e um burburinho atravessa as salas diante da passividade das obras. Não é a primeira grande exposição consagrada ao artista, escritor e pintor. Em 1975, Álvaro Lapa teve a sua primeira antológica no Centro de Arte Contemporânea no Museu Nacional de Soares dos Reis do Porto. Dezanove anos depois, realizou-se Retrospectiva organizada em 1994 pela Fundação de Serralves e o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian com cento e sete trabalhos. Finalmente, em 2006, a Fundação EDP organizou em Lisboa, na sequência da atribuição do Grande Prémio EDP de 2004, uma exposição nos dois pavilhões do Museu da Cidade, em Lisboa. Mas No Tempo Todo, que inaugura hoje, é diferente, como Miguel Von Hafe Pérez, frisa: “O artista esteve muito envolvido nesses dois últimos momentos, encontrava-se em processo de pensamento, de trabalho. E foram exposições que tiveram âmbitos cronológicos mais ou menos definidos. Aqui, houve a responsabilidade de trabalhar de um modo mais historiográfico, tentando reunir o maior número possível de obras. Isso, creio, mostra a diferença”.

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Filipe Braga/Serralves

Repintar, entre a escuridão e a luz

A ausência de Álvaro Lapa permitiu ao comissário uma liberdade de composição e interpretação que, sem pôr em causa os traços principais da obra, aponta a outros sentidos. Sem uma ordem cronológica, e privilegiando as séries conhecidas como narrativas, No Tempo Todo sublinha a dimensão política de uma atitude que teve na pintura e na escrita os seus esteios existenciais. 

“O Álvaro Lapa foi, quanto a mim, o artista que melhor reflectiu a esquizofrenia de um país no estertor da ditadura e que viria a viver a energia libertária da revolução. Poucos como ele, conseguiram tão rapidamente identificar o quanto essa utopia estava a ser dilacerada. Fui formando essa ideia enquanto trabalhava e, na sua essência, creio que se encontra nesta sala”. O comissário aponta para as obras que o rodeiam. São séries em que predominam o negro  cores escuras, buracos, composições similares a grades ou a barras de uma prisão. “Nesta série, apresentada em Escuro como a cova onde o meu amigo não se move [na Galeria Buchholz em 1971], note-se o enquadramento das pinturas. Há um lado muito negro. Quase que se poderia dizer que cristaliza um momento depressivo não só pessoal, mas também dessa cova que seria o país”. Na sala, contudo, nem tudo é opressivo e nublado. O comissário vira-se para a parede na qual está exposta uma das obras mais singulares de Álvaro Lapa: “As profecias de Abdul Varetti, cortinas de ferro e outros objetos, espólio de um escritor falhado”. Trata-se de um conjunto de lonas, sustentadas em ferros, nos quais o artista bordou um conjunto de aforismos e ditados que proclamam novos modos de vida e de experiência. “Há neste trabalho uma afirmação absolutamente luminosa do que seria uma sociedade utópica”, considera Miguel von Hafe Pérez. “Em que há uma espécie de equiparação do humano e do natural, algo que em termos sociais surge como um igualitarismo vital”.

Apresentado em Lisboa, em 1972, o trabalho assinala um momento irrepetível na obra do artista - pelo uso das materiais, pelo afastamento da pintura – e ao mesmo tempo introduz um elemento que não mais a abandonará. “Há um rompimento absoluto com a sua produção plástica. Esta peça é para mim dos momentos mais significativos de ruptura na arte do século XX e é curioso que, pela mesma altura, artistas como Alberto Carneiro e Ana Vieira faziam algumas das suas obras mais emblemáticas”, reflecte o comissário. “A linguagem vai tornar-se absolutamente estruturante na sua produção plástica e a palavra, um aspecto recorrente. O facto de atribuir a autoria a Abdul Varetti não funciona em termos de heteronomia. É uma personagem que lhe aparece entre o sonho e a realidade e que tem a ver com essa visão utópica, solar da realidade que curiosamente ele também evoca antes do 25 de Abril”.

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A condição política de Álvaro Lapa é a do artista, do homem para quem, parafraseado o título de uma das suas pinturas, pintar é amar de novo, a não do homem engajado com ideologias ou teorias. “O único gesto absolutamente político encontra-se em Por Allende, que pintou em 1973. É uma gesto muito expressivo e no qual faz algo que irá repetir. Repintar. Há quadros que ele repintou totalmente. As datações são complicadas, pois ele reutiliza o platex noutras obras. Por exemplo, há obras que têm a data de 1972, mas que, na verdade, são dos anos 80”.

Uma modernidade divergente

Em 1975, na Galeria Buchholz, Álvaro Lapa apresenta as séries Os criminosos e as suas propriedades e Que horas são que horas que podem ser revisitadas em Serralves. “Quando se esperava que o lado solar emergisse de uma forma mais evidente, faz essa exposição com reverberações que têm a ver com a sua biografia. O pai esteve preso, por delito comum, ele visitou-o ainda criança. Por outro lado, a prisão tem um significado importante e que decorre de universo literário composto por escritores que prezava e lia muito, como o William S. Burroughs ou Céline. Essa condição do fora-da-lei liga-o a uma certa modernidade divergente, a uma recusa da permanência de uma sociedade classista, como continuou a ser sociedade portuguesa. E estas questões interpenetram-se no modo como a palavra vai assumir uma dimensão disruptiva e fundamental no seu trabalho”.

Da sala principal, espalham-se outras séries, outras pinturas. Repetem-se motivos. A mesa (objecto, superfície incontornável do seu espaço de trabalho), as paisagens, os contornos dos milarepas (a enigmática figura do santo tibetano), os auto-retratos, as palavras, a linguagem. Pintar, pintar, mas também escrever, escrever. Numa das telas, Prece pelos Bêbados (evocação a Fernando Pessoa), o comissário chama a atenção para a aparição assertiva da linguagem escrita na pintura de Álvaro Lapa. Noutra obra, as frases e as palavras, surgem apagadas ou, antes, escondidas pela tinta. “Ele retirou o texto.  A questão da linguagem torna-se quase abstacta”, revela, o comissário, antes de acrescentar: “A sua grande referência é o Robert Motherwell [pintor americano, associado ao expressionismo-abstracto], não só por causa da questão formal, mas por aquilo que ele convocava. Um fazer arte como assumpção politica. Ser artista já era uma acção política”.

Ser artista foi no quadro da produção de Álvaro Lapa, por exemplo, fazer séries como a dos Cadernos, que se inicia em 1976, e que dedicará a 19 escritores (Burroughs é o primeiro, Mallarmé será o último) e que mostrará nos anos seguintes em espaços diferentes, subvertendo as concepções convencionais do retrato e da representação. Ou a vibrante “Campe´stico”, inspirada numa experiência do seu quotidiano e na leitura de James Joyce, que vai materializar um olhar sobre paisagens, interiores e exteriores.

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Ficou qualquer coisa

E os desenhos, desenhos inéditos que aguardam, sobre mesas, a atenção e a curiosidade dos visitantes: “Durante a exposição tive conhecimento que os seus herdeiros estavam a negociar a sua venda à Fundação Calouste Gulbenkian e consegui incluir um conjunto importante na exposição. São estudos em que se encontra já uma espécie de vocabulário. Muitos destes elementos reaparecem na sua pintura e oferecem uma noção de uma enciclopédia visual muito própria”. Os livros e a escrita também acompanham os desenhos, sublinhando a outra faceta de Álvaro Lapa. “Teve uma grande pesar por não ter sido considerado um escritor, quando de facto o foi. Lembro que o segundo momento mais politico do seu trabalho é a publicação de Porque morreu Eanes, em 1978, uma obra literária muito difícil que faz a apologia do fim de uma oportunidade.” Entretanto, outro livro chama a atenção de Miguel von Hafe Pérez. Tem o título de Raso como o Chão, editado pela Estampa em 1977. O comissário abre as páginas, comenta: “Podemos ver aqui desenhos a esferográfica que realizou sobre as reproduções das pinturas, que não ficaram bem impressas”.

Pintar, escrever.  Mais de dez anos depois do desaparecimento de Álvaro Lapa, Miguel von Hafe Pérez é da opinião que o artista continua a ser redescoberto, a ser reencontrado. Não apenas pelo modo como utilizava materiais pobres (tintas acrílicas, platex), não apenas pelo significado denso, radical que dava às referências artísticas e literárias, mas por uma ideia difusa de atemporalidade. “Se colocarmos a sua obra em diálogo com a arte internacional, ela acrescenta qualquer coisa.  A maneira como trata a paisagem, o modo como inscreve a filosofia zen de um modo tão singular. Mas, por outro lado, fala-nos do que foi ser artista em Portugal, numa periferia, no século XX, protagonizando a vontade de uma inscrição numa narrativa moderna”.  Como diz próprio artista a Jorge Silva Melo no filme Álvaro Lapa: A Literatura (2010), “num meio tão sujo, tão esburacado, tão feio, a joie de vivre é suspeita, mas escapou, ficou qualquer coisa”. Para a nossa alegria.

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