Opinião

Edmundo, o dever de resistir

Preste-se homenagem ao homem e ao exemplo. E que este nunca nos abandone, já que resistir à injustiça e não soçobrar é o que nos aproxima de quem sonhamos ser.

Edmundo Pedro morreu aos 99 anos, quarenta e três anos depois do 25 de Abril. Conheci Edmundo Pedro através de um amigo comum, já ele teria mais de noventa anos. Olhou para mim e confundiu-me com outra pessoa, pelo que me tratou com uma afabilidade com a qual eu não contava. Mas, desfeito o equívoco, a afabilidade continuou a mesma. Vi-o nesse período mais algumas vezes, sempre a pretexto de algumas causas comuns e sem proximidade. Aproximava-se sem se impor, sem se querer destacar, disponibilizando-se apenas para o que pudesse fazer, fosse o que lhe propusessem.

Eu conhecia a sua história e a sua bravura, mas sempre me causou uma estranheza difícil de descrever a diferença entre o que deveria ser o herói, o resistente, a vida que se confunde com as palavras resistência, justeza, esperança, e aquela simplicidade desarmante do homem que estava perante mim. Dos heróis, existindo, espera-se sempre o pior. Afinal a proximidade apenas nos desfigura os sonhos, como é sabedoria comum. Mas com Edmundo Pedro, estranhamente, isso não acontecia. Parecia estar numa sala de hotel em Lisboa, já virado o século XXI, com a tranquilidade desarmante de quem tinha visto demónios e sabia, na carne e não apenas no verbo, que eles simplesmente podiam ser vencidos. E isso dava-lhe não vaidade nem soberba, mas apenas gosto por viver.

Quem vá ao campo do Tarrafal, no norte da ilha de Santiago, Cabo Verde, e caminhe um pouco pelas ervas esparsas, entre as ruínas e a aridez da terra, entre os rostos dos habitantes mais recentes e a tentativa museológica, chegará com emoção à “frigideira”. Não sem antes passar pelos espaços de detenção em comum, pelas demais celas disciplinares, pelas cozinhas e pelas latrinas, pelas placas evocativas de nomes de antigos reclusos, que ali ficaram ou que dali saíram com vida. Poderá ler os nomes de Edmundo Pedro e Gabriel Pedro, seu pai, entre muitos outros. Gabriel passou 135 dias na frigideira, um recorde. Edmundo passou 70.

Edmundo tinha 17 anos quando chegou ao Tarrafal, em 1936. Ali ficou por nove anos. Tinha já sido preso aos 15 anos, por participar numa greve no arsenal do Alfeite. Esperou dez anos, preso, por um julgamento, político. E toda a sua vida em ditadura foi feita de resistência e prisão, associado ao PCP até 1945 e fora do partido. Não desistir. Não quebrar. Não aceitar ser comprado ou demovido. Não transigir. Como outros, é certo. Mas Edmundo Pedro tinha 15 anos quando foi preso pela primeira vez e 63 anos no 25 de Abril. Quantos mais poderão dizer que viveram uma vida inteira em torno do dever de resistir e venceram?

Preste-se homenagem ao homem e ao exemplo. E que este nunca nos abandone, já que resistir à injustiça e não soçobrar é o que nos aproxima de quem sonhamos ser.