Opinião

Fazer das fraquezas forças

O novo governo é a última oportunidade de manter a Alemanha no centro da renovação europeia.

1. Era quase inevitável um acordo de grande coligação de tal modo os resultados das eleições de Setembro alteraram a paisagem política da Alemanha, pondo termo a uma estabilidade que durou décadas e abrindo as portas à fragmentação partidária. O factor novo foi a entrada em cena de um partido de extrema-direita antieuropeu e xenófobo que saltou para o terceiro lugar no Bundestag abanando fortemente todo o sistema. Merkel passou a vida a dizer que uma das suas grandes preocupações era impedir o crescimento de um tal partido, que na Alemanha tem um significado necessariamente diferente. Falhou, mesmo que por boas razões. A coligação com os liberais e os Verdes era uma impossibilidade em si própria. O FDP de 2017 não é o velho FDP moderado e liberal, antes preferiu encostar-se à direita, aproximando-se da Alternativa para a Alemanha (AfD) em matéria de eurocepticismo e de rejeição da imigração.

Restava o velho SPD, em queda constante desde que Merkel está no poder, desejoso de deixar de ser a “muleta” de uma chanceler que se colocou no centro político, roubando-lhe espaço eleitoral. Acabou por reconhecer que não tinha outro remédio, a não ser negociar o melhor possível para mostrar aos militantes e ao eleitorado que valera a pena. Do outro lado da mesa tinha uma interlocutora enfraquecida pelo desgaste de quatro mandatos consecutivos, pelas críticas dentro do seu próprio partido, cansado do seu “centrismo”, acusando-a de ter abandonado as políticas de centro-direita, de abdicar de reformas e, sobretudo, da sua generosidade em matéria de refugiados. Sintomaticamente, alguns dos seus dirigentes não pouparam elogios ao novo chanceler austríaco, que constituiu governo com a extrema-direita, diminuindo o seu europeísmo e aumentando a retórica anti-imigração. Para já não falar da CSU, irmã bávara da CDU, que gosta de elogiar Viktor Orbán. A imprensa não se cansa de falar do seu ocaso político, admitindo que afinal ela não é eterna.

No fundo, as lideranças dos dois grandes partidos (que hoje somam pouco mais do que 50% do eleitorado, quando já somaram 80) fizeram das fraquezas forças para constituir um governo que é também a última oportunidade de manter a Alemanha no centro da renovação europeia, impedindo-a de resvalar para um equilíbrio político muito mais hostil. É um risco que pode correr bem ou correr mal.

2. Não vale a pena também exagerar os ganhos do SPD nesta negociação. É verdade que ficou com dois ministérios determinantes para a política europeia: as Finanças e os Negócios Estrangeiros. Quem vai ocupar o lugar do poderoso Wolfgang Schäuble é um social-democrata de Hamburgo, muito popular na Alemanha mas razoavelmente ortodoxo, que não foi um crítico demasiado visível da austeridade imposta com mão de ferro pelo seu antecessor. É bom ter em conta que o fantasma da República de Weimar não é um exclusivo da direita. Quanto aos Negócios Estrangeiros, Martin Schulz, que deverá ficar com o cargo como é de tradição, terá o seu espaço limitado pelo facto de a chanceler manter a política europeia nas suas mãos, como de resto é prática nos governos europeus.

Mas já lá vamos à Europa, que nem sequer ocupou muito tempo nas negociações porque é igual o empenho dos dois partidos em garantir-lhe um futuro. Para o SPD contam muito mais as politicas internas que digam respeito à economia e ao emprego, melhorando as condições de trabalho, os salários, a distribuição de benefícios, num país em forte crescimento (o medo agora é de sobreaquecimento) quase sem desemprego, ainda que com alguns desafios estruturais pela frente. A Alemanha é um dos países menos digitalizados da Europa e o seu mais do que poderoso sector automóvel vê-se confrontado com a necessidade de uma modernização radical para não perder a liderança mundial., enquanto se deixa envolver em escândalos sobre os métodos que usa para testar as suas performances. Aliás, já chegou a hora das reivindicações salariais, como se viu agora com o maior sindicato alemão, a IG Mettall, que engloba os trabalhadores da metalo-mecânica e que conseguiu negociar uma série de benefícios, desde a redução das horas de trabalho aos aumentos salariais. Mesmo com a elevada produtividade do sector, a máquina exportadora que é hoje a economia alemã não pode ficar eternamente na mesma. E, claro, a Europa agradece.

Do mesmo modo, a questão da imigração, que passou a ser matéria escaldante em quase todos os países europeus, não distancia muito o SPD de Angela Merkel (mesmo que não se possa dizer o mesmo do seu partido). Há limitações mas mantém-se o espírito de abertura, de uma forma saudável sobretudo no quadro europeu.

3. Resta a Europa, onde muitos governos, a começar pelo francês, suspiravam pela “grande coligação”, nem que fosse pelo tempo suficiente para relançar a integração, depois da sua maior crise de sempre e quando o panorama político continua a ser bastante desanimador. Martin Schulz está mais próximo das propostas de Emmanuel Macron do que a chanceler, mesmo que o clima seja hoje de maior aproximação entre Paris e Berlim, sobretudo em matéria da reforma da zona euro. Merkel também sabe que a última oportunidade para a Europa foi criada pela eleição do Presidente francês e que não convém perdê-la. Ver-se-á qual é a sua margem de manobra. Pelo contrário, a liderança que a chanceler conquistou por mérito próprio perante as novas ameaças com que a Europa se confronta num mundo em acelerada desordem pode vir a ser mitigada pelos sociais-democratas, tradicionalmente menos amigos da América e mais da Rússia, e menos entusiastas da necessidade de dotar a Europa de uma capacidade militar autónoma. Ou não.

Fica a pergunta: por mais quanto tempo a Alemanha consegue manter-se como um pilar de estabilidade e de moderação na Europa? Ou, de outra maneira: por quanto tempo os alemães vão olhar para a Europa como um interesse vital?