“Singularidade” da Córsega será reconhecida na Constituição francesa

O Presidente francês incentiva o bilinguismo na Córsega mas recusa o uso do corso na administração pública e nos tribunais. “Há uma língua oficial e essa é o francês”.

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Macron com o chefe do executivo corso, Gilles Simeoni LUDOVIC MARIN/EPA
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Durante o discurso na Assembleia Corsa, em Ajacci BENOIT TESSIER/Reuters
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Na visita ao Instituto Nacional de Investigação e Agronomia, em San-Giuliano, perto de Bastia Reuters

O Presidente francês Emmanuel Macron é favorável ao reconhecimento da “singularidade” da Córsega na revisão constitucional que deverá ter lugar na Primavera, anunciou durante o seu discurso, de quarta-feira à tarde, na Assembleia Corsa, em Ajaccio. Mas, frisou, a Córsega é uma “especificidade dentro da República” e jamais fora dela. Outra reivindicação nacionalista é a “co-oficialidade” das duas línguas, o francês e o corso, na administração pública e na Justiça. Macron defende o apoio à língua corsa e a extensão do bilinguismo, mas não aceita a reivindicação nacionalista: “Há uma língua oficial e essa é o francês.”

Os dois dirigentes nacionalistas, Gilles Simeoni, chefe do executivo corso, e Jean-Guy Talamoni, presidente da assembleia, declararam-de desiludidos. “Foi uma opostunidade perdida”, declarou Simeoni, garantindo contudo que os nacionalistas conservaão o “espírito de diálogo”. Para Talamoni, “foi um dia triste para Córsega”, dizendo-se “consternado pelas respostas que nos foram dadas”. Apelou aos corsos para permanecerem “mobilizados”.

Na terça-feira, em Bastia, durante a homenagem à memória do prefeito Claude Erignac, assassinado por um comando nacionalista em 1998, Macron falou de uma forma particularmente firme: “É a justiça da República que foi aplicada na Córsega, e será prosseguida, sem complacência, sem esquecimento e sem amnistia”. Depois de a Frente Nacional de Libertação Corsa (FLNC) ter abandonado as armas, em 2014, os nacionalistas têm pedido a amnistia dos “presos políticos”, que Paris qualifica de autores de acções terroristas. Em protesto, os nacionalistas boicotaram um almoço com Macron.

No discurso na Assembleia, o Presidente não se pronunciou sobre outra reivindicação: a transferência dos presos para a ilha. Há questões financeiras e fiscais pendentes. A Córsega gostaria de ficar com os seus impostos, o que Macron considera impossível, já que as outras regiões não têm esse privilégio. Outra reivindicação recusada foi a do “estatuto de residente”. Segundo esta proposta só cidadãos com mais de cinco anos de residência contínua e permanente poderiam adquirir imóveis na ilha. O pretexto seria travar a subida do preço do imobiliário e, sobretudo, a aquisição de segundas residências. Paris considera esta exigência ilegal e contrária às normas europeias.

Força nacionalista

Trata-se apenas do começo de um braço-de-ferro sobre o estatuto da ilha. Nada foi especificado sobre o que significará o reconhecimento da “singularidade” e se irá até à atribuição de um regime de autonomia, até agora reservado aos territórios de ultramar.

Os nacionalistas sentem-se em posição de força depois de terem vencido as eleições e varrido o antigo sistema dos clãs. O reformista Simeoni, o dirigente mais poderoso e popular, tem alguma pressa em obter resultados. Fala numa “oportunidade única para resolver a questão corsa”, tema de conflito com Paris há mais de 40 anos. Por sua vez, Talamoni, ex-chefe do “braço político” da FNLC, está sob pressão dos seus militantes, resiste a condenar o uso da violência e exige a amnistia. Mas quer tirar os dividentos do desarmamento. O regresso à violência é pouco provável, já que o fim da luta armada lhes proporcionou o acesso ao poder. Mas a constelação nacionalista é muito variada e englobará correntes “militaristas”.

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