Faro quer desviar linha férrea mas Governo não pagará variante

PDM de Faro prevê desviar a linha do Algarve do centro da cidade para um traçado paralelo à EN. Investigador na Universidade do Algarve afirma que “Em qualquer cidade do mundo uma estação ferroviária no centro da cidade é uma mais-valia”

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bruno lisita

O Ministério do Planeamento e das Infra-Estruturas não prevê qualquer alteração ao traçado da linha do Algarve em Faro nem qualquer verba para financiar a variante que está contemplada no Plano Director Municipal (PDM) daquele município.

A linha passa entre a ria Formosa e a zona histórica da cidade e o documento que dá corpo ao PDM refere a “relocalização do percurso da linha de caminho-de-ferro de forma a diminuir o efeito barreira causado pela mesma”, propondo em alternativa uma variante que passasse a norte de Faro e onde seria construída uma nova estação ferroviária.

O corredor hoje ocupado pela linha do Algarve seria depois afecto a um sistema de metro ligeiro.

Contudo, contactado pelo PÚBLICO, o Ministério do Planeamento e das Infra-Estruturas recorda que o único investimento previsto para a linha do Algarve é o da sua electrificação entre Vila Real de Sto. António e Faro (56 quilómetros) e entre Tunes e Lagos (46 quilómetros).

“O projecto, que já foi inúmeras vezes apresentado publicamente e esclarecido junto das diversas entidades da região, incluindo as autarquias, não contempla qualquer alteração de traçado na cidade de Faro”, disse fonte oficial do ministério.

“Já a mudança de algumas estações em função das novas realidades urbanísticas é um assunto a ponderar e que poderá avançar”, disse a mesma fonte. Em causa poderá estar, por exemplo, a construção de uma segunda estação de Faro no apeadeiro que é hoje o Parque das Cidades. Trata-se de uma zona na fronteira entre Faro e Loulé, junto ao Estádio Algarve, que está em grande expansão urbanística e empresarial.

A própria Câmara de Loulé pretende lançar uma linha de autocarro directa entre a cidade e o aeroporto, sem passar por Faro, mas com paragem no Parque das Cidades.

“Uma estação naquele local [Parque das Cidades], onde parassem os comboios de longo curso, conferia uma nova centralidade à metrópole de Faro-Loulé e melhorava em muito as acessibilidades àquela zona”, disse ao PÚBLICO Manuel Tão, investigador na Universidade do Algarve.

Este especialista considera um equívoco a proposta do PDM de Faro em desviar a linha férrea da baixa da cidade. “Em qualquer cidade do mundo, uma estação ferroviária no centro da cidade é uma mais-valia devido à sua proximidade aos activos turísticos, monumentos e demais actividades terciárias, atraindo passageiros para o comboio e evitando mais cargas na rede viária, pelo que seria um erro relegar o respectivo ponto de acesso para uma periferia urbana longínqua”, disse.

Manuel Tão diz que o Município de Faro, e em geral todo o Algarve, “deveriam antes concentrar-se na construção de uma ligação ferroviária ao aeroporto, incluindo tanto relações locais como de longo curso, servindo aquela infra-estrutura e o Campus Universitário das Gambelas”. Entre passageiros, funcionários do aeroporto, estudantes e professores, uma linha férrea que partisse do aeroporto e bifurcasse no Patacão para a estação de Faro por um lado, e para o Parque das Cidades por outro, permitiria ter comboios directos para Sotavento e Barlavento, servindo em simultâneo a capital algarvia e toda a região.

“Além de ampliar o hinterland do Aeroporto Internacional de Faro, essa linha seria uma revolução no sistema de transportes do Algarve pois encurtava distâncias, descongestionava as estradas, aumentava a segurança e contribuía para a diminuição de CO2, tal como se preconiza na União Europeia”, disse.

Uma tese que se aproxima da visão do Governo nesta matéria pois o Ministério do Planeamento e das Infra-Estruturas refere que “está em estudo a ligação da linha do Algarve ao aeroporto de Faro, dependendo a sua construção da viabilidade económica e ambiental”.

Modernização atrasada

O projecto de electrificação da linha do Algarve está com, pelo menos, seis meses de atraso, apurou o PÚBLICO junto do Ministério do Planeamento e das Infraestruturas.

“Está prevista a entrega dos projectos de execução para a eletrificação até final do primeiro semestre deste ano, seguindo-se a fase de Avaliação de Impacte Ambiental”, disse fonte daquele ministério.

No entanto, o Plano de Investimentos Ferrovia 2020, apresentado pelo governo em 2016, prevê que esta fase de projecto estivesse concluída no segundo trimestre deste ano por forma a que o concurso público decorresse entre Julho de 2018 e Março de 2019. As obras deveriam iniciar-se, assim, em Abril do próximo ano.

Com este atraso - e dependendo agora do tempo que a Agência Portuguesa do Ambiente vai demorar a avaliar o projecto - a modernização da linha do Algarve não deverá estar concluída antes de 2022.

Esta situação onera a exploração da CP que é obrigada a manter uma frota envelhecida de automotoras a diesel naquela linha, as quais avariam frequentemente. Nos últimos meses registaram-se casos de circulações que não se efectuaram por falta de material, tendo a empresa recorrido a transbordo rodoviário. Contactada pelo PÚBLICO, a empresa recusou divulgar o número de comboios suprimidos.

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