Hot Clube celebra de portas abertas os 70 anos da histórica jam-session do Chave d’Ouro

Hot Clube celebra com jam-session de entrada livre a célebre sessão do Café Chave d’Ouro de 1948, faz agora precisamente 70 anos. Esta terça-feira na sede do Hot, em Lisboa, às 22h30.

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Primeira jam-session pública realizada no Café Chave D'Ouro, em 6 de Fevereiro de 1948. Luiz Villas-Boas está entre Pops Whitman (percussão) e Art Carneiro (clarinete). Esta fotografia foi utilizada na capa do livro O Jazz Segundo Villas-Boas, de João Moreira dos Santos (Assírio & Alvim, 2007), uma edição comemorativa do 60.º aniversário do Hot Clube de Portugal Augusto Mayer

O Hot Clube de Portugal celebra esta terça-feira, com uma sessão de jazz de entrada livre (às 22h30), a célebre jam-session do Café Chave d’Ouro, em 6 de Fevereiro de 1948. Realizada há 70 anos no Salão de Chá daquele luxuoso café do Rossio lisboeta, a sessão contou com vários músicos portugueses entusiastas de jazz (entre eles Luís Sangareau, Jorge Costa Pinto, Tavares Belo ou Art Carneiro) e serviu para alicerçar a notoriedade do Hot, nesse tempo em fase de implantação e prestes a ser legalizado (Luiz Villas-Boas preencheu a ficha de sócio n.º1 em 19 de Março de 1948). A jam-session desta terça-feira, que reunirá músicos de jazz veteranos e outros das gerações seguintes, é uma das iniciativas com que o Hot Clube está a celebrar ao longo de 2018 os seus 70 anos de existência. Entre concertos, edições de discos e livros e até um projecto europeu itinerante para crianças e jovens.

No livro O Jazz Segundo Villas-Boas (Assírio & Alvim, 2007), de João Moreira dos Santos, livro esse que usa precisamente a fotografia da sessão do Chave d’Ouro como ilustração de capa, descrevem-se todos os “principais músicos portugueses entusiastas de jazz” ali presentes, bem como músicos e artistas estrangeiros que se encontravam em Portugal, dando-se como exemplo Tom Kelling e Pops Whitman. Pops, aliás, surge nessa foto (com baquetas) à esquerda de Luiz Villas-Boas; à direita (na foto) estava o português Art Carneiro, no clarinete. A lista de músicos portugueses presentes surge em nota de rodapé no livro: “Fernando Albuquerque, Art Carneiro, João Santos, Rafael Couto, Alberto Carneiro, Tavares Belo, Domingos Vilaça, Machado, Graça, Nereus Fernandes, Manuel Menano, Luís Sangareau [um dos irmãos em cuja casa germinou o Hot), Mário Simões, Manolo Potier, Jorge Costa Pinto, Babs Carneiro, Aleixo Fernandes e Freitas da Silva.”

Para amantes do jazz

Já Hélder Bruno de Jesus Redes Martins, no seu livro Jazz em Portugal (1920-1956), editado pela Almeida em 2006, para além de mencionar tal sessão, bem como vários dos músicos presentes, escreve ainda que, “entre 1946 e 1950, o Chave d’Ouro passa a ser uma espécie de sede para os amantes do jazz. Nestas sessões passaram músicos como Don Byas (saxofone), George Johnson (saxofone) e alguns bailarinos e músicos negros de Chicago.”

Mas é preciso voltar a de João Moreira dos Santos, agora no livro Roteiro do Jazz na Lisboa dos Anos 20-50 (Casa Sassetti, 2012) para conhecer melhor o Café Chave d’Ouro. Situado na Praça D. Pedro IV (vulgo Rossio), foi inaugurado em 1916 e remodelado em 1936. Acabou por fechar em 1959, diz o autor que em resultado da célebre conferência de imprensa que ali deu Humberto Delgado, com o seu lendário “Obviamente, demito-o”. Tal café, segundo João Moreira dos Santos, “foi não só o maior, mas também um dos mais emblemáticos cafés e salões de chá do século XX lisboeta.” O Diário de Lisboa, citado pelo autor do livro, deu primeira página à reabertura do café após a remodelação de 1936, descrevendo o seu imenso e luxuoso espaço: duas frentes (Rossio e Rua Primeiro de Dezembro), sete andares, nove pavimentos, central (o grande café), galeria de café, salão de bilhares, salão de cá, restaurante, esplanada, cinco bares e umas 11.400 lâmpadas.

Foi no salão de chá que ocorreu a histórica jam-session do Hot, que agora se celebra com outros músicos no espaço do clube, no número 48 da Praça da Alegria. Com jazz, claro.