Reportagem

Um colégio de turmas pequenas onde se transmite "segurança e bem-estar” às crianças

Entre 2015 e 2017, 80,5% dos alunos que concluíram o 9.º ano no Colégio do Vale fizeram-no sem nenhum chumbo no currículo. Neste indicador concebido pelo Ministério da Educação, esta escola privada de Almada é a primeira a nível nacional.

Fotogaleria
Cristina Raposo, directora pedagógica, e Magda Gonçalves, responsável pelo Colégio do Vale, são as mulheres por trás deste projecto Sebastião Almeida
Fotogaleria
Sebastião Almeida
Fotogaleria
Nas aulas de Português, as turmas (normalmente com 25 alunos) são divididas ao meio para facilitar a aprendizagem Sebastião Almeida

Para o Ministério da Educação há uma maneira sólida de avaliar o desempenho das escolas, que não premeia as que preferem chumbar os alunos mais fracos para que eles não estraguem a média do exame, que é consistente, porque leva em conta o percurso de três gerações consecutivas de estudantes, e que também considera o perfil dos alunos à entrada do ciclo de ensino. E que maneira é essa? Respondendo a uma pergunta — na verdade, a mais do que uma: quantos estudantes em cada escola conseguiram terminar o 9.º ano entre 2015 e 2017 sem chumbar no 7.º, nem no 8.º e tendo positiva nos exames finais? E como foi noutras escolas que receberam alunos com o mesmo nível escolar no 7.º ano? O percurso dos seus alunos foi mais ou menos atribulado?

Nenhuma outra escola do 3.º ciclo do ensino básico se sai tão bem neste “indicador global dos percursos directos de sucesso” — assim lhe chama o ministério — como o Colégio do Vale, na Charneca da Caparica, Almada. É frequentado por 500 crianças. A propina mensal ronda os 500 euros, o que inclui várias actividades de enriquecimento curricular, como a informática, a educação musical, a educação física ou a natação, mais outras tantas opções extracurriculares, como karaté, ginástic acrobática ou dança. E sempre a garantia de acompanhamento “permanente” e “personalizado” dos alunos.

PÚBLICO -
Aumentar

Dados: nos últimos três anos, 80,5% dos alunos chegaram ao fim do 9.º ano sem chumbar nem no 7.º nem no 8.º e tiveram positiva nos exames finais de Português e Matemática. A percentagem de estudantes com o mesmo perfil que a nível nacional conseguiu o feito idêntico foi de 53,2%. Esta diferença (muito) positiva coloca o Colégio do Vale no topo da lista deste “ranking alternativo” que é possível construir com os dados fornecidos pelo ministério.

A directora pedagógica e professora de Matemática Cristina Raposo diz que fundamental para este sucesso é a “continuidade”: “A maior parte dos alunos está connosco desde muito cedo.”

“Há muito trabalho por parte de todos.” Do lado dos professores, há um acompanhamento “muito individual de cada aluno”. Depois, a colaboração da família é “fundamental”. E tudo isto “acaba por transmitir segurança e bem-estar” à criança. Se estiverem motivadas, está criado um ambiente propício à aprendizagem.

“Procuramos não ter turmas muito grandes”, prossegue. São cerca de 25 alunos em cada uma. E até há casos em que se tenta que o número de estudantes por sala seja menor, de modo a facilitar a aprendizagem em determinadas áreas. É o caso do Português, da Matemática, do Inglês (na hora de praticar a oralidade) e das Ciências (quando chega o momento de fazer experiências).

Actividades de voluntariado

Nos exames, os alunos também foram bem sucedidos. Esta privada, que não figura no ranking dos exames do PÚBLICO, uma vez que fez menos de 50 provas, tanto a Português como a Matemática, conseguiu uma média global de 3,83. Um número acima do alcançado pelos privados de todo o país — 3,43 valores.

Há duas estratégias específicas para promover o sucesso no exame, explica Cristina Raposo: “Todos os nossos instrumentos de avaliação têm uma estrutura semelhante à do exame.” Além disso, quando terminam as aulas, “há um período de preparação e acompanhamento dos alunos para esclarecerem dúvidas”.

Da parte dos alunos, também parece haver um sentimento de pertença à escola. Sara Coelho, estudante do 8.º ano, tem 13 anos e explica: “Ando aqui há um ano e meio e é como uma segunda casa para mim.” Crê que não é tanto assim noutras escolas, de outros amigos. Aqui, as relações são “mais pessoais”.

Margarida Baixinho é outra das alunas do 8.º ano. Apesar de se confessar nervosa com os exames do fim de ciclo, diz-se confiante. “Vamos ter apoio [dos professores].”

Tanto a professora Cristina Raposo como a directora do Colégio do Vale, Magda Gonçalves, reconhecem que estes jovens vivem num ambiente “muito particular”. Por isso, têm feito um esforço para os aproximar de outras realidades. É o caso do projecto Mundos para além do Meu em que as crianças são envolvidas em iniciativas de voluntariado e acção social.

“Seleccionamos uma instituição por ano e desenvolvemos um conjunto de estratégias para angariarem verbas e ajudarem quem mais precisa”, explica Magda Gonçalves. O objectivo é claro: fazer com que percebam que “vivem num espaço privilegiado”.