Opinião

Do velho ao “novo” Silvio Berlusconi

A esquerda demorou anos a perceber o Cavaliere. Foi este quem ganhou com a “diabolização”.

1. O Financial Times publicou esta semana um longo artigo com um título adequado à época: “A ressurreição de ‘São’ Silvio Berlusconi.” À medida que se aproximam as eleições de 4 de Março, cresce a expectativa em torno da nova imagem do Cavaliere. Ele mudou de fato. Já não é o corruptor-mor, o rei da telecracia nem o inspirador do populismo. Longe vão também os tempos do “bunga-bunga”. A condenação judicial não tem grande importância. Será o árbitro do pós-eleições, das coligações e da governabilidade. Num cenário idealizado, muitos esperam que seja um dique contra a vaga populista e eurocéptica na Itália.

Ao logo de quase um quarto de século, Berlusconi desempenhou diferentes papéis. Foi um líder populista — ou liberal-populista como dizem os politólogos — até 2006 ou 2008. A partir da derrota eleitoral em 2013, assumiu o papel de árbitro das coligações, matéria em que é o mais reputado especialista italiano. Conseguiu a proeza de perder as eleições e vencer o pós-eleições, tornando-se no árbitro da estabilidade governamental, ora aliando-se ao Partido Democrático (PD, de Matteo Renzi), ora fazendo-lhe oposição. A derrota de Renzi no referendo de Dezembro de 2016 e a sua posterior demissão abriram as portas ao regresso de Berlusconi ao primeiro plano, apesar da sua condenação judicial (2013) e da sua “inabilitação” para o exercício de cargos políticos. Dirige as operações a partir de casa e encontros discretos.

Não é deste Berlusconi que de momento me ocupo — haverá oportunidade nas próximas semanas. Interessa-me, aqui, o modo como foi percebido e combatido o “primeiro Berlusconi”, pela esquerda italiana e pela imprensa internacional. A oposição enganou-se muito.

 

2. Eram justas as críticas a Berlusconi. A primeira dizia respeito ao escândalo do “conflito de interesses” entre a propriedade do maior grupo mediático italiano (com a tutela do sector público) e as funções de primeiro-ministro. “O Estado de direito proíbe que uma pessoa possa exercer um cargo em vantagem própria”, denunciava Giovanni Sartori, o decano dos constitucionalistas italianos.

Berlusconi entrara na política — ele o confessou — quando a Justiça o começou a investigar, por delitos fiscais, corrupção e e pelo suborno de um juiz. Travou uma luta quotidiana contra os magistrados. Chegou a anunciar uma lei segundo a qual caberia ao Parlamento definir o delitos prioritários a perseguir em cada ano.

A crítica que passa a ser a chave da compreensão do berlusconismo é a da telecracia. Argumentava-se: é um regime em que as televisões de Berlusconi intoxicam os telespectadores, que depois votam nas suas listas.

Resumiu Carlo Freccero, director da RAI 2 e antigo colaborador de Berlusconi: “Sem que déssemos conta, este país deixou-se lentamente domesticar por um homem, cujo talento foi compreender toda a importância da televisão, um media omnipotente de muitos pontos de vista.” E, antes das eleições de 2001, o primeiro-ministro Giuliano Amato (centro-esquerda) fez um apelo patético: “Desligai os televisores [antes que Berlusconi] saia da tv, se torne realidade e entre em vossas casas.”

A tese da telecracia — que também me seduziu na época — tinha a vantagem de ser fácil de perceber, mas tinha um ponto fraco: com todas as suas televisões, Berlusconi perdeu as eleições de 1996. Quando ganhou as de 2001, os analistas passaram a procurar explicações mais finas.

 

3. O grande problema das elites italianas foi terem tido uma atitude puramente reactiva. A indignação tinha tantos motivos que dispensava o esforço analítico, sobretudo quando este ameaçava as responsabilidades da esquerda.

Demorou a perceber a raiz da ressonância do discurso de Berlusconi. Em primeiro lugar houve a exploração da antipolítica — o empresário de sucesso “que se sacrifica para salvar a Itália dos seus políticos”. Complementarmente, ele retrata-se como “mártir”, “prisioneiro do sistema”, perseguido por juízes, por jornalistas, pela esquerda. Impõe a “guerra permanente”.

A mensagem da campanha de 1994 — “A Itália é o país que eu amo!” — não era um slogan patriótico. Era “a santificação do povo italiano”, traduz o historiador Giovanni Orsina. As pessoas entendiam assim: “Eu amo a Itália como ela é [inclusive com os seus vícios.]” A cultura italiana da impunidade, do clientelismo, da evasão fiscal — em suma, “l’arte di arrangiarsi” — foi explorada até ao limite. A apologia do “país real” foi a chave do êxito do berlusconismo.

Outro motivo de sedução: “Berlusconi interpretou o mito do empreendedor do Norte que se fez por si mesmo. A promessa do sucesso tornava-se possível para todos.” [Ilvo Diamanti]

Tudo isto foi dito e redito. Como governante, Berlusconi quase nada fez ou reformou. Mas a esquerda ajudou-o de duas maneiras. Primeiro, com a sua percepção do eleitorado berlusconiano como gente que apenas obedece a “interesses” ou “eleitores fascinados”, pessoas enganadas, deseducadas pela televisão, que não lêem e apenas estão interessadas no seu bem estar-material. A esquerda abusou ainda da sua superioridade ética: “A esquerda defende ideais, a direita defende interesses.” Não é um bom método de atrair eleitores do adversário.

Em segundo lugar, a personalização do combate político beneficiou Berlusconi. O antiberlusconismo tornou-se no único cimento ideológico do centro-esquerda. A “diabolização” confirmava a crença na perseguição de Berlusconi.

Com isto, ele conseguiu impor aos adversários a sua própria agenda. Eles combatiam-no, mas, jogando no seu terreno, ficavam em desvantagem. O centro-esquerda só emendou a mão nas eleições de 2006, em que impôs um debate programático e ganhou.

 

4. “Berlusconi é um fenómeno absolutamente único”, escreveu Orsina. “A estatura histórica da personagem está fora de discussão. É um caso único que nasce em Itália por uma série de condições históricas. Estamos perante um fora de classe, no bem e no mal.”

E o futuro? “Após 2006, houve um Berlusconi sem berlusconismo. O que me parece impossível é que possa haver um berlusconismo sem Berlusconi.” O berlusconismo saiu da paisagem, apesar da sobrevivência do inventor, numa espécie de “segunda encarnação”.

O novo tabuleiro é assim: Berlusconi aliou-se à extrema-direita da Liga. Mas, depois da votação, nada o impede de dissolver a coligação. Perguntaria ao PD: querem governar connosco para “salvar a Itália” dos populistas? O Cavaliere sonha ter muitos trunfos na mão.