Estado compra pintura portuguesa com quase 600 anos por 350 mil euros

A Anunciação de Álvaro Pires de Évora, um português que trocou o Alentejo pela Toscana no começo do século XV, foi arrematada em leilão ao fim de dez minutos. O seu destino é agora o Museu Nacional de Arte Antiga.

Anunciação,  de Álvaro Pires de Évora
Fotogaleria
Anunciação, de Álvaro Pires de Évora DR
Fotogaleria
António Filipe Pimentel, director do Museu Nacional de Arte Antiga Enric Vives-Rubio/Arquivo

Em breve uma pequena Anunciação do século XV, executada pelo primeiro pintor português com obra atribuída, vai fazer companhia aos célebres Painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa.

A pintura foi comprada nesta quinta-feira à noite pelo Estado português num leilão da Sotheby’s, em Nova Iorque, por 350 mil euros (o preço de martelo foi 350 mil dólares, aos quais é preciso acrescentar a comissão da leiloeira, que faz com que o valor suba para os 435 mil dólares), confirmou ao PÚBLICO o director do MNAA, António Filipe Pimentel.

Esta tábua com 30X22cm, que está há mais de 50 anos na mesma colecção privada europeia (não portuguesa) e que já pertenceu ao primeiro chanceler da República Federal da Alemanha, Konrad Adenauer, foi à praça com uma base de licitação de 150 mil dólares (120 mil euros), estimando a leiloeira que pudesse chegar aos 250 mil (200 mil euros).

“O país está de parabéns. Este é, sem dúvida, um momento muito feliz para o património português”, diz Pimentel, que já está a imaginar a obra agora comprada na parede, bem perto dos Painéis. “O Museu de Arte Antiga é o sítio certo para esta pintura. Com ela podemos começar a preencher o buraco negro que está para trás dessa obra genial que são os Painéis de Nuno Gonçalves.”

A compra deste Álvaro Pires só foi possível, explica Pimentel, porque ao esforço do Estado, que assegurou através da Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) 250 mil euros e se comprometeu ainda a pagar a comissão da leiloeira, se juntou o do Grupo dos Amigos do MNAA (25 mil euros) e o de “todos os portugueses”: “Os cerca de seis mil euros que faltavam para cobrir o valor de martelo [o preço por que foi vendido sem as comissões] saíram do dinheiro que sobrou da campanha do Domingos Sequeira e poder dizer que os portugueses ajudaram a comprar este Álvaro Pires para o museu deixa-me particularmente contente.”

Anísio Franco, o conservador do MNAA que, em Lisboa, esteve a licitar esta pintura pelo telefone em nome do Estado português, disse ao PÚBLICO nesta quinta-feira à noite que foi “uma recta final renhida”. 

A disputa daquele que foi o primeiro lote do leilão começou nos 150 mil dólares, como previsto, e foi avançando de 20 em 20 mil até atingir os 300 mil. Duas pessoas estavam, como o conservador do MNAA, a licitar pelo telefone e havia pelo menos mais uma na sala. “Havia, de facto, interessados, mas na sala parou logo. No telefone não”, conta Anísio Franco. “No final já só estávamos nós e mais uma pessoa ao telefone.” E ao fim de dez minutos a pintura estava arrematada.

Numa nota breve que fez chegar já esta sexta-feira de manhã às redacções, o Ministério da Cultura (MC) congratula-se com o desfecho, lembrando que a aquisição da Anunciação "dá continuidade e reforça as políticas do MC para a valorização das colecções nacionais" e "vai enriquecer e alargar o âmbito cronológico da colecção do principal Museu de Arte Antiga em Portugal".

Um Álvaro Pires “excelente”

Foi no início de Janeiro que o Museu Nacional de Arte Antiga pediu à Direcção-Geral do Património Cultural, entidade que o tutela, que fizesse tudo o que estava ao seu alcance para adquirir a pintura, explicando por que razões seria da máxima importância poder contar com ela na colecção de Arte Antiga. “Esta compra não é importante só porque é um Álvaro Pires, mas porque é um excelente Álvaro Pires. Refinado, apuradíssimo”, diz agora Pimentel.

A partir de agora haverá nos museus nacionais duas obras deste primitivo português que terá feito toda a sua carreira em Itália, depois de, muito provavelmente, ter recebido formação na cidade espanhola de Valência. A outra é A Virgem com o Menino entre S. Bartolomeu e Santo Antão, sob a Anunciação, hoje no acervo do Museu Frei Manuel do Cenáculo, em Évora. Foi comprada em 2001 a um privado por 64 mil contos (320 mil euros), graças à intervenção de dois mecenas - a Finagra de José Roquette e a Fundação BCP.

A Anunciação (c. 1434) agora comprada mostra a Virgem Maria surpreendida enquanto lê pela presença do Arcanjo Gabriel, com as suas longas e elegantes asas em tons de fogo. O cenário em que ambos se encontram está ricamente decorado em vermelhos e dourados.

Como explicou há duas semanas o historiador de arte José Alberto Seabra Carvalho, subdirector do MNAA, quando confirmou ao PÚBLICO o pedido feito à DGPC pelo museu para que comprasse a obra, esta composição do pintor português do século XV “esconde” uma Santíssima Trindade, se atendermos a dois pormenores que, numa primeira leitura, podem escapar ao olhar menos atento: a mão no canto superior da pintura (Deus Pai); a pomba que atravessa esta cena bíblica e se aproxima da cabeça da Virgem (o Espírito Santo); e a criança que Maria há-de esperar, de acordo com o que lhe anuncia o anjo (Cristo).

Ainda um mistério

Embora seja certo que nasceu em território nacional antes de 1411 (morreu em Itália depois de 1434), não se conhecem obras de Álvaro Pires em Portugal. O seu percurso é, em grande parte, um mistério. Sabe-se que trabalhou em Itália – Pisa, Volterra, Lucca, Livorno, todas elas cidades na Toscana – e que chegou até a assinar algumas das suas obras, algo muito raro na época, mas porque “pintou só em Itália e à italiana”, como diz Seabra Carvalho, é justo que seja frequentemente confundido com um pintor italiano.

Esta Anunciação, defendia também em Janeiro outro conservador do MNAA, o historiador de arte Joaquim Caetano, pode estabelecer com a de Évora um diálogo interessante, porque a do museu alentejano terá sido feita numa fase inicial do percurso do pintor e a agora adquirida diz respeito à maturidade do artista (terá sido executada entre 1430 e 1434). “Na fase inicial as figuras têm uma certa robustez que vem da sua aprendizagem. Na final as suas pinturas são mais decorativas, mais exuberantes, e há uma tentativa de movimento que nesta Anunciação se pode ver na forma como os panejamentos se dobram para criar a ilusão de que se estão a mexer”, explicou Caetano, sublinhando que a sua obra é ainda muito característica do gótico final, mesmo que outros pintores seus contemporâneos tivessem entrado já nessa revolução chamada Renascimento.

A obra agora comprada pelo Estado já esteve em Portugal há quase 25 anos, quando na Torre do Tombo se fez a primeira e até agora única exposição nacional dedicada a Álvaro Pires de Évora, um artista que Seabra Carvalho diz ser “uma espécie de fantasma ausente na pintura portuguesa do século XV”.

Notícia actualizada às 13h para incluir a posição do Ministério da Cultura