Crítica

Lutas de mulheres

Na corrente dos ventos de mudança da Revolução Francesa, expressou a sua indignação por constatar que essa revolução negava “liberdade, igualdade e fraternidade” ao universo feminino.

Foto
Uma mulher à frente do seu tempo, com o seu combate contra uma moral conservadora

Mary Wollstonecraft estava habituada a lidar com os ataques constantes à sua escrita e à sua forma de viver. Corria o ano de 1790, e esta mulher, nascida em 1759, era o exemplo perfeito de uma “nova espécie”, a de um ser do sexo feminino com uma perfeita aptidão para pensar e agir. Oriunda de uma família pobre, autodidacta — só aprendeu a ler aos 14 anos — encarava o casamento como escravatura, era apologista do amor livre, teve uma primeira filha de um amante italiano, era uma convicta antiesclavagista e viveu com o filósofo anarquista William Godwin. Inteligente, enérgica e destemida, estivera em França para presenciar in loco os trâmites da Revolução e rapidamente se apercebeu, tal como Olympia de Gouges, sua “irmã” de armas, de que as mulheres estavam de novo a ser relegadas para longe da acção — depois de terem participado activamente nos primeiros grandes movimentos de rua — e afastadas dos centros de decisão. Intelectual revolucionária, professora e tradutora, conviveu com William Blake e Thomas Paine, trocando impressões e refutando opiniões com tremendo vigor. Quando publicou A Vindication of Rights of Men — uma reflexão, dirigida em forma de carta a Edmund Burke, onde ataca a aristocracia e defende os ideais da República — um tremendo burburinho elevou-se das bocas dos seus concidadãos. Que mulher era aquela que discutia, de igual para igual, as reivindicações que constituíam a base da Revolução Francesa? Como se atrevia a invadir um território essencialmente masculino, o do debate de ideias e combate verbal?

De regresso a Londres, em Outubro de 1971, Mary fechou-se no seu estúdio e começou a escrever febrilmente sobre o que considerava uma lacuna dramática no fluxo das ideias iluministas. Propunha-se avaliar, discutir, racionalizar e alterar radicalmente o estado das coisas no que dizia respeito a mais de metade da população, isto é aos seres do sexo feminino. Com a sua perspicácia habitual percebeu rapidamente que havia uma estreita relação entre a tirania dos governantes e aquela que os homens exerciam sobre as mulheres. Em apenas seis semanas produziu mais de quatrocentas páginas. No dia 1 de Janeiro de 1792, surgiu nas livrarias aquele que deveria ser o primeiro de três volumes de Uma Vindicação dos Direitos da Mulher.

Neste tratado filosófico, a autora propõe uma reformulação da sociedade do seu tempo e a introdução de soluções que redimiriam tanto homens como mulheres. Uma das bases essenciais para essa mudança seria a aceitação da liberdade de acção e de pensamento, tanto para o ser masculino como para o feminino. Num tom directo, vivo e por vezes corrosivamente irónico, Mary denuncia “a tirania do homem” e enuncia as desvantagens de se ser mulher, ou seja, a falta de educação, a negação do trabalho e o padrão sexual que estabelece que um homem pode ser classificado de lascivo ou sensualista, à laia de elogio, enquanto que a mulher é considerada uma prostituta, dentro do mesmo contexto. Na corrente dos ventos de mudança da Revolução Francesa, Mary expressava a sua indignação por constatar que essa mesma revolução, que prometera “liberdade, igualdade e fraternidade”, negava tais conceitos ao universo feminino

Existem quatro aspectos fundamentais (entre outros), em Vindicação dos Direitos da Mulher, que se coadunam, novamente, (e estranhamente) com os desígnios do nosso tempo: primeiro, o interessante registo filosófico que se alicerça no método do diálogo socrático e que serve o propósito de colocar questões aparentemente simples: existirão diferenças tão radicais entre homens e mulheres? Quais a regras que devem governar um estado justo e igualitário? O que fazer com a liberdade a que cada um, seja qual for o género, tem direito? Quais os imperativos civilizacionais necessários ao progresso? O segundo aspecto diz respeito à chamada de atenção para a necessidade de agir, o que, para Mary, passava essencialmente pela educação que deveria ser igual para os dois sexos. O terceiro aspecto tem a ver com os conselhos que a autora faculta a leitoras — certamente poucas — e a leitores — obviamente, em maior número, no seu tempo: são opiniões que abarcam a forma como devem ser tratados os animais, como preservar a saúde e a beleza — através de “ abluções frequentes”, mantendo o “asseio, o aprumo e a reserva pessoal” — como tratar familiares, quais os deveres dos filhos para com os pais e vice-versa, como manter a harmonia entre casais, etc. O quarto aspecto prende-se com a forma como Wollstonecraft desafia os homens e as suas convicções e ideias, arrastando-os para um campo de batalha em que ela se arroga o direito de lutar com armas iguais. Note-se que Mary não demonstra qualquer tipo de condescendência em relação à suposta inferioridade física (debilidade) e moral das mulheres e tão pouco se deixa impressionar pelas salonistes, essas mulheres letradas e elitistas que se reuniam à porta fechada e não tinham uma visão esclarecida da chamada “vida real”.

A leitura desta obra — composta como uma resposta a Émile de Jean-Jacques Rousseau e com uma introdução, em forma de carta dirigida a Talleyrand-Périgord, autor de inflamados panfletos, bispo, político e diplomata francês, uma das figuras mais controversas da Revolução e da Restauração, em França — leva a uma comparação inevitável com Um Quarto Que Seja Seu de Virgínia Woolf. . Enquanto que Wollstonecraft lutou para a igualdade dos sexos e pelo direito à educação universal — o termo feminismo era-lhe estranho — Woolf desejou, acima de tudo, a introdução de uma nova tradição cultural focada essencialmente na literatura e no universo femininos.

No entanto, tal como Woolf, Mary foi uma mulher à frente do seu tempo. Travou um corajoso combate contra uma moral conservadora que condenava metade da humanidade ao papel decorativo de companheira dócil do homem. Morreu com 38 anos, a dar à luz a sua segunda filha, a futura Mary Shelley, depois de 10 dias de uma atroz agonia. Godwin, inconsolável, apressou-se a escrever uma memória da mulher, onde contava todos os detalhes de uma vivência que escandalizou os bem pensantes da época, dando azo a um chorrilho de insultos — o facto de Mary ter morrido de parto foi considerado como um castigo apropriado para uma mulher com ideias e modos “inapropriados”. Mary Shelley cresceu à sombra da imagem desta mãe, que não conheceu, mas que influenciou a sua vida e a sua escrita. A grande admiração que sempre sentiu foi partilhada pelo futuro marido, Percy B. Shelley, com quem se encontrava junto à campa de Wollstonecraft, na igreja de St Pancras. em Londres.