Um Raio X sobe ao palco para sondar o que temos por dentro

A nova criação da Circolando, que se estreia esta quinta-feira no Porto, é uma fusão entre dança e filosofia . Objectivo: reflectir sobre o espaço que está para lá do corpo físico.

Fotogaleria
PAULO PIMENTA
Fotogaleria
PAULO PIMENTA
Fotogaleria
PAULO PIMENTA

Quando em 1895 o físico alemão Wilhelm Röntgen descobriu os raios X – avanço científico que lhe valeu o primeiro Prémio Nobel, em 1901 – revolucionou por completo o universo da física e, acto contínuo, viabilizou uma nova ferramenta de diagnóstico médico. Pela primeira vez, era possível ver o interior do corpo humano e desconstruir a sua complexa geografia. Mais de um século depois, o corpo humano já foi mapeado até à mais ínfima célula, mas o espaço interior que se posiciona além do material e imediatamente visível permanece desconhecido. É precisamente a esse desconhecido que Raio X, a nova criação da Circolando, nos pretende conduzir.

O novo espectáculo de André Braga e Cláudia Figueiredo está em cena desta quinta-feira até sábado no Teatro Municipal Campo Alegre, no Porto, e quer explorar o lugar que transcende tudo aquilo que é físico. “Há aqui uma componente filosófica de desestruturação do corpo e uma busca de um corpo poroso, sensível e permeável”, explica Cláudia Figueiredo. “Por outro lado, há uma afirmação política de recusa de um certo adormecimento e de repetição da rotina.”

Raio X é um manifesto contra o entorpecimento do corpo e da mente na correria do dia-a-dia e em favor da busca incessante daquilo que foge aos padrões estabelecidos pela sociedade. “Pretende-se incentivar uma certa sensibilidade e uma procura de experiências novas. Está muito presente a ideia de sermos afectados e afectarmos os outros e, acima de tudo, vivermos intensamente”, reconhece a directora artística da companhia.

Tudo começou quando os criadores da Circolando encontraram uma colecção de radiografias no decorrer de umas mudanças: “A própria matéria tocou-nos plasticamente e, a partir dali, quisemos pesquisar mais sobre o assunto, mas o grande mote para o espectáculo foi essa ideia de atravessar o corpo material e ir à procura do espaço interior."

O espectáculo tem interpretação de André Braga e Paulo Mota e obedece à transdisciplinaridade a que o repertório da companhia portuense nos habituou. Neste caso, encontram-se em palco a dança e a filosofia para um “diálogo a cru” que recorre a excertos da obra de filósofos como Gilles Deleuze, José Gil, María Zambrano. “Sentimos que precisávamos de alguém que fosse mesmo da filosofia, porque não tínhamos background filosófico suficiente para trabalhar”, justifica Cláudia. “Geralmente, a filosofia está presente [nos nossos espectáculos] de forma mais subtil. Desta vez, havia vontade de trazê-la para o centro do palco”.

Para explorar a realidade que está para além do físico e do material, André Braga e Cláudia Figueiredo ancoraram-se no conceito de “corpo sem órgãos”, desenvolvido pelo filósofo francês Gilles Deleuze a partir de uma reflexão do poeta Antonin Artaud. Este encarava o corpo como uma máquina que servia um propósito e que perdia as suas capacidades ao longo do tempo por doença ou morte. Para Deleuze, a solução é criar o “corpo sem órgãos”, ultrapassar as fronteiras do todo sólido do corpo humano. Ao exercer esta prática filosófica, o indivíduo liberta-se de preocupações mundanas e tem o caminho aberto para partir à descoberta de outros sentidos.

“Esta peça é um convite [ao público para que visite] o desconhecido e para que esteja receptivo a esta ideia de que não se sabe o que é que existe além disso, porque também é um espaço imprevisível”, esclarece Cláudia Figueiredo. “O próprio Gilles Deleuze diz a certa altura ‘Experimentem, mas tenham muita prudência ao experimentar’, porque quem se predispõe a experimentar o 'corpo sem órgãos' provoca o caos em si próprio e não sabe o que é que pode surgir.”

Ao longo de 70 minutos, assistimos a um bailado de corpos bamboleantes e maleáveis manobrados através do espaço num jogo de cor e luz que lembra os tons e os contrastes das radiografias. Uma tela ao fundo acompanha os movimentos e apresenta de forma intermitente as reflexões dos autores que cruzam a dança e a filosofia, dando ao público o espaço necessário para que o seu pensamento respire e seja desafiado sem limites. Raio X segue para o Teatro São Luiz, em Lisboa, a 13, 14 e 15 de Abril, e chega depois à Fábrica das Ideias, na Gafanha da Nazaré, a 15 de Junho.