Os designers portugueses viram e reviram-se em Linha Fantasma

No filme de Paul Thomas Anderson, o actor Daniel Day Lewis dá corpo a um designer da década de 1950. A estreia é nesta quinta-feira.

Fotogaleria
DR
Fotogaleria
Daniel Day-Lewis REUTERS/Suzanne Plunkett
Fotogaleria
O designer português Filipe Faísca Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
A dupla Storytailors fau fabio augusto
Fotogaleria
Vicky Krieps interpreta Alma DR
Fotogaleria
DR

Filipe Faísca, João Branco e Luís Sanchez, dos Storytailors, e Adelaide Borges foram convidados para a antestreia do filme Linha Fantasma. Os primeiros são designers e Adelaide Borges é coordenadora do curso Design de Moda da Escola de Moda de Lisboa. Porque foram ao cinema? Porque o filme é sobre Reynolds Woodcock, uma personagem fictícia, inspirada em criadores da década de 1950 como Balenciaga e Charles James. O PÚBLICO foi saber até que ponto estes profissionais se revêem nesta personagem. O filme estreia-se nesta quinta-feira

Realizado por Paul Thomas Anderson, Linha Fantasma conta com Daniel Day-Lewis no papel principal, sendo este o último filme do actor, que anunciou que irá reformar-se. A história decorre em Londres, no pós-guerra, retrata um período de opulência e luxo e revela como no mundo da criação artística existem frustrações e pressões que são inerentes a todo o processo criativo de um designer.

“Além de Daniel Day-Lewis ser um dos meus actores favoritos, identifico-me bastante com a personagem que ele interpreta neste filme. Identifico-me com o lado psicológico da alma criadora e com o processo criativo e complexo que foi retratado”, diz o designer Filipe Faísca, no final da antestreia.

Já João Branco e Luís Sanchez, dos Storytailors, não se identificam “por completo” com a personagem principal e contam que, ao contrário do que acontece com Reynolds, “que não se consegue desligar do trabalho nem durante os momentos de pausa, como o pequeno-almoço”, a dupla usa e precisa de “momentos de quebra” para a inspiração surgir.

Para os designers, Reynolds passa por momentos de claustrofobia por não conseguir criar momentos de pausa. “Fica preso nele próprio e não consegue criar e é aí que o papel da mulher é fundamental. Quando Alma entra na vida dele, começa a proporcionar-lhe momentos de pausa.”

Segundo Filipe Faísca, este filme mostra como funciona o processo de criação e tudo o que está associado ao mesmo, como o lado emotivo e o tempo que cada criador dedica a uma obra, bem como outros lados “ocultos e invisíveis” aos olhos dos clientes.

Relativamente ao seu processo criativo, o designer defende que é algo “muito íntimo e inconsciente, na medida em que nunca se sabe bem de onde surge” a inspiração. “Só mais tarde é que consigo desmontá-lo e perceber se vem da tristeza, se vem da alegria, das minhas raízes, de viagens, etc.” Os criadores estão constantemente a captar informação, ou seja, “pormenores visíveis e invisíveis”, que se “podem ou não explicar”, mas que fazem espoletar o processo criativo, continua. “Tudo funciona através de vários códigos que traduzimos para uma mensagem passada através de uma obra, no meu caso as minhas colecções”, resume.

Segundo Filipe Faísca todas as frustrações que a personagem principal do filme sente são “normais e comuns”. “Depois de uma colecção volta-se ao zero, o que é esgotante”, confessa. Para o designer o processo de criação “é uma espécie de ‘renovação da Fénix’, é morrer e renascer, vezes sem conta”, o que por vezes desencadeia muitas frustrações. “Um artista tem de ter força para renascer e essa força vem de ideias que ficaram por pôr em prática ou mesmo de um amor, por exemplo”, explica.

Para Adelaide Borges, “as frustrações fazem parte do processo criativo, já que este parte de uma pessoa com todos os seus conflitos, ansiedades e receios”. Quando se está a criar algo, sobretudo no mundo da moda, há uma dupla pressão, ou seja, “a apreciação do trabalho e a efectivação da comercialização desse trabalho”, acrescenta a professora. Estes dois pontos acabam por fazer eclodir a autocrítica dos artistas. “Este filme retrata muito bem a parte emocional do processo criativo, tanto de quem cria como de quem consome, da empatia entre o criador, a obra e os consumidores”, resume.

Para a coordenadora do curso de Design de Moda, o facto de Linha Fantasma ser alusivo aos anos 1950, “não muda a essência do processo criativo” dos artistas. Contudo, “há outros itens, que naquela época não existiam, como a sustentabilidade e vertente comercial, porque, ao contrário dos artistas plásticos, que podem vir a ser compreendidos mais tarde, no mundo da moda o artista tem de ser compreendido hoje e agora, senão está condenado ao fracasso”.

Nos dias de hoje, Adelaide Borges aponta como obstáculos a concorrência – que também é abordada no filme – e o facto de os consumidores estarem cada vez mais informados. “Nos anos 1950, penso que o que poderia atrapalhar de uma forma mais marcante a liberdade do processo criativo do autor seria o preconceito que então estava vincado na sociedade”, conclui.

Texto editado por Bárbara Wong