A ala jovem do SPD continua o ataque à “grande coligação”

Liderança do partido negoceia com os conservadores enquanto continua o debate interno no partido, e há um referendo à base à espreita.

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Protesto contra a nova "grande coligação" (GroKo) no congresso do SPD de 21 de Janeiro Thilo Schmuelgen/REUTERS
Martin Schulz, o líder do SPD, defende a entrada do partido na "grande coligação" como meio de fazer a diferença em algumas políticas
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Martin Schulz, o líder do SPD, defende a entrada do partido na "grande coligação" como meio de fazer a diferença em algumas políticas HAYOUNG JEON/EPA

A ala jovem dos sociais-democratas alemães continua a ofensiva contra uma “grande coligação”, um bloco central em que o partido seria um parceiro minoritário dos conservadores (CDU-CSU) de Angela Merkel, com uma campanha para novos membros se inscreverem e votarem contra a coligação num referendo que será feito depois do acordo de governo.

Enquanto a liderança do partido negoceia um acordo e tenta incluir algumas bandeiras sociais-democratas no programa de governo, a ala jovem não desarma, depois de no Congresso extraordinário do partido no dia 21 de Janeiro os delegados terem dado uma curta maioria (56,4%) à continuação das conversações para uma “grande coligação” sob a chanceler Angela Merkel.

A campanha para novas inscrições é inspirada no movimento britânico Momentum, que levou também a uma onde de inscrições no Labour para assegurar a reeleição de Jeremy Corbyn como líder do partido (a coordenadora do Momentum Emma Rees esteve em Berlim dois dias para encontros com elementos da Juventude do SPD, segundo o Guardian).

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— Momentum (@PeoplesMomentum) Best of luck to our German friends!

O partido não dá números exactos dos novos membros, com o secretário-geral Lars Klingbeil a declarar apenas: “São muitos e isso agrada-nos”. O diário Frankfurter Allgemeine Zeitung diz que houve até agora cerca de sete mil novas inscrições no SPD.

Não há solução perfeita

A divisão do partido sobre o caminho a seguir é profunda e os sociais-democratas estão num dilema: “Não há uma solução perfeita”, avalia o professor de Ciência política da Universidade Livre de Berlim Thorsten Faas ao PÚBLICO, por email.

O politólogo Gero Neugebauer, que segue há décadas o SPD, diz por telefone ao PÚBLICO que “é preciso recuar aos anos 1950 para encontrar uma situação comparável” em termos de dificuldade e de angústia existencial “sobre o perfil do partido, o programa político, a sua base social, se é um partido de classe ou massas”.

Actualmente, o SPD já não é um “partido do povo”, no sentido em que oferece um pacote total aos eleitores, defende Neugebauer - várias das suas bandeiras são também temas de outros partidos. E também porque passou de marcas como os 30-40% em eleições para os 20% da última votação. A mais recente sondagem, já depois do congresso que aprovou a continuação das negociações, dá-lhes 17,5% de intenções de voto.

"Um pássaro na mão"

O líder da Juventude Social-Democrata, Kevin Kühnert, tem sido a cara da oposição ao acordo, argumentando que não há mandato para a “grande coligação”, já que os dois partidos que a formaram no Governo cessante diminuíram ambos substancialmente a sua votação nas últimas eleições (o SPD com o pior resultado do pós-guerra, a CDU com o segundo pior). Diz que o partido não conseguirá impor nenhuma das suas marcas se se juntar a um governo de Angela Merkel e que faria melhor em ser a principal força da oposição, reinventando-se e ganhando espaço para o pós-Merkel.

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Kevin Kühnert, líder da Juventude Social-Democrata, lidera a mobilização contra a "grande coligação" Fabrizio Bensch/REUTERS

Do lado dos defensores da entrada na coligação está o líder do partido, Martin Schulz, que argumenta com a possibilidade de fazer alguma diferença no poder, em áreas como o trabalho ou, em especial, a política europeia, aproveitando as propostas de reformas do Presidente francês, Emmanuel Macron, para mudar a política da Europa e em especial da zona euro. "É a abordagem do mais vale ter um pássaro na mão", diz Neugebauer.

Para o analista, apesar de ser mais fácil uma mobilização de quem está contra, o que dá uma vantagem aos adversários da “grande coligação”, esta posição parece ser ainda minoritária.

E não será um aumento de cinco ou dez mil membros em cerca de 450 mil que vai ter um efeito decisivo, diz Neugebauer. O mesmo sublinha Thorsten Faas: “Não acredito que tenha influência na votação final, serão uns 2-3% de novos membros, que podem vir de ambos os lados”.

O calendário que se segue

O partido estipulou esta semana que os membros que se inscrevam até 6 de Fevereiro podem votar no referendo – é nesta data que esperam ter terminadas as negociações de coligação.

O referendo é feito por voto postal, e não há ainda uma data para a votação, nem se sabe quando poderá haver resultados.

Tendo em conta o que se passou em 2013, na última vez que houve um referendo a um acordo de “grande coligação” no SPD, passaram 23 dias entre o anúncio do acordo e o apuramento do resultado do referendo aos membros do partido. Então, 76% aprovaram o acordo de “grande coligação”, que incluiu bandeiras do SPD como o estabelecimento de um salário mínimo nacional e a redução da idade da reforma em alguns casos, e se seguia a quatro anos de um governo entre conservadores e liberais.

A situação é muito diferente hoje: esta seria a segunda “grande coligação” seguida, existe um partido de direita radical no Parlamento que se tornará o principal da oposição, e a queda do SPD parece imparável. E os social-democratas não parecem estar a conseguir incluir políticas concretas de importância semelhante para os seus membros.

Caso falhem as negociações para a “grande coligação”, as perspectivas são uma nova tentativa de conseguir uma coligação “Jamaica” (conservadores, liberais, verdes, o que é muito improvável após o falhanço da primeira tentantiva), um governo de Merkel minoritário (a chanceler já disse que não o fará e que prefere ir de novo a votos) ou novas eleições.

A hipótese de novas eleições é, no entanto, má para a CDU/CSU e o SPD. Se houver mesmo uma votação, diz Neugebauer, esta terá um único tema: “Quem matou as negociações?”