Entre a igreja e o clube nocturno está Nils Frahm

A música encantatória para piano do alemão transforma-se, no novo álbum , numa jornada onde tanto temos a contemplação interior como o pulsar exterior.

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Este é um disco que nos exige atenção. Não existe para se diluir na atmosfera. Tem muitas camadas. Mantém o espirito encantatório de sempre, mas num quadro exploratório.

Quem já o viu ao vivo sabe que não é músico para se deixar levar por um ambiente só. Há lirismo, sonho, notas de piano espaçosas que nos acercam do silêncio, mas também sintetizadores analógicos, dinamismo, fisicalidade e arrebatamento, numa odisseia sonora oceânica. All Melody, o novo álbum do pianista e compositor alemão Nils Frahm, 35 anos, é talvez a sua obra que melhor reflecte todas essas cambiantes do palco.

Não é obra fácil e imediata. Ter-lhe-ia sido mais simples ter gravado todo um álbum de peças de piano, daquelas que se insinuam mas que se confundem com o ar que respiramos. Mas ele é daquela extirpe de criadores que não gosta de se repetir. Este é um disco que nos exige atenção. Não existe para se diluir na atmosfera. Tem muitas camadas. Imensos detalhes. Mantém o espirito encantatório de sempre, mas num quadro exploratório. Merece ser ouvido do início do fim de um só fôlego.

“Se pudesse descrever o meu percurso pelos anos numa palavra diria que tem sido bastante flexível”, dizia-nos, em 2014, em antecipação à memorável actuação na Sé de Viseu no evento Jardins Efémeros. “É assim que me sinto. Um artista maleável que gosta de ser confrontado com novos territórios e isso tanto pode suceder através do meu trabalho a solo, em colaborações, em projectos colectivos ou instalações.”

É isso. Nos últimos treze anos Nils Frahm foi capaz de se ir desafiando, especialmente em registos como The Bells (2009), Felt (2011), Screws (2012), uma oferta gratuita oferecida aos admiradores quando se restabelecia de uma lesão num dedo, ou Spaces (2013), gravado ao vivo, e Solo (2015). Pelo meio existiram outros registos a solo, bandas-sonoras e muitas colaborações (Peter Broderick, Ólafur Arnalds ou F.M. Blumm).

O que também não tem faltado são tentativas de o situar, sendo colocado ao lado de outros músicos (Peter Broderick, Hauschka, Olafur Arnalds, Max Richter, Lubomyr Melnyk) ou formações (Bing & Ruth, A Winged Victory For The Sullen) que na maioria tiveram aprendizagem clássica mas nunca perderam de vista a relação com outros territórios, situando-se numa terra de ninguém, nem clássica, nem pop, nem jazz, mas tudo isso. Há quem lhes chame neoclássicos, pós-clássicos ou clássicos contemporâneos, nomes que apenas indiciam dificuldade em situá-los.

De todos, Nils Frahm é provavelmente o mais idiossincrático e estimulante. Para a criação do novo álbum construiu um estúdio em Berlim, resultando daí um registo expansivo que vai muito além das peças minimalistas para piano pelas quais é conhecido por muita gente. Rodeou-se do seu arsenal habitual de instrumentos (piano, sintetizador, órgão), mas desta vez trabalhou também com cordas, trompete, percussões ou um coro.

Há orquestrações envolventes, ritmos que sugerem movimento, crescendos electrónicos e notas de piano que se misturam com linhas de baixo que parecem saídas de um clube de música de dança e coros vocais que parecem libertados de uma igreja, com a qualidade espacial a sinalizar uma atmosfera de gravidade. Há qualquer coisa de familiar e simultaneamente de diferente no enquadramento global. Ou, como ele afirmava recentemente, “desejo fazer música que parece que esteve sempre aí à nossa disposição, mas que nunca foi ouvida anteriormente.”

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Para a criação do álbum construiu um estúdio em Berlim, resultando daí um registo expansivo que vai além das peças para piano pelas quais é conhecido

Existe uma fluidez, uma noção de jornada, sem um narrador, com os sons a proporcionarem uma experiência imersiva. Robert Raths, o responsável pela editora Erased Tapes (casa de Nils Frahm há dez anos), dizia que este é o álbum onde consegue vislumbrar o amigo que tanto gosta de ir a uma festa de tecno e que é o mesmo que quando regressa tardiamente a casa, durante a madrugada, se senta e começa a tocar peças harmónicas.

A relação que ele tem com a música é intensa. Acredita nas suas propriedades transformadoras. Compor fez dele uma pessoa emocionalmente mais inteligente, dizia-nos há quatro anos. Mais recentemente, à revista Les Inrocktibles, falava dessa faculdade que o som pode ter de conseguir comunicar com o inconsciente do ouvinte, provocando com este um diálogo interno e retirando daí coisas essenciais.

A descoberta dos instrumentos foi impulsionada pelos pais. Na infância aprendeu a tocar piano com Nahum Brodski, um dos últimos discípulos de Tchaikovski, mas na adolescência percebeu que havia muito mais para descobrir do que tocar apenas Chopin ou Satie, fazendo parte de várias formações de outras inclinações musicais. Foi apenas em 2007 que regressou ao piano, começando a compor música que, na sua visão, fosse capaz de interpelar o corpo, o espírito e a imaginação, inspirando-se em Miles Davis, Steve Reich, Brian Eno, John Cage ou nos Massive Attack.  

Por norma os seus discos têm sempre um ponto de partida conceitual. Necessita de ter uma ideia operatória, qualquer coisa que numa fase inicial de um projecto atribuía sentido ao que produz, mesmo se o resultado final já pouco tem a ver com o idealizado primeiramente. Gosta de criar balizas que lhe permitam explorar ao máximo a partir desses limites por si impostos. Em All Melody nada disso sucedeu. Dir-se-ia que se limitou a adaptar ao novo estúdio construído, escutando-o com cuidado, não o contrariando, dando-lhe o que ele necessitava. No fim de contas repetindo com o estúdio o mesmo procedimento quando se apresenta ao vivo.

O resultado não é apenas música clássica, ou ambiental, ou de câmara, ou minimalista, ou cinemática, mas algo que contém propriedades disso tudo, notas de piano ondulando num movimento contínuo, rodeadas de ambientes electroacústicos e uma delicada tapeçaria sonora, numa sonoridade instrumental tão rigorosa quanto emotiva. Música que nos faz perder a noção de tempo e espaço, como se quisesse sinalizar qualquer coisa que que nos transcende e que está para lá das nossas experiências.

Nils Frahm chama-lhe música que perdura. Na sua visão, no contexto actual, quando a música se tornou omnipresente nos espaços privados e públicos, transformando-a numa experiência indiferenciada, é preciso voltar a dedicar tempo e atenção ao acto de ouvir uma obra. Nem que seja como reacção à escuta fragmentada dos nossos dias, é alguém que acredita que o formato álbum voltará a adquirir a relevância que poderá estar a perder. Pode até estar errado, mas ninguém o pode acusar de não estar a tentar cumprir na prática com aquilo que professa na teoria.

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